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Antonio Rocha Jr
Latuff
Urbanismo e violência
03/11/2008 - 08h:00



A problemática da violência urbana está, infelizmente, cada vez mais na ordem do dia. A sua resolução, no entanto, não é simplesmente uma questão de polícia, pois a gênese da violência é resultante do modelo socioeconômico adotado em grande parte do mundo. A configuração das cidades sob o domínio do neoliberalismo – tido como infalível até o estouro da crise estadunidense – consagra o isolamento dos grupos sociais e incentiva a busca por soluções individuais. A visão capitalista que odeia o coletivo e prega que tudo deve ser particular, privado e individual forjou o sujeito e as cidades arrogantes e egoístas. A ausência de espaços públicos agradáveis, por exemplo, impede que as pessoas convivam, transformando a violência em linguagem recorrente para a solução dos problemas.

Nesse modelo de urbanismo, a cidade - vendida como sendo inclusiva, integradora, solidária, intercultural e multiétnica - cria muros, reais e simbólicos, promovendo a segregação espacial, econômica e social. Nesse sentido, as pessoas dos bairros periféricos são sempre vistas, pelas classes de maior poder aquisitivo, como ameaçadoras e potencialmente violentas. Na verdade, os transgressores, na maioria das vezes, são filhos da miséria, do abandono do Estado e do egoísmo dos detentores do poder econômico, que consideram normalíssimo o socorro do Estado a bancos privados quebrados, mas acham um insulto programas de distribuição de renda como o Bolsa Família.

A sociedade nem sempre compreende a gênese da violência, mas, com razão, está irrequieta, atônita, acuada, amedrontada, exigindo dos poderes constituídos a punição dos transgressores. A construção da segurança pública, no entanto, passa pela construção da cultura cidadã, de modo que seja estilhaçada a indiferença que tem acompanhado a vida urbana, pois as pessoas, em sua maioria, só têm demonstrado interesse por aquilo que lhes concernem. O caminho é procurar fortalecer as normas sociais de convivência, envolvendo a população e ampliando a participação. Só assim recuperaremos a essência da boa cidade, que deve ser aberta e pública. A luta contra a violência das cidades começa necessariamente por essa recuperação. É provável que não haja outro caminho.






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As escadas de Lina
A escultórica escada do Solar do Unhão
20/10/2008 - 23h:43


A arquiteta italiana Achilina Bo chegou ao Brasil em 1946 após se casar, na Itália, com Pietro Maria Bardi, cujo sobrenome adotou. Dentre as diversas personalidades que o casal conhece no Rio de Janeiro - Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Burle Marx - estava Assis Chateaubriand, de quem Pietro recebe o convite para fundar e dirigir um museu de arte no país. Daí surgiu o MASP, o museu mais importante da América Latina e que se abriga sob o traço de Lina Bo Bardi – como assim ficou conhecida a talentosa italiana.

Lina manteve intensa atividade em diversas áreas – arquitetura, teatro, cinema, artes plásticas, cenografia, design – e muito se pode falar sobre sua expressiva obra. Queremos aqui destacar, no entanto, apenas as fabulosas escadas que fazem parte de seus projetos arquitetônicos. Em concreto, ferro ou madeira, em edifícios novos ou restaurados, as escadas de Lina guardam extrema simbiose com o espaço arquitetural, não sendo, portando, meras circulações verticais.

No restauro da Casa do Benin, no Largo do Pelourinho, em Salvador, as escadas são lineares - ora em concreto, ora metálica -, acompanhando a estreiteza da planta do velho casarão. Elas dramatizam o exíguo espaço, provocando no visitante o desejo em observar o que se passa além do andar térreo. Na Casa de Vidro, construída em 1951 para morada do casal Bardi em São Paulo, somente a visualmente frágil escada de ferro é deixada como objeto exposto no meio do espaço – o que se configuraria como a essência de seus projetos e de seus restauros.

No Solar do Unhão, também em Salvador, está a mais genial de suas escadas, conhecida como a “escada da Lina”. Ela une o térreo ao primeiro pavimento do corpo principal do conjunto edificado, que é do século XVI e com várias limitações impostas por ser um prédio tombado. A escada se apresenta como síntese da solução modernista de restauro adotada por Lina – “o respeito a todo elemento do passado possível de ser preservado, e quando da necessidade de adaptação ou reconstrução de algum novo elemento, a consideração ao tempo presente em que se realiza a intervenção". A escada se mostra contemporânea em seu desenho, mas se harmoniza com os elementos de outras épocas presentes no edifício; e simultaneamente remete ao tradicional, pelo uso da madeira e pelo sistema de encaixes copiado dos carros de boi.

