Legado de guerras e crises na gestão de Bush ajuda início do governo de Obama

Bush se gabou durante muito tempo de sua política econômica

Se não se mexe em time que está ganhando, mudança em equipe que está perdendo sempre vai ser bem recebida. Na política, como no futebol, Barack Obama assume a Presidência dos Estados Unidos na próxima terça-feira (20) bem cotado, sob muita expectativa, mas aproveitando a baixa popularidade de Bush, que deixa um legado de guerras, crises e avaliação negativa por todos os lados.

?Ele tem uma grande oportunidade de se destacar, pois vai assumir o poder numa situação semelhante ao que aconteceu em 1981 com Ronald Reagan, quando o país passava por uma crise econômica. Na pior das hipóteses, Obama vai ficar um bom tempo sem levar sapatadas, o que é um bom começo?, disse o historiador Andrew Rudalevidge ao G1.

Autor de ?O Legado de George W. Bush? (não lançado no Brasil), atualmente vivendo na Inglaterra, foi ele quem fez a metáfora da política com o futebol, comparando os EUA à situação em que Felipão assumiu o time do Chelsea. ?Ele substituiu um técnico muito criticado pela torcida e teve uma boa margem para trabalhar sem pressão. Com o tempo, entretanto, a expectativa vai mudando.?

Para o historiador, a guerra no Iraque vai ser o principal marco do legado de Bush. ?A guerra chamou muita atenção, roubou os holofotes e pode até ser apontada como uma das responsáveis pela crise econômica, que distraiu o governo de tomar atitudes para evitar a catástrofe.?

Economia

Bush se gabou durante muito tempo de sua política econômica, referindo-se constantemente aos 50 meses consecutivos de criação de empregos e a quatro anos de crescimento ininterruptos. Nos últimos meses, no entanto, seu governo teve de lidar com uma crise que contaminou a economia mundial. Em 2008, os Estados Unidos perderam mais empregos do que nunca desde 1945.

Para o cientista político Bert Rockman, autor de ?A Presidência de George W. Bush? (não lançado no Brasil), esta crise, e o que ela representa para o futuro da economia mundial, vão ser os principais pontos do legado do presidente. ?A crise vai ser um marco sobre toda a forma de se pensar economia, pois ficou claro que a falta de regulamentação pode ser um problema. Bush é responsável por não ter dado atenção suficiente a estes problemas econômicos, o que poderia ter evitado a crise?, disse

á Rudalevidge, historiador que estudou o que pode ser este legado, diz que é difícil culpar Bush pessoalmente pela crise. ?A desregulamentação do mercado tem fortes defensores em todo o país, e são pessoas que garantiram a manutenção do sistema que agora parece quebrado?, disse. Ele completa, entretanto, admitindo que, se os presidentes querem o crédito de estarem no poder durante momentos de crescimento econômico, têm que aceitar a culpa em casos de crise como a atual. ?Isso sem dúvida vai manchar a historia do seu governo.?

Efeitos políticos

Além de entregar o país a Obama em uma situação que facilita o governo do democrata, os pesquisadores dizem que Bush pode ser apontado por um responsável por uma transformação radical na arena política dos Estados Unidos. Foi Bush que deixou, de presente, que a ideia de ?mudança? se tornasse a mais forte arma da campanha presidencial, que mudou a cara do eleitorado do país, e que diminuiu a força política do Partido Republicano.

?O fracasso de popularidade das políticas de Bush mudaram o perfil do eleitor norte-americano, e isso foi responsável em larga medida pela eleição de Obama. Tudo que sua campanha precisou fazer foi mostrar que ele era diferente de Bush, e isso conquistou muitos votos?, disse Rudalevidge.

Para o historiador, a ?marca? do Partido Republicano ficou marcada pela baixa popularidade do governo Bush. ?Este seu principal produto, que era bem aceito até 2005 fracassou completamente desde então. Agora o partido precisa repensar suas posturas, sua marca, e até sua identidade para se manter forte no país.?

O pior

Slogan de campanha de opositores, nos últimos anos de governo Bush foi comum ouvir análises que o apontavam como o pior presidente da história dos Estados Unidos. Numa pesquisa recente do instituto Rasmussen, 57% dos eleitores disseram concordar que ele seria lembrado pelo menos como um dos cinco piores de todos os tempos.

Rudalevidge discorda. ?Ele tem muitos concorrentes?, brincou, lembrando que o país passou por uma guerra civil e que é difícil fazer o julgamento da história imediatamente. ?Precisamos ter detalhes sobre o que aconteceu, o que só se saberá no futuro.?

Segundo ele, é possível que a reputação de Bush melhore ao longo do tempo. Isso aconteceu com Harry Truman, lembra, mencionando que não é de se surpreender que Bush já tenha dito que quer ser lembrado como Truman, alguém que tomou decisões difíceis, não mudou de idéia, e que foi responsável por manter o pais seguro. ?O veredicto no curto prazo é negativo. Ele precisa torcer para que, em 15 anos, passemos a entender o que o levou a tomar as decisões que tomou.?

Apesar de aceitar o argumento de que a avaliação de Bush pode mudar, o cientista político Rockman acha difícil que o atual presidente se aproxime de Truman. ?Truman era um presidente que pensava e estudava muito suas decisões. Eram escolhas difíceis, pouco populares no princípio, mas sempre muito bem calculadas. Bush não gosta de analisar as situações. Ele admite que sua política inclui pouca leitura, ouvir poucas pessoas e por pouco tempo, então as conseqüências não devem ser tão bem planejadas como o que ocorreu com Truman?, disse.

Ainda soando como uma defesa de Bush, Rudalevidge diz que é preciso analisar as circunstâncias em que ele governou. ?Não podemos dizer que todo o declínio por que o país passou nos últimos anos é culpa do presidente. Acho que suas políticas não foram positivas, mas a história também não ajudou?, disse.

Lados positivos

Se é verdade que ele não vai ser visto como o pior de todos os tempos, é natural imaginar que também há pontos positivos nos oito anos da sua presidência. O próprio presidente defendeu seu legado em seus últimos discursos, e algumas semanas antes de deixar o governo, sua equipe divulgou um documento com ?100 coisas que os americanos podem não saber sobre o hitórico do governo Bush?. Entre os principais orgulhos, está registrado que ele ?manteve o país seguro?, ?promoveu a liberdade no mundo?, ?melhorou a educação? e ?fortaleceu o sistema de saúde pública?.

Fonte: g1, www.g1.com.br