FHC acusa Lula de confundir interesses públicos e privados

FHC acusa Lula de confundir interesses públicos e privados

Ex-presidente FHC particpa de evento com prefeitos eleitos do PSDB, no Jockey Club, em São Paulo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse ontem que seu sucessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), se esquiva de dar explicações sobre "as relações confusas que foram estabelecidas em seu governo" e criticou "a confusão entre o público e o privado" na gestão petista.

"Uma coisa é o governo, a coisa pública, outra coisa é a família. A confusão entre seu interesse de família ou seu interesse pessoal com o interesse público leva à corrupção e é o cupim da democracia."

O ex-presidente falou sobre o assunto durante uma palestra a prefeitos eleitos pelo PSDB em São Paulo.

Durante quase 30 minutos ele dissertou sobre a conduta, as bandeiras e o futuro de seu partido. Permeou todo o discurso com críticas ao PT, à política econômica e à conduta de Lula.

"Temos que descupinizar essa confusão que está havendo entre o interesse público e o interesse privado. Essa é uma diferença essencial do PSDB que tem que ser mantida. E quando [for] um dos nossos, vamos contra ele."

Sua fala foi interpretada por aliados como uma referência à Operação Porto Seguro, que indiciou por suspeita de corrupção e tráfico de influência a ex-chefe de gabinete do escritório da Presidência em São Paulo, Rosemary Noronha, figura muito próxima a Lula e ao ex-ministro José Dirceu.

Rose, como ela é chamada, conheceu Lula nos anos 1990, trabalhando com o então presidente do PT, José Dirceu, a quem assessorou por 12 anos.

Com a eleição de Lula, em 2003 ela foi nomeada assessora especial do gabinete regional da Presidência. Em 2005, se tornou chefe da unidade. De lá até 2010, fez 32 viagens com o ex-presidente.

Ela foi mantida no cargo em 2011, a pedido de Lula, pela presidente Dilma Rousseff.

Nunca acompanhou Dilma em comitivas internacionais. Só deixou o cargo no sábado passado, quando foi exonerada após a operação da PF ser deflagrada.

Durante a gestão do ex-presidente Lula, Rose exerceu grande influência, chegando a indicar apadrinhados a cargos de direção no governo --dois desses, os irmãos Paulo e Rubens Vieira, foram presos pela PF.

"O presidente Lula, ainda ontem, em vez de explicar as relações confusas que foram estabelecidas no seu governo e que deram em corrupção, foi se dar ao luxo de dizer que tirou não sei quantos milhões da pobreza. Tirou, porque mudamos o Brasil. A primeira grande redução de pobreza nesse período foi com o Plano Real", disse FHC, no início de sua fala.

Após a palestra, questionado sobre o conteúdo de suas críticas, FHC disse que "não tinha em mente" a Operação Porto Seguro quando fez o discurso. "Isso é norma geral", afirmou.

"Eu não gosto de entrar em detalhes. Não sei o que está acontecendo, não sou da investigação. Isso é geral. Não dá certo. O maior problema da nossa cultura política é o clientelismo e o patrimonialismo, a confusão do público com o privado. Isso vem do Império, vem da colônia, mas tem que acabar", afirmou.

Ainda durante a fala, FHC disse que o PSDB precisa ir às ruas protestar contra a corrupção. Ele citou o julgamento do mensalão e disse que o fato mais importante do caso é que "pessoas poderosas foram tratadas como cidadão comum". Procurados, o PT e Instituto Lula não comentaram as declarações.

Fonte: Folha