Marina: “Mangabeira fez grande mal na Amazônia”

Marina criticou o “fracasso” na convenção climática em Copenhague, em dezembro do ano passado

Honrado. Foi assim, em tom de cabo eleitoral, que o músico e compositor Lobão encerrou a estreia do programa Lobotomia, que foi ao ar ontem (segunda,8), na MTV, às 23h30. Em pleno ano eleitoral, a primeira convidada do programa ?racional, cerebral, a exposição de meu cerebelo?, palavras do próprio apresentador, foi a pré-candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva. Ex-ministra do Meio Ambiente (2003-2008), Marina foi categórica ao mencionar seu principal desafeto no governo Lula, o ex-ministro de Assuntos Estratégicos Mangabeira Unger ? que tomou para si o Plano Amazônia Sustentável, estopim para a saída de Marina daquela pasta.

?Mangabeira ajudou a fazer um grande mal para a Amazônia?, sentenciou Marina, no terceiro e último bloco do programa de 30 minutos, quando o assunto foi, enfim, o meio ambiente ? até então, questões políticas gerais nortearam a conversa.

Provocada por Lobão (?a senhora é considerada um anjo da guarda pelo Greenpeace?), Marina criticou o ?fracasso? na convenção climática em Copenhague, em dezembro do ano passado, quando Lula, segundo a senadora, só levou projeto de redução de impacto ambiental ?porque a sociedade pressionou?. ?Os governos foram para lá como se fossem convidados, não como anfitriões, como atores daquilo tudo?, declarou, em referência à responsabilidade das nações desenvolvidas acerca da degradação ambiental.

Marina fez críticas aos gestores públicos brasileiros no que diz respeito às políticas proativas contra desastres ambientais. Para a senadora, falta ?planejamento correto, sistemas de alerta?. ?Todo ano morrem centenas de pessoas em enchentes, a gente assiste a tudo e fica esperando a próxima. Isso acontece porque as pessoas estão morando nas encostas e os governantes não fazem nada?, disparou a senadora, para quem a legislação ambiental é sistematicamente desrespeitada.

?Marquetice canastrona?

Carregando nos neologismos, Lobão iniciou o programa fazendo um contraponto entre o estilo de ?coloquialidade? de Marina e a máquina governista marcada pela ?marquetice canastrona?. O apresentador iniciava ali uma crítica à linguagem política majoritariamente usada hoje em dia ? no que foi seguido por Marina, para quem a linguagem na política ?é meio morta, repetida?.

?Não consegue criar nenhum laço efetivo com as pessoas?, disse a senadora, que deixou o PT em agosto de 2008 e, no mesmo mês, assinou sua ficha de filiação no PV.

Tanto Lobão quanto Marina disseram ainda não ter visto o filme Lula, o filho do Brasil (Fábio Barreto). Com a exibição de cenas do longa (?A fotografia é excelente...?, dizia Lobão, com certa ironia), a discussão sobre o viés eleitoreiro teve início. ?É inevitável não fazer essa associação com a campanha [presidencial]?, afirmou a senadora, questionando a separação entre os mundos da arte e da política. ?Há uma linha muito tênue que a gente tem de manipular com muito cuidado.?

Em seguida, Lobão iniciou o segundo bloco citando a ?irreverência alienada? da população diante de escândalos políticos, com direito à exibição do vídeo em que a dança baiana batizada ?Rebolation? vira uma sátira sobre a corrupção: o ?Roubolation?, filmete registrado também por este site na semana passada.

Leia e veja o vídeo:

?Roubolation? prepara o país para as eleições de outubro

Com menção ao ?escandalão? ? alusão ao mais grave escândalo da história do GDF, o mensalão do Arruda ?, o apresentador criticou a acomodação e o espírito excessivamente galhofeiro da sociedade brasileira diante de casos de corrupção, em que algumas pessoas ?preferem descolar um abadá e sair por aí beijando?. ?É uma forma de satirizar, a gente de fato ri?, contemporizou Marina, para em seguida criticar. ?Mas é difícil a gente banalizar algumas coisas, porque acaba rindo da própria desgraça. Sinto que há um fastio das pessoas em relação à política, em função dos escândalos.?

Cada um no seu quadrado

Marina fez criticas também às siglas de aluguel (partidos nanicos), e disse que sempre teve de lidar com o pouco tempo disponível na TV para apresentar suas propostas. ?Isso de fato é muito ruim. O pequeno tempo na televisão sempre me persegue. Não precisa ser muito, mas preciso ter um tempo necessário.?

A senadora sorriu ao ouvir Lobão se referir à ?simpatia postiça? de políticos ?cafonas? e seus ?jingles lá-lá-lá?. Percebendo a deixa, ela disse que seu novo partido busca justamente o caminho oposto. ?Uma coisa que agente está buscando no PV é procurar uma linguagem nova. Os paridos se transformaram em máquinas de ganhar poder?, alfinetou Marina, lembrando a ausência de candidaturas ?tipicamente de direita? no pleito presidencial de 2010.

Foi quando a entrevista foi entrecortada por outros vídeos hilários, a começar pelo que mostra os berros ?conservadores? do ex-candidato do extinto PRONA, Enéas Carneiro. Comentando as movimentações dos presidenciáveis Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Ciro Gomes (PSB), Lobão disse que os candidatos, a maioria com histórico de luta contra a ditadura, estavam ?em casa?.

?Não,está cada um no seu quadrado?, emendou Marina, ao que é exibido o vídeo que se tornou fenômeno na internet, com três peculiares dançarinos executando uma coreografia impagável ao som de um funk ainda mais engraçado. Com um detalhe: com a devida montagem, a equipe da MTV pôs Dilma, Serra e Ciro como os protagonistas do show.

Fonte: Congresso em Foco