Pela web, pessoas comuns ajudam a financiar várias pesquisas científicas

Cientistas recorrem a doações via "crowdfunding" para pagar por pesquisas. Adolescente doou US$ 15 para sequenciamento de DNA de planta

Em mais de três décadas estudando plantas do grupo das pteridófitas, a professora Kathleen Pryer, da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, já recebeu muitos financiamentos. Mas para seu mais novo projeto, ela está buscando ajuda de uma enfermeira aposentada do Canadá e de um adolescente de 17 anos do estado do Arkansas, nos EUA.

É a sua primeira incursão no mundo do crowdfunding, prática de usar a internet para arrecadar quantias relativamente baixas de dinheiro, a partir da doação de muitas pessoas, para financiar um projeto. Trata-se de uma estratégia bastante diferente das fontes usuais de financiamento para pesquisa científica, geralmente são o governo, as indústrias e entidades filantrópicas.

Kathleen lançou uma campanha de seis semanas no mês passado para arrecadar US$ 15 mil para decifrar o DNA de uma pequena planta pteridófita aquática chamada azolla. Ela é pequena o suficiente para caber em umpolegar, mas a cientista diz que aprender mais sobre a planta pode trazer grandes benefícios.

A azolla captura e processa o nitrogênio do ar com a ajuda de uma bactéria que vive dela. Mais estudos podem levar os cientistas a desenvolver um método para mimetizar esse processo em plantas cultivadas, reduzindo a necessidade de fertilizantes. A azolla também suga o dióxido de carbono da atmosfera, o que torna a planta potencialmente útil para combater o aquecimento global, de acordo com Kathleen.

Adolescente doou US$ 15

Ela recorreu ao crowdfunding depois que seu projeto foi rejeitado pelas fontes tradicionais de recursos. Mas sua pesquisa chamou a atenção do adolescente Andrew Willoughby, de 17 anos, morador da cidade de Little Rock, no Arkansas. Ele ficou sabendo do estudo pelo Twitter. Com seu interesse em botânica, ele considera que qualquer esforço com o objetivo de criar plantas capazes de obter e processar seu próprio nitrogênio seria "uma grande ideia". Ele contribuiu com US$ 15.

A enfermeira aposentada Ingrid Kern, de Toronto, ficou impressionada pelo projeto quando ela leu um comentário feito por Kathleen no jornal local. Ela encontrou na internet a página da cientista sobre o experimento e doou US$ 100. A planta a interessa "porque é minúscula e tem um grande potencial", disse Ingrid, que tinha trabalhado na área de microbiologia industrial antes de se tornar uma enfermeira.

No final de junho, a campanha de Pryer tinha arrecadado apenas um terço do que precisava, faltando só duas semanas para o prazo final. Foi quando uma instituição sem fins lucrativos na China, que faz pesquisas com DNA, chamada BGI, resolveu conduzir o projeto de graça. Agora, o dinheiro arrecadado será usado para pagar pela análise dos dados enviados pela BGI.

Outras iniciativas

Fora da ciência, o método de crowdfunding tem sido bem sucedido para projetos como o desenvolvimento de games e outros produtos, a publicação de livros e a criação de filmes e outros programas de entretenimento. Uma campanha para financiar uma sequência em filme da série de TV cult "Veronica Mars" arrecadou US$ 2 milhões em menos de um dia, chegando a arrecadar US$ 5,7 milhões em 30 dias.

Mas "a ciência ainda está para ganhar o status de Veronica Mars", observa Jeanne Garbarino, diretora de divulgação científica na Universidade Rockefeller, em Nova York, que já usou crowdfunding e informalmente aconselhou outros a fazerem o mesmo. Em vez disso, projetos científicos tendem a ser muito mais modestos, geralmente arrecadando apenas milhares ou dezenas de milhares de dólares.

Um pesquisador, por exemplo, arrecadou cerca de US$ 2 mil para contratar um caminhão e comprar equipamentos para acampamento para recuperar o esqueleto de um tricerátopo que ele encontrou em Wyoming.

Campanhas atuais no site "experiment.com" incluem US$ 5 mil para investigar um parasita nas vieiras do estado de Carolina do Norte, US$ 3,5 mil para estudar uma doença em morcegos e US$ 17,4 mil para catalogar tubarões para uma pesquisa sobre migração. Em um caso de sucesso impressionante, mais de US$ 150 mil foram arrecadados para contatar um velho satélite de pesquisa e colocá-lo de volta em atividade.

Fonte: G1