Quando a memória se esvai

No Piauí, estima-se que 12 mil pessoas são vítimas do problema. No Brasil, esse índice chega a 1 milhão e 200 mil.

De forma lenta e, no início, imperceptível, aquela pessoa que já foi pai ou mãe e agora ajuda a criar os netos, começa a esquecer de algumas coisas simples do dia-a-dia. Onde estão as chaves? Cadê meu remédio? Em que rua estou?

Embora seja difícil aceitar, esses lapsos de memória podem representar os primeiros sintomas da doença de Alzheimer, a qual atua na parte do cérebro que controla a memória, o raciocínio e a linguagem. No Piauí, estima-se que 12 mil pessoas são vítimas do problema. No Brasil, esse índice chega a 1 milhão e 200 mil.

De acordo com o neurologista João Carvalho, a tendência é de que esses números dobrem dentro de 25 anos, devido o aumento na expectativa de vida dos brasileiros. ?A doença de Alzheimer atinge geralmente a população com mais de 60 anos. Por isso, estimamos que haja esse crescimento?, afirma o médico, alertando para o fato de que os órgãos públicos ainda não estão preparados para enfrentar essa realidade.

Segundo o neurologista, fatores de risco como a depressão, o diabetes e a hipertensão ainda são bastante sub-notificados, o que favorece o desenvolvimento da doença de Alzheimer. Além disso, uma vida sedentária, o alcoolismo e algumas perdas emocionais mal elaboradas podem causar a doença. ?Os fatores genéticos são responsáveis por apenas 20% dos casos?, revela João Carvalho.

A doença tem quatro estágios bem definidos, mas pode ser estabilizada antes de alcançar o último deles. Na primeira fase acontece a perda de memória recente. O ideal seria diagnosticar o problema logo nesse momento e evitar que ele passe para a segunda etapa, quando o paciente já começa a ficar agressivo, ter delírios e alucinações. ?A fase moderada é a mais difícil, pois o doente começa a ter dificuldade para desenvolver necessidades básicas. O cuidador precisa ter muita paciência?, disse o especialista.

O terceiro estágio é chamado de moderadamente avançado. Aqui, o paciente já não consegue agir sozinho e vai precisar de ajuda para atividades como ir ao banheiro, tomar banho e trocar de roupa. Já na última etapa, a pessoa com doença de Alzheimer perde o vocabulário e pode até ficar impossibilitado de andar.

Entre os 51 idosos que moram no abrigo São Lucas, dois tem Alzheimer. O homem, que não pode ser identificado, encontra-se no terceiro estágio da doença. ?Ele não consegue entender o que a gente fala e precisa de ajuda para todas as atividades diárias?, relata Liliane Costa, uma das funcionárias do abrigo.

Já a mulher, que também não pode ser identificada, tem atitudes de criança, embora consiga fazer suas atividades sozinha. Ela está na fase moderada da doença. ?Se a gente não colocar a medicação junto com a comida, ela vai jogar fora e, quando sente fome, começa a chorar?, disse Liliane.

A responsabilidade do cuidador

Segundo a funcionária do abrigo São Lucas, Liliane Costa, o mais difícil no cuidado com esses doente de Alzheimer é ter que lidar com a demência. ?Eles agem como criança, mas são pessoas que já tiveram uma vivência e agora se encontram nessa situação?, lamenta.

Se para Liliane é difícil cuidar de uma pessoa com doença de Alzheimer, as circunstâncias tornam-se piores quando o paciente é alguém da família. ?Poucas pessoas estão preparadas para lidar com a fragilidade daquele que era o super-pai ou a super-mãe?, observa o neurologista João de Carvalho.

Por causa disso, o maior desafio ainda é o fato dos parentes não aceitarem o diagnóstico, o que pode adiar o início do tratamento e impedir que a doença seja estabilizada.

A Associação Brasileira de Alzheimer, da qual João Carvalho é vice-presidente na regional-Piauí, desenvolve um trabalho voltado especialmente para o cuidador. A intenção é fazer essa pessoa conhecer todos os estágios da doença e ensinar a melhor forma de lidar com ela. ?O familiar nunca deve fazer as atividades que o paciente ainda consegue desempenhar, pois ele pode estar contribuindo para a progressão da doença?, alerta o neurologista.

Uma vez por semana, sempre nos dias de segunda-feira, acontecem reuniões com palestras informativas que orientam os cuidadores. Os encontros contam com grupos de profissionais das diversas áreas de saúde.

Baixa escolaridade pode causar doença de Alzheimer

?Não estimular o cérebro, é como não estimular um músculo. Ele pode atrofiar?. Essa é a explicação do neurologista, João Carvalho, para o resultado de uma pesquisa que revelou a ligação entre a baixa escolaridade e a maior ocorrência da doença de Alzheimer.

Segundo o médico, isso está relacionado à perda da plasticidade neural. Quando uma pessoa lê ou estuda muito, desenvolve áreas do cérebro que podem evitar o desenvolvimento da doença de Alzheimer

O estudo foi realizado em Catanduva, no interior de São Paulo, onde o índice de escolaridade é baixo e os casos de Alzheimer são mais constantes.

Fonte: Nayara Felizardo