No Solar do Unhão, a escada transparente e escultórica de Lina permite que os salões ganhem amplidão, numa limpeza espacial que evidencia a feição original do prédio, criando uma área propícia a exposições. É uma escada que se mimetiza para destacar a grandeza do espaço arquitetural do velho edifício restaurado, mas ao mesmo tempo apresenta, pela engenhosidade de seu desenho, forte força figurativa.





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Camila Bezerra 23.10.2008 - 11:35h
Uma arquitetura pura. Sólida, útil e bela. Cuja contextualização com entorno é pos...

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20/10/2008 - 11h:26


Alguns departamentos estaduais do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) realizam anualmente um prêmio com a feliz denominação de “gentileza urbana”. A premiação procura destacar, por meio das gentilezas agraciadas, a essência da boa cidade, que deve ser aberta e pública. No agenciamento espacial da boa cidade edifica-se a casa para se estar nela, mas principalmente funda-se a cidade para se sair de casa e reunir-se com outros que também saíram à rua, à praça; ergue-se a cidade doméstica, mas, sobretudo festeja-se a cidade pública, eloqüente, conversadora.

Neste sentido, o Prêmio Gentileza Urbana do IAB tem por objetivo premiar iniciativas diversas de pessoas físicas e jurídicas, excetuando-se organismos e instituições governamentais, que contribuam significativamente para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, através de ações nos campos da arquitetura, urbanismo, paisagismo e outras iniciativas de cidadania que se qualifiquem como gentilezas para com a cidade e os seus habitantes. É um modo que o IAB encontrou para se contrapor às brutalidades urbanas construídas, sobretudo, pela visão capitalista que odeia o coletivo e de que tudo neste mundo deve ser particular, privado e individual. Felizmente esta visão neoliberal – que forjou o sujeito e as cidades arrogantes e egoístas – encontra-se em terrível crise e agora não tem como explicar, dentro outras coisas, o mito do mercado livre – aquele que teoricamente não usaria as estruturas públicas para auferir lucro.

As gentilezas agraciadas pelo Prêmio Gentileza Urbana do IAB ressaltam que a morada doméstica e a cidade pública devem ser entrelaçadas; indicam que a essência da cidade está nos espaços abertos, como a praça, que é o lugar-síntese do viver e morar comunitário; confirmam que a cidade deve encantar pela arquitetura, pelo encontro, pela afirmação da cidadania.

Se o internauta quiser mais informações sobre a premiação, pode acessar, por exemplo, o site do IAB-CE (www.iabce.org.br), que este ano realiza a quarta edição do seu evento. Podem concorrer, no território de abrangência do departamento do IAB que realiza o Prêmio, as iniciativas reconhecidas como gentileza urbana e indicadas por cidadãos, comunidades, instituições ou entidades civis. O objetivo é destacar atitudes, gestos, intervenções que propiciem um novo olhar sobre a cidade, promovendo a preservação do seu patrimônio cultural e natural e ampliando o conceito de cidadania.










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Obra polêmica
Centro Administrativo de Minas/Oscar Niemeyer
03/10/2008 - 16h:17


Mais uma obra de Oscar Niemeyer se anuncia e vem acompanhada de muita polêmica. Refiro-me ao Centro Administrativo do Governo de Minas Gerais, que está em pleno andamento e tem inauguração prevista para dezembro de 2009. A escolha da área do novo Centro Administrativo, conforme entendimento oficial do governo mineiro, buscou privilegiar novos eixos de desenvolvimento. O local fica na divisa dos municípios de Belo Horizonte, Vespasiano e Santa Luzia, às margens da rodovia MG-010.

O Departamento de Minas Gerais do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-MG), no entanto, é contrário ao local em que o Centro vem sendo implantado por entender que o núcleo central de Belo Horizonte era a melhor opção, por vários motivos: 1) situa-se ao lado de uma área ainda com terrenos vazios e galpões, que poderia abrigar eventuais novas construções; 2) possui prédios vazios, alguns de ótima qualidade, construídos nos anos 1940 e 1950, que, recuperados e ocupados, cobririam parte da área necessária para as funções administrativas do estado; 3) abriga o uso habitacional, que poderia ser ampliado de modo atender à demanda de moradia gerada por empregos diretos e indiretos; 4) possui uma gama de serviços, de alimentação à teatros e cinemas e 5) é próximo à Praça da Liberdade, onde se encontra o atual Centro Administrativo, que poderia continuar a abrigar algumas funções.
 
