Anele de Paula
Wilson Lima
Da Editoria de Estado
Caxias (MA) - Uma das maiores manifestações de fé do estado do Maranhão, a Procissão do Fogaréu, em Caxias, está confirmada para ser realizada no dia 31 deste mês, antevéspera da Sexta-Feira da Paixão. A cidade maranhense é uma das únicas a realizar esse evento no Brasil. Além de Caxias, no ano passado, a procissão foi realizada em Goiás Velho (GO), Parati (RJ), Nazaré da Mata (PE) e em Oeiras (PI).
Essa será a sétima vez que o evento será realizado em Caxias. Na procissão, que simboliza a Paixão de Cristo, os fiéis saem pelas ruas do Centro Histórico de Caxias portando fifós (tochas), com as luzes dos postes apagadas e ao som incessante de matracas e rufar de tambores. As matracas substituem os sinos que, por serem motivo de júbilo, silenciam na noite de Quarta-Feira de Trevas e só voltam a tocar no Domingo de Páscoa.
Este ano, a procissão passará por 16 ruas ou logradouros de Caxias. A procissão começará às 20h, saindo do Largo dos Remédios, depois passará pela Rua 1º de Agosto, seguindo pela Matriz de Nossa Senhora da Conceição e São José, contornando a Praça Cândido Mendes, a Rua Coelho Neto, o Largo do Rosário, a Rua São Benedito e a Igreja de São Benedito.
A encenação também passará pelas ruas Afonso Pena e Aarão Reis, Santuário do Sorriso, Avenida Jerusalém, Avenida 1, Avenida Benjamin Constant e terminará no Largo de Nossa Senhora da Assunção. No total, aproximadamente 60 atores conduzirão a Procissão do Fogaréu este ano. No ano passado, o espetáculo reuniu 40 atores.
No início do percurso, na Catedral dos Remédios, os atores encenarão a apresentação de Jesus no templo, a entrada de Cristo em Jerusalém, o Sermão da Montanha, a Santa Ceia e a venda de Cristo por Judas. Depois, a procissão segue com paradas no adro da Igreja do Rosário, onde ocorrerá o diálogo do hospedeiro com farricocos (indivíduo encapuzado que acompanha a procissão).
No Santuário de Nossa Senhora do Sorriso, haverá a Prisão de Cristo e o sermão do Monsenhor Mendes. Por fim, na Capela de Assunção, será encenado o Lamento de Verônica, o Arrependimento de Judas e o Consolo dos Anjos.
Preparativos - Os atores e produtores que realizam a Procissão do Fogaréu todos os anos em Caxias estão finalizando os preparativos da celebração religiosa. Um dos coordenadores da encenação, Leonardo Barata, explicou que a peça, exibida no ano passado, será reaproveitada este ano.
“No início da celebração do ano passado começou a chover muito forte com vento, o que acabou afastando diversas pessoas da igreja e destruindo alguns dos nossos cenários. Este ano, vamos reaproveitar a peça e inserir algumas novidades”, justificou Leonardo Barata.
Uma das novidades deste ano será a redução no percurso, que nos anos anteriores chegava a ter mais de cinco quilômetros. O motivo é simples: evitar a violência. O percurso era longo. A procissão se estendia por mais de três horas, e em alguns anos ela só se encerrava por volta das 3h. O horário representa um risco para os fiéis, principalmente as mulheres, que voltavam a pé para suas residências.
“Nunca registramos um caso de violência no decorrer ou após a realização da procissão, mas não podemos dar oportunidade para que isso aconteça. Com o percurso reduzido, mais pessoas poderão participar da caminhada, principalmente os mais velhos, que ainda respeitam as tradições e vêem na celebração da procissão um ato de muita fé”, disse o coordenador.
Começo - A primeira Procissão do Fogaréu aconteceu em 2004 com a participação de 80 jovens. Mesmo sob forte chuva, o grupo não se intimidou e percorreu as ruas da cidade acompanhado por pouco mais de mil pessoas e nesse ano não houve teatro.
Em 2005, aconteceu a primeira adaptação do teatro, e é este um dos fatores apontados para o sucesso da procissão. Desde então, o número de participantes só cresce. Em 2006, as luzes da cidade foram desligadas durante o percurso, o que deu mais emoção à cerimônia.
História
- Em Oeiras, é realizada só a Procissão do Fogaréu pelo Centro Histórico da cidade. Não há cânticos, apenas o som da matraca. Há apenas o cortejo com as lamparinas, que são confeccionadas pelos moradores do lugar. Somente os homens podem participar do cortejo.
- Já em Goiás Velho, além das ruas escuras, há o estandarte, que representa Cristo. Os farricocos usam os mesmos trajes e as tochas utilizadas em Caxias. Lá também não há cânticos e nem encenações teatrais.
- A Procissão do Fogaréu foi introduzida em Goiás pelo padre espanhol Perestelo de Vasconcelos, em meados do século XVIII.
Espetáculo será encenado no pátio da Catedral
Na programação deste ano, o espetáculo está marcado para começar às 21h no adro da Catedral. É neste local que acontecerá a acolhida dos romeiros e o sermão do bispo de Caxias, Dom Luís d’Andrea. Logo em seguida, será encenado o primeiro ato da procissão: Jesus no deserto/A agonia de Jesus (parte I), Ataque dos ‘sombras’, Consolo dos Anjos e a Venda de Cristo por Judas. Em seguida, começará a procissão pelas ruas de Caxias.
Nesses locais, a iluminação das ruas é desligada para dar maior dramaticidade à procissão. Às Oh20, será realizado o segundo ato da procissão, A Procura de Jesus no Local da Última Ceia. Na Igreja de São Benedito, ocorrerá O Diálogo do Hospedeiro com os Farricocos, no Largo de São Sebastião, a apresentação do Corredor das Lamentações. A procissão só terminará no Largo Cultural do bairro Nova Caxias, onde será encenada a parte final do espetáculo.
“Uma orientação que já estamos divulgando para a população caxiense é que não fique estacionado nenhum veículo nas ruas do percurso da Procissão do Fogaréu a partir das 22h da quarta-feira. O nosso objetivo não é o de apenas manter o brilho da procissão, mas evitar transtornos para esses proprietários durante a passagem de quem acompanha a encenação”, pediu o coordenador da cerimônia, Leonardo Barata.
Outro detalhe importante são as velas que devem iluminar essas ruas e que precisam ser acesas por quem reside nesses locais por onde a procissão vai passar. Quem puder, deve distribuir água para os peregrinos.
(O Estado do Maranhão)