Não sei se foi por razões políticas (ou perseguição ideológica), o certo é que no fatídico dia 29 de setembro de 2008 o presidente Lula promulgou o Decreto 6583, que, entre outras disposições, condenou o Senhor Trema à pena de morte, à execução sumária, sem direito a julgamento. A execução aconteceu no dia 31 de dezembro. O carrasco foi o próprio ministro da Educação, que puxou a alavanca da guilhotina, decepando impiedosamente a cabeça do tímido Senhor Trema.
Convidado pela família, eu fui ao velório. Lá fora espocavam os foguetes: o povo, alheio à dor da família do Senhor Trema, brindava o Novo Ano de 2009 nas ruas, nos clubes e nas churrascarias. Ali dentro reinava a tristeza: um caixão com o corpo do tímido Senhor Trema, sem a cabeça ( que estava exposta ao público no Palácio do Planalto ). Os familiares apresentaram-me Dona Cedilha, a inconsolável viúva. Um primo do defunto, o Acento Agudo, chamou-me a um canto e apresentou-me seus dois irmãos: o Circunflexo, um senhor meio corcunda, envergado pela velhice, e o Til, um sujeitinho de fala nasalada, olhares falsos e andar rastejante feito uma cobra. O Acento Grave, um senhor de porte ereto, pescoço inclinado para trás, como se olhasse para o teto invocando aos Céus uma explicação pela morte do querido amigo, olhou-me e, com voz muito grossa e baixa, apresentou-se:
- Sou o senhor Acento Grave, primo do falecido.
- Prazer – eu disse. – Como vai sua esposa, a Senhora Crase?
- Meio assustada, ainda. Felizmente não fomos atingidos por esse Decreto.
Para puxar assunto, eu observei:
- Estou notando a ausência do Senhor Hífen...
Com a voz mais cavernosa ainda, o Acento Grave confidenciou-me:
- Está preso. Inventaram um monte de irregularidades que ele jamais praticou, grampearam seus telefones. Sua família caiu em desgraça com o Decreto. Está sob custódia e não se sabe ainda seu destino, coitado!
Um sujeitinho maltrapilho entrou aos choros. Era o Senhor Apóstrofo, o primo mais pobre da dinastia dos diacríticos, ladeado dos poucos e minguados filhos sobreviventes dos decretos (que desgraçaram sua família) em 1911, 43 e 71: a Galinha-d’angola, o Olho-d’agua, o Pau-d’arco, a Estrela-d’alva e o sempre bêbado Pau-d’água.
O salão do velório era enorme, mas quase já não cabia tanta gente. Ao lado do caixão do tímido e falecido Senhor Trema, começaram a enfileirar seus angustiados filhos, dezenas deles: a pontual Freqüência, a assanhada Lingüiça, o destrambelhado Inconseqüente, o sempre elegante Pingüim ( trajando um impecável smoking ), a temida Conseqüência, o coronel Nicaragüense (revolucionário bolivariano que veio num jato emprestado pelo amigo vizinho Hugo Chávez ), os gêmeos Qüinqüênios, a sempre falante e tagarela Eloqüência, a curiosa e enxerida Argüição e o Seqüestrador ( foragido da Justiça e ovelha-negra da família ).
A Eloqüência, com sua compulsiva tagarelice, murmurou em meus ouvidos que um parente afastado, um tal de Senhor Müller ( um alemão neonazista ) traíra o Senhor Trema e, por isso, escapara do Decreto 6583.
Com passinhos miúdos, rosto muito sereno, arrastava-se em volta do caixão o sempre devagar Senhor Tranqüilo...
Pobres órfãos!