500 pacientes esperam em filas transplante de rim no Piauí

Atualmente, 80% dos transplantes de rim que correm no estado são de doadores intervivo

O ponteiro marca 10:30 na sala de cirurgia do Hospital Aliança Casa Mater. A equipe médica coordenada pelo cirurgião Fernando Pires faz a retirada do rim esquerdo de Raimundo Rogado Dia Neto, que vai doar o órgão para um primo de primeiro grau. Na sala de cirurgia ao lado, José Carlos Rodrigues,42 anos, espera pelo órgão. A esperança de uma nova vida.

Antes do transplante, o nefrologista Avelar Alves da Silva faz todos os procedimentos necessário para que o órgão seja colocado no receptor: o rim é "lavado? com um material que apresenta a mesma composição do plasma sangüíneo e imediatamente é transferido para sala ao lado.







Quanto mais rápido ele for transplantado, maior a probabilidade de sucesso na cirurgia. Como se trata de um doador inter-vivo, esse índice chega a 95% de chance e dentro de sete dias ele poderá voltar para casa e recomeçar um nova vida com um tratamento para evitar a rejeição do órgão.

O sonho da maioria dos transplantes renais crônicos é o transplante. José Carlos Rodrigues, aparentemente uma pessoa normal, descobriu que tinha perdido as funções renais em um check up. O que era para ser uma simples consulta , deu início a uma verdadeira corrida em busca de um órgão.

Até conseguir um potencial doador, com compatibilidade sangüínea e que estivesse bem de saúde (critérios adotados para ser doador), foram oito meses de sofrimento para ele e para a família. Mas para os médicos, esse tempo é considerado satisfatório diante da realidade dos pacientes renais no Piauí, onde muitos chegam a morrer sem conseguir um rim saudável.









O transplante renal é a grande esperança daqueles que não conseguem se adaptar ao doloroso tratamento da hemodiálise ou que não suportam a dependência da máquina de filtragem do sangue, a obrigação de vida ou morte de estar sempre ali, com horário marcado para sobreviver.

Em todo Piauí, cerca de 500 pessoas aguardam na fila de espera por um transplante de rim. Uma fila que cresce de forma geométrica. Ou seja: três vezes mais que o número de transplantes realizados no Estado

Quem não tem doador na família ou com compatibilidade sangüínea depende dos poucos casos de doação de cadáver ( quando há morte encefálica) para conseguir um transplante. Para ser ter uma idéia do drama vividos por aqueles que agurdam na fila de espera, basta avaliar os números: Enquanto na Espanha- país que mais se transplanta no mundo- a média de cadáver doador de rim é 16 para cada milhão de habitantes, o Piauí amarga índice inferior a um.

Atualmente, 80% dos transplantes de rim que correm no estado são de doadores intervivo, quando na verdade, a tendência mundial preconizada pela OMS é de que todos os os órgão doados sejam por morte encefálica. ?Toda cirurgia há um risco e quando se retira um órgão de uma pessoa para colocar em um paciente, esse órgão corre o risco de se perder?, explica o nefrologista Avelar Alves da Silva.

O que existe é um conjunto de fatores que deixam os índices doações de órgãos estáticos. A recusa familiar motivada pela falta de informações e de campanhas de conscientização fazem com que muitas pessoas aguardem anos na fila de espera. Muitos chegam a morrer durante a sessão de hemodiálise. ?Nós tivemos muita sorte porque muita gente se mobilizou para doar, mas mesmo assim ainda demorou, porque tem que ter critérios para ser doador?, disse a irmã de José Carlos enquanto aguardava na sala de espera. ?Esse rim é a esperança de vida para o meu irmão?.





Doador tem vida normal após transplante

Querer fazer um transplante é o comum de alguém que tem necessidade. A grande preocupação da equipe médica é com o doador. Isso porque quem doa um órgão tem que estar saudável o suficiente para oferecer saúde ao receptor. O transplante é um procedimento que coloca um rim saudável no paciente com insuficiência renal, mantendo o rim debilitado no mesmo local, exceto em caso de infecções.

Há cerca de 10 anos a principal preocupação dos médicos era em relação à compatibilidade genética. Atualmente , a evolução dos tratamento diminuiu bastante os riscos de incompatibilidade e hoje é necessário apenas a compatibilidade sangüínea. Esse fator, sem dúvidas, ampliou o leque de potenciais doadores, no entanto, as relações de doações de órgão ainda esbarra na falta de sensibilidade da população, que ainda apresenta grande índices de recusa.

Sem a exigência da compatibilidade genética, o primeiro passo para quem deseja ser doador é uma análise da compatibilidade sangüínea. Depois disso, o potencial doador iniciar um processo de avaliação, o qual vai assegurar que nenhuma complicação vai ocorrer após o transplante. Se algum exame indicar que a pessoa não tem condições para doar o órgão, o processo é interrompido, como acontece em 20% dos casos.

Apesar de toda cirurgia apresentar algum tipo de risco, o doador saudável não terá riscos de vida. Dados médicos comprovam que o rim remanescente funciona normalmente e atende à demanda do outro que foi retirado. Isso significa que a doação não impõe nenhum tipo de limitação e não interfere no ritmo de vida do doador. ?Muita gente ainda resiste em ser doador por medo de ficar debilitado. Mas quem doa um órgão não terá sua saúde limitada. Não temos nenhum caso de complicações com os doadores?, garante o nefrologista Avelar Alves da Silva ao destacar que o tempo de recuperação da cirurgia dura em média apenas dois dias.







FOTOS: JOSÉ ALVES FILHO

Fonte: Carolina Durães, Jornal Meio Norte