Sistemas de cotas ainda dividem opiniões nas universidades brasileiras

Sistemas de cotas ainda dividem opiniões nas universidades brasileiras

A polêmica sobre as cotas voltou à tona depois que professor universitário foi denunciado por seus alunos por manifestar racismo durante uma aula

Há mais de 500 anos, no Brasil, desde a chegada dos portugueses, africanos e demais povos estrangeiros que passaram a conviver com os indígenas, que as diferenças sociais e raciais existem.

Atualmente, as políticas públicas buscam reduzir essas diferenças sociais, propondo programas sociais e até profissionais, com a inclusão dos menos favorecidos a cursos profissionalizantes e universidades, por meio das cotas sociais e raciais.

A temática sobre o sistema de cotas, em especial as cotas raciais, ainda vem gerando muitas polêmicas na sociedade brasileira. E essa discussão voltou a repercutir após um professor da Universidade do Espírito Santo (UFES) ser denunciado por seus alunos por manifestar racismo durante uma aula no curso de Ciências Sociais.

De acordo com Carlos Alberto Soares, professor de História, o sistema de cotas deveria se ater apenas à questão de renda e não distinção racial. E destaca ainda que essa medida não deve ser uma constante, e sim fator que corrija as distorções sociais que estão presentes na história do Brasil.

“Já fui contra. Hoje sou parcialmente favorável, porque não concordo com o critério cor. Deveria ser o critério renda, que é bem mais abrangente e engloba a maioria absoluta da população negra brasileira, que se enquadra na categoria social pobre. Por fatores históricos que já sabemos quais são.

E claro que não pode ser uma solução “eterna”, deve ser fator de equilíbrio, pra corrigir distorções que se alastraram ao longo da história”, analisa o professor de História.

Para Pedro Nascimento, estudante cotista do curso de Jornalismo da UESPI, as cotas representam oportunidades para muitos alunos de escola pública, no entanto, é uma forma de ressaltar o preconceito e a diferenciação social e racial.

“É importante por facilitar a entrada de alunos da escola pública nas universidades. Mas por outro lado, vejo essa distinção como um preconceito, pela diferenciação entre as pessoas.

Não por ter sofrido preconceito na universidade. Pelo contrário, vejo meu rendimento acadêmico melhor até que muitos colegas de classe que estudaram sempre em escola particular”, destaca o estudante cotista.

No entanto, mesmo com a criação de políticas de ação afirmativa e com o crescimento da participação daqueles que se autodeclararam negros, etnia que representa a maioria na população brasileira, no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), estudantes negros ainda são minoria dentro do ensino superior.

Contra ou a favor das cotas?



Onze anos após o anúncio do sistema de cotas nas universidades brasileiras o assunto ainda gera polêmicas e insatisfações. Para alguns, as cotas raciais tendem a reforçar a discriminação, já as cotas direcionadas a estudantes de escola pública precisam ser repensadas, em vista da raiz do ensino básico.

De acordo com Janara Carvalho, administradora e especialista em gestão de pessoas, as cotas afirmativas voltadas para determinada raça, de certa forma, aumentam a discriminação na sociedade e acredita que a saída está em melhorias e incentivos à educação aos menos favorecidos.

"Eu não sou a favor das cotas para negros pelo seguinte fato, os negros já são muito discriminados no Brasil e ter essa cota é aumentar, ainda mais, essa discriminação.

O que precisamos urgentemente e o que sou a favor é de melhorias e incentivos na educação, na estrutura das escolas e na remuneração dos professores.

Para que as nossas crianças e jovens possam ter uma educação digna e de qualidade, de preferência em tempo integral, sem precisar de cotas para ingressar em uma universidade", afirma Janara Carvalho.

Para Joca Nettu, professor de Literatura, as cotas são bem-vindas, mas não concorda com algumas especificações. E acredita ser vergonhosa a forma como, tanto cotas sociais quanto raciais estão sendo aplicadas.

"As cotas são bem-vindas, mas algumas são vergonhosas. A cota para estudante de escola pública é como se o governo atestasse que não faz nada por eles no processo de formação básica e precisasse corrigir isso no Ensino Superior "jogando pra dentro" a qualquer custo.

Já as cotas pra negros, é uma questão bem polêmica: Se eu fosse negro, não aceitaria. O negro tem a mesma capacidade que outra pessoa, seja ela branca, parda, amarela, azul, lilás, indígena.

Já para Lucas Barbosa, estudante de Jornalismo, as cotas têm proporcionado um reajuste social na História do Brasil, dando maior oportunidades de avançar socialmente um indivíduo de baixa renda. Porém, não concorda com cotas exclusivas por raças.

"Existe uma dívida histórica e todos nós sabemos que as oportunidades de acesso à educação não são dadas a todos de forma igualitária, o que justifica o sistema de cotas.

Eu acho que para o programa ser melhorado, poderia evoluir para um sistema de cotas sociais, sem distinção de raças, dessa forma acabaria por contemplar toda a população de baixa renda, de uma forma geral. Sistema de cotas é uma vantagem, é democratização da educação superior".

Segundo dados do Inep, dentre os 8,7 milhões de inscritos neste ano para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), 57,9% se declararam pretos ou pardos. Em 2013, 60% dos matriculados no ensino superior brasileiro eram brancos e 37,6% dos estudantes se declaravam pretos ou pardos.

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Fonte: Márcia Gabriele