TV Câmara tira do ar críticas a Cunha e deixa deputados revoltados

A direção da TV Câmara confirmou o corte na edição

Eduardo Cunha (Crédito: Divulgação)
Eduardo Cunha (Crédito: Divulgação)

A TV Câmara censurou e cortou críticas diretas de deputados ao presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no programa “Fatos e Opiniões”, veiculado na semana da histórica sessão de 19 de novembro, uma quinta-feira.

Nesse dia, em duras falas, deputados acusaram Cunha de interferir no Conselho de Ética da Casa em benefício próprio. Última a discursar, a deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP) calou o plenário ao dizer que Cunha deveria dar o exemplo aos colegas e deixar a presidência. O levante culminou na saída de cerca de cem deputados do plenário em direção ao conselho.

Uma versão feita originalmente pelos jornalistas da TV incluía as críticas a Cunha e chegou a ser veiculada pelo portal da TV na internet.

Na noite de sexta-feira, porém, a TV Câmara veiculou uma versão com cortes, sem ataques diretos a Cunha, do programa que tem por propósito retratar os principais fatos da semana no plenário da Casa.

Cunha foi cobrado e questionado em plenário depois de passar a presidência da sessão a Felipe Bornier (PSD-RJ), que decidiu anular a sessão do Conselho de Ética que tentava votar relatório que pedia a abertura de processo por quebra de decoro parlamentar contra o presidente da Câmara.

A atitude revoltou deputados de oposição e governistas, que passaram a cobrar, nos microfones, que o ato de Bornier fosse revisto.— Chega senhor presidente. O senhor não consegue mais presidir. Levanta dessa cadeira Eduardo Cunha — disse Gabrilli.

NA INTERNET, VERSÃO SEM CORTE

A primeira versão, sem cortes e na internet, retratou o episódio por 9 minutos e 20 segundos, do programa de quase meia hora. Quando o programa foi ao ar na TV, as críticas diretas a Cunha sumiram. Não só as de Gabrilli como de outros. Só colocaram trechos leves. O corte foi de seis minutos e, na versão editada, a rebelião em plenário caiu para 3 minutos e 20 segundos.

Na internet, a versão original também foi substituída pela editada.No caso de Gabrilli, a versão editada inseriu apenas uma fala dela: a parte em que a deputada diz que o deputado Felipe Bornier não poderia ter cancelado a sessão do Conselho de Ética.

Não foram incluídos nenhum dos trechos das críticas que ela fez a Cunha.

— Naquele dia, uma das coisas que me fez entrar em ebulição foi porque eu vi o presidente cerceando a palavra dos deputados. Isso diz respeito à mesma coisa. Você empobrece o conteúdo da Câmara — afirmou ela.

A líder do PCdoB, Jandira Feghali (RJ), foi outro alvo da censura com toda a frase em que diz que Cunha está “diretamente envolvido no caso investigado” sendo cortada. Outro que some na versão editada é o tucano Betinho Gomes (PE), que classificou a atitude de Cunha de “autoritária e arbitrária”.

O líder do PPS, Rubens Bueno (PR), também teve sua frase desidratada. Na versão original, Bueno dizia que Cunha “perdeu as condições de presidir a Casa”. Na editada, essa frase sumiu.

Mendonça Filho (PE), líder do DEM, foi outro atingido por ter dito na sessão que o plenário está sendo “instrumentalizado” para inviabilizar o processo de apuração do caso Cunha.

NÃO HOUVE O CONTRADITÓRIO

A direção da TV Câmara confirmou o corte na edição e ainda disse que a primeira versão, não cortada e que chegou a ir ao ar na internet, foi um erro. O diretor-executivo da Secretaria de Comunicação Social da Câmara, Cláudio Lessa, sustentou que os cortes foram feitos porque Cunha não se defendeu durante a sessão, apesar de estar presente e presidindo-a.

Cunha adotou como estratégia não responder aos discursos críticos a ele em plenário. Lessa afirma que Cunha não interferiu na decisão da censura:— Eles estavam batendo no Cunha, mas ele não se defendia. Não houve o contraditório. Ele não respondia e não dava o contraponto. Corríamos o risco de ser injustos e tendenciosos naquela primeira edição.

Os deputados atingidos pelos cortes cobraram um posicionamento da Mesa Diretora da Casa sobre o fato— Ele (Cunha) sendo denunciado por todos os lados e vem uma tesoura como nos tempos da ditadura para censurar? — criticou Rubens Bueno.

— Não é aceitável edição de matérias que venha atender a interesse particular de ninguém do ponto de vista político, partidário ou ideológico. A Câmara tem o dever de zelar pela memória histórica — disse Mendonça Filho.

— É muito grave saber que o presidente da Câmara está censurando a manifestação dos deputados — disse Betinho.

Fonte: O Globo