Marcos Valério estrutura vida no interior de Minas Gerais para evitar prisão de segurança máxima

Marcos Valério estrutura vida no interior de Minas Gerais para evitar prisão de segurança máxima

Valério também é réu em vários outros processos ainda em tramitação

Sob a ameaça de passar o resto da vida na cadeia, Marcos Valério Fernandes de Souza reorganizou sua vida para tentar para cumprir pena no modesto presídio Promotor José Costa, em Sete Lagoas, a 80km de Belo Horizonte. O planejamento não só envolve mudança de domicílio como também a formalização de união estável com uma jovem de 21 anos por meio de um contrato de gaveta. O objetivo do operador do maior escândalo de corrupção do governo do ex-presidente Lula é evitar a penitenciária de segurança máxima Nelson Hungria, na Região Metropolitana de BH, destino certo dos bandidos mais perigosos do estado.

Condenado a 40 anos, quatro meses e seis dias de prisão no processo do mensalão do PT, Valério também é réu em vários outros processos ainda em tramitação, entre eles o mensalão tucano em Minas. Na Justiça Federal de Minas, Valério foi condenado, em janeiro, a quatro anos de prisão, por sonegação fiscal.

O operador do mensalão já obteve sua primeira vitória a fim de escapar da penitenciária Nelson Hungria. No cadastro da Polícia Federal (PF) em Minas, consta que Valério possui a fazenda Santa Clara como moradia oficial. Ele reside hoje em uma mansão na fazenda Santa Clara, em Caetanópolis, cidade a 30km de Sete Lagoas, com pouco mais de dez mil habitantes e que não tem presídio. A solicitação para cumprir pena em Sete Lagoas será apreciada pela Vara de Execuções Criminais e pela Secretaria de Estado de Segurança Pública.

Responsável pela defesa de Valério, o criminalista Marcelo Leonardo disse ao GLOBO que cabe ao réu o direito de cumprir pena próximo ao local de sua residência.

- O condenado tem direito de cumprir a pena preferencialmente próximo de sua residência e da família.

Prisão menor não tem bloqueador de celular

Com 430 detentos, divididos em quatro alas - um quinto pavimento está sendo construído -, o local, visitado pelo GLOBO na última semana, não possui bloqueio de proteção para celular e nem tem previsão de ter. De janeiro para cá, dois pentes-finos nas celas resultaram na apreensão de vários aparelhos e porções de drogas.

Para assegurar o direito de receber visitas íntimas, Valério se casou recentemente com uma jovem baiana de 21 anos, moradora de Sete Lagoas. O casamento foi celebrado através de um contrato de união estável, sem registro em cartório, mas oficialmente feito por um advogado e amigo íntimo dele. Valério e sua primeira mulher, Renilda Santiago, mãe de seus dois filhos, romperam o matrimônio em meio ao julgamento do mensalão pelo STF.

Diferentemente da penitenciária Nelson Hungria, que abriga hoje quase dois mil detentos - entre eles, o traficante internacional de fuzis Márcio de Souza e Silva, o Márcio Carioca, ligado a Nem da Rocinha -, Valério terá em Sete Lagoas a companhia de condenados por pequenos furtos.

O operador do mensalão teme, na Nelson Hungria, a repetição da experiência que teve em Tremembé (SP), onde, segundo ele, teria passado 97 dias de terror. Em relato informal para agentes da Polícia Federal de Belo Horizonte, alguns dias depois de ser solto, Valério mostrou a arcada dentária refeita, diversos cortes nas costas e revelou que foi vítima de violência no presídio de São Paulo. A temporada em Tremembé aconteceu após Valério ter sido fisgado durante a Operação Avalanche, da PF, em outubro de 2008, acusado de participar de uma fraude tributária de R$ 105 milhões.

Nos últimos seis meses, o operador financeiro do mensalão passou a circular com desenvoltura na turística Sete Lagoas, cidade com cerca de 215 mil habitantes, conhecida por suas grutas, serras e lagoas. Já foi visto passeando no shopping, prestigiando um evento de quitutes da culinária mineira, em baladas em casas de shows, em cervejarias e pizzarias ao redor da Lagoa Paulino, um dos principais cartões-postais de Sete Lagoas.

Valério já possui até conselheiro espiritual na cidade

Na cidade, Valério já possui até conselheiro espiritual, o padre e vereador Décio Márcio Majela Abreu (PP). Ao GLOBO, o parlamentar contou que conheceu Valério há oito anos, no confessionário da igreja, e que hoje ele o considera um amigo.

- Quando precisa de uma orientação espiritual, ele me procura. O primeiro atendimento foi no antigo local de trabalho dele em Belo Horizonte. Depois rezei umas quatro missas na fazenda de Caetanópolis. Digo que tenho um relacionamento de amizade com o Marcos. Ele é cristão, e assistência religiosa é um direito de qualquer cidadão.

Caso vá mesmo cumprir pena em Sete Lagoas, Valério terá direito a uma TV de 14 polegadas, rádio AM/FM, revistas e livros à vontade, excluindo conteúdos pornográficos, banho de sol diário de duas horas, visita de parentes nos fins de semana e encontros íntimos, de segunda a sexta. Durante o período recreativo, poderá jogar futebol. Ou, se preferir, poderá frequentar escola ou trabalhar numa fábrica de tijolos. Se conseguir entrar na lista dos presos de confiança da cadeia, poderá até sair para trabalhar fora da unidade prisional.

Fonte: O Globo