Zona Norte de Teresina possui 186 bocas de fumo

Zona Norte de Teresina possui 186 bocas de fumo

Policias civis e militares deram cumprimento a três mandados de busca e apreensão naquela área.

O que têm em comum os Bairros São Joaquim, Poti Velho, Matadouro, Morro do Urubu, Parque Alvorada e Boa Esperança? Além de estarem todos localizados na zona Norte de Teresina, esses locais concentram o maior número de bocas de fumo da capital. Somente ontem (18), policias civis e militares deram cumprimento a três mandados de busca e apreensão naquela área.

O documento foi expedido pelo juiz da 7ª Vara Criminal, Almir Abib Tajra. Segundo ele, o Bairro São Joaquim se destaca em relação à quantidade de bocas de fumo. ?Eu deferi muitos pedidos de busca e apreensão para aquele bairro. A polícia tem feito um trabalho razoável na região da zona Norte?, afirma o juiz. Abib Tajra conta que é comum, em uma única rua, haver várias casas a serviço do tráfico.

?Por isso, num mandado muitas vezes constam até 20 endereços diferentes?, explica Abib. O documento é o que permite à polícia invadir as casas e procurar indícios de tráfico como drogas, dinheiro e armas.

De acordo com Samuel Silveira, titular da Delegacia de Entorpecentes, a Secretaria de Segurança determinou a intensificação no combate às bocas de fumo. Somente em operações da Entorpecentes, nos dois primeiros dias desta semana, foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão. ?Só não encontramos droga porque os traficantes espalham pequenas quantidades em muitas bocas. É uma forma de fugir do flagrante da polícia?, afirma o delegado.

Segundo um levantamento que vem sendo realizado pela Polícia Civil, somente na região atendida pelo 7º Distrito Policial foram detectadas 186 bocas de fumo, desde o dia 4 de janeiro. O número pode se mostrar ainda maior, com a continuação do levantamento.

Uma série de reportagens publicada pelo jornal Meio Norte, no ano de 2010, mostrou que o comandante do tráfico na Zona Norte é conhecido como Nego Velho. Segundo uma fonte que não pode ser identificada, o homem tem várias olarias no bairro PotI Velho e é protegido por alguns moradores, pois distribui cestas básicas à população. Mesmo com o conhecimento da polícia sobre o traficante, ele ainda permanece solto e não possui sequer mandado de prisão em seu nome.

Um misto de tensão, medo e curiosidade estava expresso nos olhos dos moradores. Muitas crianças choravam sem entender exatamente o que estava acontecendo na manhã de ontem, na rua Alfa, Bairro Poti Velho.

Cerca de 30 policiais do Rone, 9º Batalhão da Polícia Militar, 7º Distrito Policial e serviço reservado do 1º BPM, invadiram cinco casas naquela rua para dar cumprimento a um mandado de busca e apreensão de armas e drogas.

A ação policial foi precedida de seis meses de investigação. O mandado judicial autorizava os policiais a entrarem nas casas das pessoas conhecidas como Carlinhos, Clarice, Vereador e Neto. Após a operação, três pessoas foram presas. Entre elas a esposa de Carlinhos, Jaqueline. A mulher estava muito nervosa e precisou ser algemada.

Na residência e no comércio do casal foram encontrados aproximadamente 500 gramas de crack, uma espingarda, cinco balas de revólver calibre 38 e várias notas de R$ 2,00 e de R$ 5,00. O dinheiro estava espalhado por vários lugares da casa. Dois comprovantes de depósito nos valores de R$ 9 mil e R$ 7 mil também servirão como prova do tráfico de drogas.

Entre as pequenas casas da rua, a de Jaqueline e Carlinhos se destacava pelo tamanho e quantidade de bens valiosos encontrados pelos policiais, entre eles uma TV de LCD e um playstation 3, que custa em torno de R$ 2 mil.

?Esse comércio que eles têm é pequeno e funciona apenas como fachada?, afirma o chefe de investigação do 7º DP, Erlon Viana.

Além do tráfico de drogas, Jaqueline será autuada por crime ambiental. Na sua casa foi encontrado um papagaio e, no comércio, um tatu já morto estava exposto à venda. Seu marido não foi encontrado.

Moradores que não têm relação com o crime sofrem com ação policial

A proximidade com o tráfico de drogas traz prejuízos mesmo para as pessoas que não têm relação alguma com o crime. Durante a ação na Rua Alfa, uma das moradoras teve o portão quebrado após vários chutes dados pelos policiais. A operação não era especificamente na sua casa, mas a justificativa era de que havia mandado judicial.

Revoltada, a mulher só não entendia porque os policias não solicitaram que ela abrisse a porta, antes de arrombá-la. ?Eu tinha comprado o portão há pouco tempo e agora ele está assim. Quero ver como vamos fazer se não fechar mais?, gritava ela. Do outro lado, uma mãe chorava bastante, ao ver seu filho rendido e levado pela polícia. ?Uma humilhação dessa só acontece porque a gente é pobre?, reclamava a mulher. Os policiais ainda ameaçaram prendê-la se ela não parasse de atrapalhar a ação.

Para o tenente Gerson Santana, coordenador de policiamento da zona Norte, essa resistência da população é um empecilho para a polícia. ?As pessoas são as primeiras a denunciar e depois se negam a contribuir com o nosso trabalho?, alega Santana. Armando Alves de Oliveira, foi buscar a filha na casa do irmão, Carlinhos, no momento da ação policial. Muito nervoso, o homem tentava explicar que não tinha relação nenhuma com o crime.

?Cada um tem a sua vida, meu irmão tem a dele e eu não sei de nada. Sou um trabalhador e nunca me vi nessa situação. Só quero ir embora daqui?, disse Armando, que foi liberado pelos policiais em seguida.

Muitas crianças acompanhavam a ação assustadas. As cenas e os gritos de ordem dos policiais dificilmente sairão da memória. Mulheres, grávidas e idosos também sentiram na pele a consequência de serem vizinhos do tráfico.





Fonte: Nayara Felizardo