Ciro teme que Lula atue nos Estados para impedir sua candidatura

Deputado duvida que presidente lhe peça pessoalmente para desistir, mas não descarta que PSB seja pressionado a não dar legenda

O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) teme que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atue nos Estados em que o PSB mantém aliança com o PT para constranger seu partido a não lhe conceder a legenda para sua planejada candidatura à Presidência da República. Em entrevista exclusiva à TV Estadão nesta quinta-feira, 18, Ciro desautorizou as versões de que teria uma conversa definitiva sobre seu futuro político com Lula em março - "vocês marcaram para anteontem, mas ele está em Israel", brincou -, mas não descartou que o presidente atue nos bastidores para impedi-lo.

"O Lula, pela delicadeza que ele me trata, pelo respeito que ele me tem, e é recíproco, até maior o meu - eu gosto dele fraternalmente, com muito carinho, além do respeito, da gratidão pelo bem que ele faz ao povo brasileiro - ele não me pedirá jamais pra eu não ser candidato", disse o deputado. Questionado se haveria outras formas de o presidente fazê-lo ficar de fora do pleito, Ciro concordou: "As outras formas podem ser muito cruéis. Por exemplo, constranger o partido a não me dar legenda."

O deputado se refere aos diretórios estaduais do PSB que trabalham pela candidata de Lula, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), em troca de uma aliança com o PT para o governo dos Estados. Rio Grande do Norte e Sergipe vivem esse dilema. No Rio Grande do Norte, a governadora Wilma de Faria, do PSB, trabalha para emplacar a candidatura de seu vice, Iberê Ferreira de Souza, do mesmo partido, ao governo do Estado. Em Sergipe, o governador Marcelo Déda, do PT, que deve concorrer a reeleição, tem como vice Belivaldo Chagas Silva, do PSB.

"A seção de Sergipe, seção do Rio Grande do Norte, são seções respeitadas, porque eles têm uma aliança com o PT, e ali o PT os constrange. Mas esquecem os companheiros que eu também tenho uma aliança com o PT. Nós temos aliança com PT nos três estados que governamos e nos cinco estados que o PT governa", contemporizou.

Ainda assim, ele garante ter, na legenda, o apoio necessário para pleitear a candidatura. "Tudo o que eu faço, até o presente momento, está em perfeita sintonia com a direção do meu partido."

Ibope

O deputado também minimizou a importância da pesquisa CNI/Ibope divulgada na quarta-feira, 17, em que sua candidatura aparece como um fator neutro na definição do segundo turno. O levantamento vai no sentido oposto da tese, defendida por Ciro, de que sua candidatura seria um fator decisório para que Dilma leve a decisão para o segundo turno.

"A candidatura existe para apresentar uma proposta, um projeto. E é grave a necessidade no caso brasileiro, porque eu considero, sendo aliado do presidente Lula e amigo dele, um equívoco, que faz mal pro país, fazer das eleições gerais de 2010 um plebiscito despolitizado entre os amigos do Lula, nos quais eu me incluo, e os amigos do (ex-presidente) Fernando Henrique Cardoso. O Brasil não cabe nisso", afirmou.

Sobre sua participação nas eleições, mesmo que com chances remotas de se eleger, Ciro considera ser "imperativo moral participar do debate, se você tem, como eu, uma responsabilidade com o país".

O ex-ministro da Integração Nacional criticou ainda a atuação do governo em áreas como a saúde e educação. "Se você despolitizar o debate, como fica o futuro da saúde pública, que não vai bem, da educação pública brasileira, que não vai bem, da violência urbana?", argumenta.

Fonte: Estadão, www.estadao.com.br