Laboratório desenvolve roupas com receptores via bluetooth

Ainda será desenvolvido um colete à prova de balas com antenas incorporadas para o exército americano no terceiro trimestre deste ano.

John Volakis quer que o mundo todo fale no modo viva-voz. O diretor do laboratório ElectroScience, da Universidade do Estado de Ohio, está tentando acabar com a necessidade de fone receptor de Bluetooth com a fabricação de dispositivos de comunicação a partir de um artigo cujo uso é exigido pela maioria dos estados americanos: as roupas. "Não será preciso segurar o celular próximo do ouvido", afirma o engenheiro elétrico. "Isso será eliminado. O dispositivo fará parte do vestuário", afirma.

Essa conquista é parte de um esforço tecnológico amplo de desenvolver "tecidos inteligentes" - peças de roupa com dispositivos eletrônicos incorporados que podem coletar, armazenar, enviar e receber informações. O laboratório vem se concentrando no recurso de enviar e receber informações, tentando transformar uniformes militares e hospitalares, e mesmo camisetas de uso diário em antenas.

À parte de tornar possível um luxo de ficção científica - falar na gola da camisa quando precisar - a roupa com antenas pode oferecer comunicação secreta entre soldados, monitoramento sem fio de pessoas doentes e uma recepção muito melhor de modo geral. Talvez demore um ano, mas não mais que isso, para Volakis e sua equipe desenvolverem roupas com antenas para civis. Contudo, eles desenvolveram um colete à prova de balas com antenas incorporadas para o exército americano no terceiro trimestre deste ano.

O colete vem com uma antena de tecido de formato quadrado incorporada na parte da frente e três atrás. É como "possuir mais olhos e ouvidos", afirma Chi-Chih Chen, engenheiro elétrico que liderou a equipe desenvolvedora do tecido. As antenas convencionais perdem recepção quando o corpo humano impede a passagem do sinal - o que é evidenciado pela estática que ocorre quando passamos em frente de um rádio - e antenas em forma de haste, usadas por soldados e de manuseio difícil não conseguem diretamente captar sinais vindos do céu. A comunicação fica seriamente reduzida quando a antena passa para a posição horizontal, o que acontece quando os soldados abaixam a cabeça, agacham ou rastejam no solo.

"É neste momento que a antena embutida na roupa se sai bem", afirmou Steve Goodall, diretor de tecnologia e análise de antenas do escritório de pesquisa em comunicação e eletrônica, desenvolvimento e engenharia do exército. "É possível alargar as antenas para que cubram uma área maior", transformando a haste de uma dimensão em diversos painéis bidimensionais.

Chen está trabalhando com a empresa de pesquisa de desenvolvimento de antenas Applied EM, de Hampton, Virgínia, a fim de comercializar a tecnologia com a ajuda de um subsídio do programa de inovação em pesquisas de negócios do exército. O presidente da empresa, C.J. Reddy, afirma que cada unidade custará inicialmente US$ 1 mil, mas que o preço deve baixar com o aumento da produção.

Os equipamentos de comunicação em roupas remontam ao fim dos anos 1990, quando uma equipe do Instituto de Tecnologia da Geórgia desenvolveu a placa-mãe vestível, uma camiseta eletrônica sem antenas, mas com portas para diversas entradas e saídas ¿ inclusive para termômetro, microfone, monitor de nível de oxigênio no sangue e fone de ouvido ¿ para ajudar a monitorar a saúde de soldados.

"Se quiser informações sobre mim, elas precisam vir de minha roupa", afirma Sundaresam Jayaraman, engenheiro têxtil que liderou a equipe. As patentes foram vendidas a uma empresa particular em 2000, mas a tecnologia nunca foi comercializada, afirma Jayaraman.

Volakis compartilha do interesse de Jayaraman em usar as roupas para monitorar sinais vitais. Ele está trabalhando no desenvolvimento de roupas de hospital que conseguem transmitir ao computador do profissional de saúde dados do paciente, como o batimento cardíaco. Este tipo de monitoramento sem fio pode ser usado não apenas em hospitais, como também nas residências, para examinar remotamente pessoas doentes e idosas enquanto se movimentam livremente. "Queremos oferecer independência para os idosos quando estão em casa", afirma Volakis. "As pessoas não ficaram limitadas por fios", afirma.

Os desafios são diferentes daqueles do colete à prova de balas, que não precisa ser lavado e cujo volume natural pode acomodar as antenas de tecido. A roupa com antenas, por outro lado, precisa ser maleável, por isso, deve ser composta de fios que não apenas conduzam eletricidade, mas sejam macios e laváveis. A equipe de Volakis está realizando experimentos com materiais de alta tecnologia, como nanotubos de carbono e grafenos, a fim de tentar satisfazer tais exigências.

Além disso, Volakis afirma que o tecido inteligente pode melhorar a qualidade de vida das pessoas que desejam um sinal mais forte de celular. "Nós temos muito espaço nos nossos corpos", afirma Volakis. Por que não cobri-lo de antenas? "Eu vou garantir que sempre haja cinco hastes", afirma. "Nem mesmo cinco, vamos assegurar dez", afirma.

Fonte: Terra, www.terra.com.br