Entrevista com
Fernando Meirelles a Revista da Livraria Cultura, em outubro de 2008, que achei no
Blog do Lisandro .
O diretor fala, dentre outras coisas, da importância do roteiro na construção do filme e sobre adaptações de livros para cinema, processo que muita gente não entende, chegando e questionar a qualidade do filme baseado no processo analítico literário, que é bem diferente da análise cinematográfica/audiovisual. Coisas distintas, lógico.
É sempre bom ver alguém como Meirelles falando de cinema.
"O roteiro é o rei", entrevista com Fernando Meirelles
A adaptação da literatura para o cinema é sempre uma questão delicada. O que mais te preocupa neste processo?
Livro é livro, e filme é filme. A primeira coisa que me preocupa é que o roteiro seja interessante. Se der para ser fiel, ótimo. Se não der, o roteiro deve ser o rei; se tiver que alterar a obra, altere, porque você tem que ter um bom roteiro. Mas, às vezes, há livros aos quais você pode ficar muito preso e, mesmo assim, produzir uma boa adaptação.
Seria o caso de Ensaio sobre a cegueira?
É, neste caso, a trama do filme é muito próxima, muito parecida com a trama do livro. Mas acho que é bem diferente, porque no Ensaio os personagens não têm muita cara, não tem nome; no filme, embora também não tenham nome e nem passado, você coloca o Gael, fazendo o papel do Rei da Camarata 3 e, imediatamente, traz a personalidade do ator. A mesma coisa acontece com a Juliane Moore, você não olha mais a mulher do médico, mas a Juliane Moore. Mesmo sem querer, você dá cara, dá personalidade para os personagens, o que Saramago não quis fazer. Mas não há como, porque o cinema é visual. E tem outra coisa: no livro, quem narra, quem conta a história é o escritor – é como ele vê as coisas, coloca pensamentos na cabeça dos personagens. No cinema, nada disso é possível. Toda a história tem que ser contada pelas ações dos personagens. Ensaio sobre a cegueira foi extremamente difícil de adaptar, porque é muito pessoal, muito subjetivo, opinativo, tem as ironias do autor, e isso não cabe na ação do ator. Acho que foi uma ousadia do Don McKellar – canadense responsável pela adaptação –, mas acho que acabou saindo bem
É isto que você coloca como o maior desafio da adaptação?
É isto sim. Para mim, o maior desafio para fazer um filme sempre é chegar ao roteiro, é escrevê-lo. Quando você tem um bom roteiro, 90% está feito; aí, é só ir lá, arrumar um ator e filmar.
E por que resolveu mudar o filme depois da apresentação no Festival de Cannes este ano, antes da estréia no Brasil?
Primeiro, esse negócio de ficar alterando o filme é um processo de todo filme. Todos os cineastas demoram oito, nove meses – o Walter [Salles] demorou quase um ano montando o Linha de passe. Não é que você demore colocando as partes juntas, é o tempo em que você fica mudando para chegar ao melhor resultado. E eu fiquei nesse processo. Aconteceu que, como fomos convidados para abrir o Festival, fechamos e mixamos o filme muito rápido e mandamos. Mas ainda não estava acabado. O ideal é acabar o filme, que na hora está bom, dar uma semaninha e voltar a ele, mas eu não tive essa semaninha.
O interessante é que Saramago gostou do filme. Diferentemente de outros autores que acabam não gostando das adaptações. Quando há essa desavença, como o diretor deve se posicionar?
É, eu tive a sorte de os três autores que peguei – o Paulo Lins, John Le Carré e José Saramago – terem gostado das adaptações. Mas acho que, realmente, é sorte ter pego escritores generosos, tolerantes, que deixaram eu meter a mão no filme, dar uma outra versão, mesmo que não tivesse sido da forma que estavam imaginando. Na verdade, fiquei muito ansioso para saber o que ele ia achar, se seria a história dele ou não. Fiquei feliz que gostou.
Esta é a sua terceira adaptação. Você prefere esse tipo de trabalho a roteiros originais?
Não. Acho que foi coincidência, porque leio bastante. Leio, me entusiasmo com a história e me envolvo. Foi assim com essas obras. Mas tenho dois roteiros começados que são originais. Mas demoram um tempo e, por causa disso, acabo lendo outra coisa e coloco um filme no meio. Mas devo fazer um roteiro original em algum momento da minha vida.
Mas o seu próximo trabalho seria uma adaptação, desta vez de um livro do Jorge Furtado, não é?
É. Na verdade, não é bem uma adaptação. Não vou nem utilizar o mesmo nome. O Jorge escreveu um livro um pouco baseado em Trabalhos de amor perdidos, de Shakespeare. Agora, está escrevendo um roteiro para mim que é levemente baseado no livro dele. Não sei quando vou fazer. É uma comédia de estudantes estrangeiros, em Nova York, que estão fazendo projetos sobre Shakespeare.
Quando você fala “levemente”, acha que as outras adaptações também podem ter esse advérbio?
O Cidade, acho que foi uma adaptação bem livre, porque a estrutura do filme é diferente da apresentada no livro do Paulo, que é muito episódico. Já o roteiro do Bráulio Mantovani é bem-estruturado, tem alguns personagens centrais, coisas que não existem no livro. O do John Le Carré, acho que foi uma adaptação fiel, mas a gente tirou muita coisa, porque é um livro muito grande, de 600 páginas, então, na verdade, demos uma filtrada na obra. E esta do Ensaio, por ser uma obra mais curta, acho que tem a trama mais fiel ao original.