Vítimas do tráfico de drogas aumentam no Ceará

O ciclo, em geral, começa com uma convite que parece inocente

Uma vez dentro do ?esquema? das drogas, fica dif?cil sair. Por esta raz?o, todos os dias se tem not?cia de pessoas - a maioria homens e ainda jovens - que pagaram d?vidas a traficantes com a pr?pria vida. Ou o mais absurdo: perderam parentes como ?juros? ou como parte do pagamento.

Traficantes n?o costumam tolerar infidelidade, den?ncia, concorr?ncia ou trai??o. Pais que perdem filhos, m?es que choram os seus meninos, mulheres que v?em os companheiros mortos. Fam?lias inteiras destru?das pela rede criminosa que vem se fortalecendo cada vez mais em todo o Pa?s. No Cear?, n?o ? diferente.

O ciclo, em geral, come?a com uma convite que parece inocente. ?Um traguinho s?, que meses depois, vira d?vida. A? vem o envolvimento macro no crime: furtos, roubos, assassinatos. Tudo vale para n?o dever ao distribuidor. Vale roubar, matar. E a?, o viciado virou ref?m, para sempre. O resultado: homens e mulheres brutalmente assassinados por motivos que se relacionam, direta ou indiretamente, com o tr?fico. As execu?es, todas sum?rias, para n?o ocorrer d?vidas de que pudessem as v?timas sobreviverem. Em muitos bairros da Capital cearense o tr?fico domina e apavora a comunidade. Apesar da amea?a ser constante, a popula??o se cala, por medo. Quem fala, morre.

Crueldade

A crueldade e ?determina??o? dos traficantes ficaram estampadas em dois crimes ocorridos recentemente em Fortaleza. Na noite do dia 15 de agosto ?ltimo, o vigia Ant?nio Pessoa Holanda foi executado a tiros em frente ao seu local de trabalho na Avenida Washington Soares, Messejana.

Bandidos em uma moto pararam no local e atiraram naquele homem. Trabalhador, pai de fam?lia, Ant?nio perdeu a vida para o tr?fico. Mas como isso aconteceu? O alvo era seu filho, que encontrava-se preso. Quando foram matar o rapaz, os bandidos n?o o encontraram. Souberam que estava preso. Ent?o, resolveram deixar sua ?marca? em um homem que nada tinha a ver com aquilo.

Paulo S?rgio da Silva, assassinado a tiros no ?ltimo Dia dos Pais (10 de agosto), tamb?m foi morto por causa do filho. O crime aconteceu na Rua Pirineus, Mondubim. Bandidos tinham ido matar o filho, o rapaz correu e o pai acabou atingido.

A dor de perder um filho para o tr?fico de drogas foi mostrada, com exclusividade, pelo Di?rio do Nordeste, na edi??o do ?ltimo dia 25 de setembro. Na capa, que teve como t?tulo ?Guerra imposta pelo tr?fico?, o jornal exibia a imagem desesperada de Maria de F?tima da Silva, 52, dona-de-casa.

O filho ca?ula dela, Ant?nio Nielsen Silva, 25, usu?rio de drogas, foi atingido a tiros no peito e nas n?degas. N?o resistiu. A m?e encontrou o cad?ver do filho em uma das ruas do Conjunto S?o Miguel. Aos prantos, a mulher jogou-se sobre o corpo do filho, abra?ando-o com for?a e gritando por justi?a. ?Pelo amor de Deus, fa?am alguma coisa por n?s, m?es do S?o Miguel. Estamos perdendo nossos filhos!?.

MORTES EM S?RIE - Conjunto S?o Miguel, em Messejana: um cap?tulo ? parte

Apesar de o problema das drogas estar disseminado por toda a Grande Fortaleza, o Conjunto S?o Miguel, em Messejana, pode ser considerado um caso especial. L?, at? o ?ltimo dia 25 de setembro, 17 mortes relacionadas de alguma forma ao tr?fico de drogas tinham sido registradas.

A ?guerra? imposta pelo com?rcio de drogas j? resultou nestes crimes, alguns deles, com v?timas inocentes. Um destes casos, que causou grande como??o no bairro de Messejana, foi o do vigilante Ant?nio Pessoa Holanda, de 65 anos. Ele foi executado na porta de seu trabalho, a mando de traficantes que tinham ido matar seu filho. Como o jovem encontrava-se preso, mataram o pai.

Desafio

O Conjunto S?o Miguel ? repleto de ruas estreitas e becos, e transformou-se num desafio para as autoridades da seguran?a p?blica. Embates constantes entre gangueiros traficantes ocorrem a qualquer hora do dia. Para piorar, a comunidade ? humilde, com elevado n?mero de pessoas desempregadas e de crian?as e jovens fora da escola. Por esta soma de fatores, fica aberto o caminho para os traficantes recrutarem clientes de drogas e gangueiros. N?o por acaso, ocorre a permanente disputa entre os gangueiros traficantes pelo controle do ?territ?rio?.

Se n?o bastasse a circula??o f?cil de entorpecentes, armas de grosso calibre tamb?m s?o abundantes no Conjunto S?o Miguel. Diversas j? foram apreendidas pela Pol?cia em poder de bandidos. Outras, nem foram encontradas ainda. ?Sabemos que existem, pelo menos, duas armas pesadas, uma delas, um fuzil. Ainda n?o conseguimos ach?-las?, conta um policia militar do Batalh?o de Choque, que j? participou de opera?es de satura??o realizadas naquela ?rea.

Sitiados

Moradores se sentem sitiados, prisioneiros em suas casas. Sem dizer os nomes, por medo de repres?lias, afirmam que est?o perdendo o direito de ir e vir ou simplesmente ficar na cal?ada de casa at? tarde da noite. A qualquer hora pode ocorrer tiroteios entre os criminosos por mais espa?o para o tr?fico de drogas ali.

Muitos sabem onde os bandidos escondem as armas, mas preferem calar. Impera a lei do sil?ncio. E o sil?ncio gera a impunidade na comunidade.

OPINI?O DO ESPECIALISTA - ALBERTO PLUTARCHO: A preven??o come?a em casa, no lar

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Integrante do projeto ?Compromisso com a vida?

Pessoas, nos mais diferentes lugares, em cidades consideradas pacatas, em fam?lias ditas ?equilibradas?, s?o surpreendidas pela viol?ncia promovida pelas drogas. Adolescentes e jovens, na ilus?o do prazer, com a vontade de descobrir e de sentir ?novas sensa?es?, s?o facilmente tragados por subst?ncias que t?m a capacidade de transform?-los em verdadeiros escravos e ainda lev?-los a praticar atos violentos, dentro e fora de casa.

A grande oferta de drogas e a dif?cil miss?o dos ?rg?os repressores em coibir a?es criminosas de compra e venda dessas subst?ncias, muito contribui para a prolifera??o desse mal. A falta de perspectiva do jovem num mundo de concorr?ncia infernal, valores invertidos, desinforma??o, desigualdade social, aus?ncia de referenciais positivos tamb?m contribuem. A fam?lia ? a maior sofredora e a maior perdedora nessa guerra. O lar ? o ambiente ideal para se promover a preven??o. Acredito que a sa?da est? na constru??o de rela?es fortes, di?logo, troca de informa?es, interesse no outro, cria??o de oportunidades para uma maior aproxima??o entre as pessoas, a come?ar em casa. ? uma luta de todos n?s!

Fonte: Diário do Nordeste, www.diariodonordeste.com.br