Piauiense Frank Aguiar é destaque na revista Veja e sonha ser presidente do Brasil

Cantor e político é o quinto de seis filhos de uma família de lavradores de Itainópolis

Quinto de seis filhos de uma família de lavradores de Itainópolis, cidadezinha de 10 000 habitantes no interior do Piauí, Francineto da Luz Aguiar, 39 anos, é um cabra da peste. Às provas. Resolveu se mudar para São Paulo e se fazer pela música. Tornou-se Frank Aguiar, o Cãozinho dos Teclados, com faculdade inacabada de música e tudo. Por suas declaradas contas, já vendeu mais de 5 milhões de discos, com shows agendados toda semana até o fim do ano. Resolveu ficar rico, e basta olhar a casa de cair o queixo onde mora com a mulher, Aline, e três filhos de mães diferentes. O complexo familiar-musical fica em São Bernardo do Campo, próximo a São Paulo, e inclui sete suítes, tendo a sua própria três andares, com sauna, hidromassagem, três banheiros e piscina. Numa das três suítes para hóspedes, com minicozinha e todos os outros confortos terrenos, seu amigão Luiz Inácio Lula da Silva refrescou-se durante um churrasco; ficou batizada, claro, de "suíte do presidente". Em sua trajetória para virar cachorro grande, o Cãozinho enveredou pela política, tendo sido eleito em 2006 deputado federal pelo PTB-SP, com a terceira maior votação do partido. Convocado pelo amigão para ser vice na chapa de Luís Marinho, que disputava a prefeitura de São Bernardo, fez bonito. "Lula achava que, comigo, os votos iam disparar. Foi o que aconteceu", declara, com a pureza dos que têm autoestima nota mil. Quem acha que o cabra pode estar pensando em coisa maior ainda ? em outras palavras, Presidência da República ? está absolutamente certo. "Sou um predestinado", acredita.

Por via das dúvidas, Frank conta com uma fornida legião de quarenta assessores, divididos em três coortes: vida pública, vida artística e vida pessoal. Dessa última consta um coach ? assim, em inglês ? encarregado de recomendar e fazer resumos de livros e filmes (O Segredo, manual de autoajuda de 198 páginas, foi recentemente enxugado para quarenta). Outro bicho de nome complicado é o personal stylist, que lhe seleciona roupas, praticamente todas brancas e azuis ("Sou pior que o rei", brinca, sendo o rei, evidentemente, Roberto Carlos). Frank é vaidosíssimo assumido. Carrega na bolsa um vidro de perfume Jean Paul Gaultier, que borrifa no corpo, no rabo de cavalo e no carro toda vez que vai a um evento. "O povo conhece Frank é pelo cheiro", diz a prima Aurilene Luz, apelido "Rabugenta", que cuida da agenda artística. Ele faz as unhas toda semana, atividade intercalada com injeções de gás carbônico e drenagem linfática na barriga, para perder medidas. O rosto é tratado com ácidos e os longos cabelos recebem hidratação a cada quinze dias. Em breve, ficarão menos longos: ele planeja cortar um pedaço do famoso rabão e dele fazer um diamante, com objetivos de doação, conforme técnica que lhe foi apresentada por Pelé. Ao contrário dos intuitivos que acham que já sabem tudo, Frank Aguiar é formado em direito; no momento faz mestrado em administração pública, com vistas àquele futuro que antevê. Seu séquito ainda inclui uma professora de oratória, "que me ensinou que eu não posso fazer piada quando estou discursando" ? nem é preciso dizer a quem deveria repassar o conselho ?, e um advogado que vasculha as falas em busca de possíveis pendências jurídicas. "Com exceção dos assessores políticos, aos quais eu tenho direito, os outros são pagos com dinheiro da minha música. Não sou político filho de uma égua que rouba dinheiro do povo", garante.

Guardando o jeito de falar e as maneiras simples da infância, Frank Aguiar conta que aprendeu música aos 6 anos com o pai sanfoneiro, pagou os estudos num colégio de Teresina tocando teclado na missa, viveu por um tempo de pequenos shows e, aos 19, vendeu carro, teclado e duas caixas de som. Destino, São Paulo. Durante os três dias de viagem, comeu um farnel com galinha e arroz que a avó lhe deu pela janela do ônibus, na saída. Alojou-se na casa de amigos em São Bernardo do Campo, aproximou-se do sindicalismo do ABC tocando em caminhões de som e assim veio a conhecer Lula. Na campanha de 1994, era ele quem abria comícios do então candidato a presidente. Com o tempo, tornou-se forrozeiro oficial das festas do PT e cantador de sucesso além-fronteiras partidárias. Atribui sua popularidade ao fato de ter incorporado os teclados eletrônicos ao tradicional trio de sanfona, zabumba e triângulo do forró. Mas contaram muito também as dançarinas de minissaia e as letras em "homenagem" às mulheres ("Não interessa se é usada, lavou, enxugou, tá nova", diz o hit Mulher Madura). É dessa época o apelido Cãozinho dos Teclados. "Quando eu esquecia a letra, fazia auuu. Vi que o povo gostava e incorporei o uivo", explica.

Enquanto mantém a rotina de shows e desempenha as funções de vice-prefeito ? "Costumo ligar para um morador humilde e pedir que ele frite dois ovos para a gente almoçar" ?, Frank planeja a nova candidatura a deputado federal em 2010 e, posteriormente, talvez, quem sabe, a governador. Um dos projetos mais ambiciosos passa por Itainópolis, onde já instalou um museu em sua própria homenagem e é nome de rodovia. Lá, no mês que vem, começam a ser rodadas as primeiras cenas de um filme sobre sua vida, Sonhos de um Sonhador, com Gustavo Leão no papel principal e mais Chico Anysio, Nelson Xavier e Rosi Campos. A produção pediu 1 milhão de reais ao governo do Piauí; este diz que dará 200 000. O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) ameaça com zero: "Esses recursos deveriam vir da iniciativa privada. O Piauí está quebrado". O cabra Frank, ao contrário, está consertadíssimo.

Fonte: Veja, www.veja.com.br