Alguns arquitetos, no entanto, parabenizam ao governador Aécio Neves pela determinação, por pensar grande e com visão de futuro,
por seu compromisso com a arte e a cultura nacionais. É preciso saber, no entanto, se o governador mineiro não quer simplesmente se utilizar da forca imagética do nosso arquiteto maior em prejuízo da requalificação urbana do centro de Belo Horizonte. Neste sentido – e apesar de reconhecer o grande talento de Oscar -, convém destacarmos a preocupação do IAB - MG com relação aos grandes problemas de Belo Horizonte e com a preservação e a revitalização do seu Centro Histórico. O debate sobre as questões da arquitetura e do planejamento urbano deve prescindir a qualquer solução mágica de ""renovação urbana” que caiba no limite do mandato de muito de nossos governantes.


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Marcilio Alves Pereira 03.10.2008 - 18:53h
Essa historia remete imediatamente ao nosso Centro Administrativo do Cambeba: desd...

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Edimar Soares-O Povo
Memória desfigurada
Feição original do portal da Base Aérea/Fortaleza
26/09/2008 - 16h:50


A problemática da preservação do patrimônio cultural e ambiental é uma questão que ocorre em todos os rincões do Brasil. Mesmo com o aumento da conscientização de muitas pessoas, órgãos e entidades acerca do assunto, a luta pela salvaguarda do patrimônio edificado e ambiental muitas vezes é inglória. A capital cearense, por exemplo, assistiu, há alguns dias, a destruição de parte de uma edificação de interesse arquitetônico, mais precisamente do portal de acesso à Base Aérea de Fortaleza. A Aeronáutica, responsável pelo aeródromo, procurou justificar a atitude pela necessidade de um sistema de verificação mais eficiente, que fica na retaguarda do portal original. Felizmente a população reagiu e consegui preservar a parte central do portal - que é mostrada na foto. Ficou, no entanto, a indignação contra a Aeronáutica, que tem a obrigação de proteger o patrimônio, que é de todos, mas que na verdade mostrou descaso pela composição da paisagem urbana e a história da cidade.

Apesar do portal não ser tombado, ele faz parte de representativo conjunto da arquitetura militar da Fortaleza dos anos 1930. O projeto original de todo o conjunto da Base Aérea é de autoria do húngaro Emílio Hinko, responsável, também, por inúmeras edificações construídas em Fortaleza entre as décadas de 1930 e 1950, dentre as quais o Náutico Atlético Cearense, a Igreja do Coração de Jesus, o Hospital de Messejana e o prédio da Secretaria de Finanças do Município. Hinko projetou para outras cidades nordestina, sendo o autor, por exemplo, do edifício da Escola Técnica Federal do Piauí, na verde capital piauiense..
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14/09/2008 - 12h:49


O que há de comum entre a praia de Atalaia, no litoral piauiense, e a Praia do Futuro, encravada em plena área urbana de Fortaleza? Vento, areia, água de coco e cerveja gelada? Por certo que sim, mas a semelhança maior está na forma de ocupação do litoral, mais especificamente na ocupação da faixa de praia. Faz parte do traço cultural dos dois estados o uso da areia praiana com bares e restaurantes. E não há dúvida, por parte de nativos e turistas, que é extremamente agradável degustar bebidas e comidas em barracas que estão postadas bem pertinho do mar. Os piauienses e cearenses preferem muito mais bebericar água fresca e apreciar o azul profundo do mar sob a sombra do que propriamente entrar na água.

Há, porém, exagero na manutenção de tal traço cultural. Na Praia do Futuro, por exemplo, as barracas cada vez crescem de tamanho, os caramanchões em frente aumentam em quantidade e se constroem piscinas e toboáguas; cada vez mais é dificultado o livre acesso à praia, em toda direção e sentido, como bem determina a lei federal do Gerenciamento Costeiro. No embate eleitoral travado na capital cearense, esta questão está na ordem do dia, com os opositores da prefeita Luizianne Lins – que postula a reeleição – acusando-a da pretensão de retirar as barracas da faixa de areia da Praia do Futuro. Esta pretensão estaria contida no projeto de Lei do Plano Diretor elaborado pela prefeitura e que ora tramita na Câmara Municipal. Na verdade, a proposta do Plano faz referência ao Projeto Orla, que é uma plano federal de disciplinamento da ocupação do litoral brasileiro. O Traço cultural deve ser mantido, mas o disciplinamento da orla é mais do que necessário. Uma saída é fazer ilhas de serviços, concentando barracas em determinados pontos e liberando a faixa de praia para o livre acesso da população,

Os problemas com a ocupação do litoral brasileiro são muitos maiores do que os comentados aqui. Afinal, cerca de 70% da população brasileira está assentada nos municípios costeiros ou próximos deles, ao longo de 17 estados. Com isso, são freqüentes e intensos os impactos indesejados dessa ocupação. Mas aí é assunto para outro comentário.
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