Prof. Paulo Roberto

GRAMÁTICA, REGÊNCIA, COLOCAÇÃO E O CASO DO PROFESSOR PROTÓGENES, O OBCECADO.

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08/05/2009 - 13h:37

Acordo hoje mal-humorado. Minha mulher me abandonou na noite anterior. O fim de um casamento de 12 anos. Tudo por causa do seguinte diálogo:
- Amor, tu mesmo pega a sua toalha. Tá na porta do armário...Você calçou o chinelão? Ele está embaixo de tua escrivaninha.
De dentro do banheiro, eu resmunguei algo. Não houve resposta. Ela estava na cozinha e tive que berrar:
- Dá para você ter coerência com as pessoas gramaticais?
- O quê?
Eu berrei o mais alto que pude:
- Você mistura tudo: tu com você, seu com tua...Você escolhe: ou 2ª ou 3ª pessoa!
Da cozinha veio um grito de ódio:
- Vão pro inferno!
Eu perguntei:
- Quem?
O grito, agora, estava carregado de ódio, amargura e ironia:
- Tu e sua gramática!!!
Deixei a água cair, ensaboei-me com força, enxuguei-me e saí do banheiro em direção à cozinha. Ia tentar um diálogo, mas ela foi mais rápida:
- Protógenes, escute aqui...
Eu fiquei com medo. Ela nunca me tratava pelo verdadeiro nome. Protógenes. Por que meu pai escolhera esse diabo de nome? Uma cruz que carrego desde que nasci.
- Ei, amor! Por que me trata assim?
- Assim, como?
- Protógenes...
- Porque estou com raiva. Com ódio dessa sua mania de corrigir os outros. Gramática. Gramática. Só gramática! Por isso estou dizendo esse teu nome ridículo: Protógenes! Protógenes! Protógenes!
A raiva contida (em muitos anos) de minha mulher ia se transformando em ódio, ira, numa verdadeira catarse. Eu deveria naquele momento ter mordido a língua, ficar calado, mas não me contive e fui vingativo:
- Thabatta. Thabatta. Thabatta! Com tê-agá e dois tês. Parece nome de travesti brasileira(o) na Itália ou na Espanha.
Então ela desandou a chorar. Minha mulher se chama Thabatta. Ela, como eu, odeia o próprio nome. Apesar do choro, não tentei acarinhá-la. Não adiantaria. Fiquei ali, parado, ouvindo o choro quase convulsivo de Tha. Era assim que eu a tratava carinhosamente: Thá. E ela me chamava de Amor ou Pró.
Após uns 3 minutos de choro, aconteceu o diálogo (ou o quase-monólogo de Thabatta) que selaria irrevogavelmente o fim de um casamento de 12 anos.
- Você está cada vez mais insuportável. Essa mania de corrigir todo mundo.
- Entenda, querida, sou professor de Português. Não posso admitir que...
- Não pode, o quê! Você confunde uma conversa formal com uma coloquial. Estou de roupão de banho: não dá pra ver que isso é um momento informal? Você virou um chato. Ninguém te suporta. E não me corrija por causa dessas porcarias de pronomes!
- Eu...
- Você é um obcecado, Protógenes! Lembra o aniversário do Pereira? Você o corrigiu publicamente na hora do brinde...
- Mas ele disse: “Neste dia, onde estou reunido com meus amigos, quero convidar-lhes para um brinde...” O correto é “convidá-los”...E “dia” não é local. O pronome “onde” é um relativo de local e foi mal empregado...
- E o casamento da Pricila? Você humilhou o pobre do padre Terêncio....
- O padre disse aos noivos “Deus lhes abençoe”. O certo é “Deus os abençoe”. Um caso grave de erro de regência.
- Dane-se a regência, Protógenes! Aquilo era uma festa de casamento!

Eu tentei argumentar:
- Aquele velho padre conhece o latim. Mas não conhece o português.
- E daí? Você está perdendo até seus amigos de cerveja. Arranja um inimigo a cada dia. Até nosso filho tem medo de você. Lembra-se de anteontem? Quase bateu no menino porque ele disse no café da manhã: “Me passe a manteiga”.
- Erro de colocação pronominal: temos que corrigir desde cedo...
- Droga, Protógenes! Um menino de 11 anos que tem pavor de conversar com o pai! Um absurdo. Isso é paranóia! Chega, Protógenes. Para mim, basta! Vou-me embora com meu filho!
E ela foi mesmo.
Agora, pela manhã, sinto-me à beira de um ataque de mau humor. Perdi minha mulher e meu filho. Todo mundo, numa situação assim, fica mal-humorado. Mas o meu mau humor é o maior que um homem pode suportar, porque estou lendo o bilhete que minha (ex)mulher deixou pregado na geladeira.
- Adeus. Apesar de tudo, eu lhe amo... Tha.
Este bilhete é pura ironia, é uma vingança dela. Eu sei que ela sabe que o certo é “eu o amo”. Ela sabe que o verbo amar é transitivo direto...

comentários

Tânia Ludwig - 30.06.2009 - 06:17

Olá, sou brasileiro, moro na Áustria, estou aprendendo alemäo,e troco aulas com uma austríaca, ela me ensina alemäo e eu à ela português. Hoje disse a frase: eu amo voês e ela me perguntou porquê näo eu vos amo? Eu näo soube responder, sai frustada. Porque näo posso dizer eu te amo, se o pronome do du é te? Fiquei totalamente confusa.
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