Prestes a comandar São Paulo, Haddad defende Lula "ponho minhas mãos no fogo"

Prestes a comandar São Paulo, Haddad defende Lula "ponho minhas mãos no fogo"

Prestes a comandar SP, Haddad defende Lula e diz que não será candidato à Presidência em 2018

Fernando Haddad está em período de tensão pré-posse. "Acho que só no dia 2 vou relaxar", afirmou ele à coluna na manhã de sexta, 28, ao conceder a sua "última" entrevista antes de assumir a Prefeitura de São Paulo. "É muita coisa para se pensar. Depois, melhora. Na cadeira de prefeito, a coisa deslancha."

Estrela maior do PT nas eleições deste ano, Haddad diz não temer as consequências da retração na economia, admite que o partido pode estar acuado por uma "guinada conservadora" e sai em defesa de Lula: "Eu ponho as duas mãos no fogo" por ele.

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CRISE ECONÔMICA

Não acredito em queda de arrecadação municipal porque no ano que vem a economia vai crescer mais do que neste ano. Tenho certeza. Agora, nosso problema só vai se resolver com parceria público-privada e público-pública. E este é o ponto relevante: como é que se vai recuperar a economia brasileira para patamares de crescimento de 4% ao ano sem investimento público? São Paulo pode ter uma carteira de projetos que interessará necessariamente ao governo central.

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Qual é a situação de SP? É a de um orçamento basicamente consumido pelo custeio.

Folha - São R$ 42 bilhões?

Haddad - Se é que essa receita se realizará.

Está superestimada?

Talvez um pouco. Mas mesmo com R$ 38, R$ 39 bilhões, você está falando de uma arrecadação consumida pelo custeio da máquina, que está pesada. Há pouquíssimo espaço para investimento.

Quanto? R$ 6,5 bilhões?

Não sei de onde, sinceramente, saem esses números. Essa conta não é minha -e está errada. Os recursos que, dizem, estão na conta [da Prefeitura] são carimbados. Não é um dinheiro que você pode manusear para investir. E corresponde a pouco mais de um mês de arrecadação. Está aquém da nossa necessidade. Muito aquém.

LULA

Eu tenho pelo presidente Lula um apreço incomensurável. Fui seu ministro [da Educação] durante quase seis anos e, se eu disser que o presidente Lula me deu um telefonema para discutir qualquer assunto que não fosse do interesse da educação estritamente, estaria mentindo. Eu administrei o segundo maior orçamento da República. Montei equipe, programas, o plano de desenvolvimento da educação, com total liberdade, endosso, entusiasmo e patrocínio do presidente Lula. Então é uma pessoa que eu conheço e reconheço não só como liderança política, mas grande administrador público.

MARCOS VALÉRIO

Ponho as duas mãos no fogo pelo presidente Lula. E mais: acho uma coisa absolutamente temerária esta pessoa, o Marcos Valério [pivô do mensalão que afirmou recentemente que Lula deu "ok" para as operações que originaram o escândalo], depois de anos defendendo reiteradamente uma versão, agora mudar. É temerário se atribuir o valor que está se atribuindo a esse depoimento. A partir do momento em que muda ao sabor das circunstâncias, a credibilidade dessa pessoa é que precisa ser discutida.

E a Operação Porto Seguro, que envolve uma ex-assessora de Lula [Rose Noronha] numa máfia de venda de pareceres?

As investigações é que vão dizer. O que de fato aconteceu a partir desse suposto tráfico de influência? Ele foi eficaz? Produziu efeito concreto? Enfim, o que posso dizer é que convivi com o presidente Lula e sei do seu método de trabalho, do seu compromisso com o país, da sua dedicação.

O senhor já me disse que Lula é a única personalidade na defesa de quem as pessoas sairiam de casa.

Ah, ele mobiliza, né? As pessoas confiam no presidente Lula. E quem trabalhou com ele tem duas vezes mais razão para isso.

Acha possível uma mobilização em defesa de Lula?

Creio que não haverá a menor necessidade disso.

O senhor também já falou que essas críticas podem forçar Lula a ser candidato de novo.

Não vejo que o presidente se paute por esse tipo de circunstância. Mas ele é novo, fisicamente forte, gosta da política e foi o melhor presidente da República que o Brasil já teve, segundo todas as pesquisas de opinião. Por que não pode pensar em voltar? Ele tem todas as condições de pleitear um cargo público, qualquer que seja.

Governador? Senador?

Estou tão acostumado a vê-lo como presidente da República que é difícil imaginá-lo em outra posição.

Em 2014 ou em 2018?

Não vejo essa hipótese de 2014 em função até do sucesso da presidenta Dilma [Rousseff] e da sua vontade, ainda não manifesta, de continuar o seu trabalho, que é apreciado pela população.

MENSALÃO

Os desdobramentos jurídicos desse julgamento vão ganhar mais espaço. Porque do ponto de vista político está encerrado o assunto. Mas, do ponto de vista doutrinário, há um longo caminho a ser explorado, nas faculdades de direito, entre juristas, criminalistas.

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O julgamento estará imerso em controvérsia, em função das inflexões que ele promoveu. Porque houve uma mudança de jurisprudência radical para a condenação dos acusados. Toda uma releitura foi feita. A controversíssima tese do domínio do fato [que levou à condenação de José Dirceu], por exemplo. Essa discussão vai perdurar por muitos anos, vai se verificar se outros casos vão receber o mesmo tratamento...

Como o mensalão do PSDB?

Por exemplo. A curiosidade é grande.

PT ACUADO

O uso que partidos conservadores fizeram dessas temáticas [descriminalização do aborto, defendida no passado pelo PT, e combate à homofobia] pode, sim, ter acuado o PT. Porque foi um uso muito truculento [referindo-se às campanhas presidencial de 2010 e municipal de 2012, em que o então candidato do PSDB José Serra discutiu os temas]. E de onde menos se esperava. Porque os tucanos sempre foram percebidos como uma camada ilustrada da sociedade. Tinham verniz de modernidade, não se associariam ao obscurantismo para a luta política rebaixada. Mas, na hora do embate, lançam mão de qualquer expediente para ganhar uns votos. O PT se surpreendeu com essa atitude e talvez tenha taticamente se recolhido. Até em busca de uma explicação para tamanha virulência de um partido que nasceu com bandeiras modernas também.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defende a descriminalização das drogas.

Mas o PSDB finge que não ouve, né? Que não é com ele.

Mas o PT não perdeu a posição de "vanguarda"? Não virou, como já disseram, "o partido de combate à pobreza dentro da ordem absoluta"?

O PT é o partido mais vivo do país. Tem taxa de preferência quatro, cinco vezes maior que a do segundo colocado, o PMDB. É um fenômeno de massa impressionante. Já fez muito pelo país e continuará fazendo. Mas reage às circunstâncias. O partido acaba, de forma quase incontornável, fazendo cálculos sobre onde é possível avançar na sua própria agenda com mais facilidade e aderência social. E por isso o que o teu principal adversário faz importa.

ONDA CONSERVADORA

E há no plano da cultura, indiscutivelmente, uma onda conservadora impressionante. Basta você ver quem eram os intelectuais, os filósofos, os críticos que tinham voz e palanque nos anos 1980 e 1990 --e compará-los com os de hoje. Não vou dizer nomes. Mas é uma desproporção! Você tem uma virada conservadora e rebaixada do ponto de vista argumentativo. Quer dizer, perdemos duas vezes. A agenda cultural parece que está na mão de pseudointelectuais.

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Eu vejo esses fenômenos acontecerem inclusive fora do país. Houve uma guinada à direita, ao conservadorismo.

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Importantes paradigmas sociais e econômicos vêm sendo rompidos pelos governos do PT. Mas reconheço que, no plano da cultura, há um déficit de pró-atividade. Acaba sendo uma escolha diante de uma circunstância muito problemática.

NOVO PT

Existe o PT, que tem força popular. Não é velho, não é novo. É o PT. Quando você conversa com o cidadão, ele fala "eu voto no PT", ele não fala "eu voto no novo PT". E é óbvio que ele sabe que por trás da legenda tem a liderança do Lula, ou da Marta [Suplicy], da [Luiza] Erundina. Quem me levou a 28% dos votos [no primeiro turno da eleição] foi esse partido.

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Não é assim no mundo desenvolvido? Alguém sabia quem era o Mitt Romney [candidato derrotado à Presidência dos EUA pelo Partido Republicano] pouco tempo atrás? Ele tem o voto republicano. O PT tem a força da legenda e empresta prestígio para quem empunha a bandeira. Com a consolidação dos partidos no Brasil, isso tende a ser a regra. A política fica menos personalista, abre espaço para a renovação permanente dos quadros.

EDUARDO CAMPOS

Olha, o Eduardo é um quadro político da mais alta respeitabilidade, qualificado para qualquer voo. Mas eu não acredito que saia candidato à Presidência da República [pelo PSB] em 2014.

Em 2018 o senhor pode concorrer à Presidência com ele?

Penso que Eduardo, neste ano, será candidato. Eu, não [risos]. Estou concentrado aqui nos meus afazeres, que não serão nada simples a partir do dia 2.

Fonte: ;o