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Biodiversidade e Sociedade

A PROBLEMÁTICA DA DOENÇA DE CHAGAS NO MARANHÃO

A PROBLEMÁTICA DA DOENÇA DE CHAGAS NO MARANHÃO
Thrichomys laurentius (punaré, rabudo) é um roedor silvestre que ocorre no meio-norte e pode estar envolvido no ciclo da doença de Chagas, sendo muito importante o estudo deste e de outros reservatórios naturais de modo a se combater esta doença. | Wikimediacommons

O que é a Doença de Chagas? A Doença de Chagas é uma doença classificada como ‘doença tropical parasitária’, causada por um protozoário chamado Trypanosoma cruzi . Como poderá ser evidenciado ao longo deste texto tem relação com a falta de saneamento básico, noções e condições básicas de higiene, processamento e consumo inadequado de frutos típicos da região amazônica, estrutura de residências, dentre outros fatores. Em 2018, dezenove novos casos foram registrados para o Maranhão, nos chamando a atenção para a necessidade de mais estudos e políticas públicas norteadas por estas pesquisas, implicando em melhores condições de vida para o povo maranhense e do meio-norte do Brasil.

Agente etiológico da doença de Chagas, o protozoário Trypanosoma cruzi. Fonte: Wikipedia.

No ciclo da doença de Chagas também há participação de reservatórios naturais que seriam animais silvestres infectados, mas que não manifestam a doença, podendo-se citar alguns grupos de mamíferos silvestres como mucuras do gênero Didelphis e roedores conhecidos como rabudos ou punarés do gênero Thrichomys, bem comuns no meio-norte do Brasil.

As mucuras ou gambás do gênero Didelphis podem atuar como reservatórios naturais da doença de Chagas. Nessa imagem uma fêmea da espécie Didelphis marsupialis com seus filhotes. Fonte: Wikipedia.

Os roedores do gênero Thrichomys conhecidos como rabudos e punarés também podem participar como reservatórios naturais da doença de Chagas. No Maranhão e Piauí há registros de Thrichomys laurentius, mas há possibilidade de uma nova espécie para o sul do Maranhão. Fonte: Wikipedia.

Há participação efetiva também de insetos conhecidos como ‘barbeiros’ do gênero Triatoma que funcionam como vetores da doença, ou seja, o ser humano contrai a doença a partir da picada deste inseto e deposição de fezes enquanto o mesmo se alimenta do sangue do hospedeiro (o ser humano).

Desenho de um dos insetos vetores da doença de Chagas Triatoma brasiliensis. Fonte: Wikipedia.

De modo geral, o ciclo dessa doença envolve reservatórios naturais (ex: alguns mamíferos silvestres), os vetores ( barbeiros) e hospedeiro (o ser humano). A infecção no homem se dá pela picada do barbeiro ja infectado e de forma conjunta com a deposição de suas fezes na pele do individuo, uma vez que o protozoario se encontra no intestino do inseto. Após a picada e o alojamento das fezes, o ser humano se coça como reação natural de qualquer picada, mas o simples movimento acaba ocasionando a infecção, levando as fezes infectadas até o a porta de entrada na pele feita pelo individuo no ato de coçar. O parasita infecta primeiramente as células do tecido, a pele, para posteriomente entrar na corrente sanguínea ocasionando toda a sintomatologia discorrida posteriomente neste texto.

 

GIF do ciclo infeccioso causado pelo protozoário Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas. Fonte: Wikipedia.

A doença também pode ser transmitida através de transfusão sanguínea de um paciente infectado para outro saudável (algo muito raro recentemente dado os testes de segurança nos bancos de sangue), ingestão de alimentos infectados (casos comprovados com consumo de açaí e bacaba, frutas amazônicas bastante apreciadas) e contágio com as fezes de animais infectados (barbeiros).

Quais são os sintomas da doença de Chagas? Os sintomas mudam com o tempo, com o avanço da infecção, sendo dividida em fase aguda e fase crônica: 1. Fase aguda: Pode não haver sintomas perceptíveis, mas quando há podem ser: i) Febre: pois é a resposta natural do organismo frente a qualquer infecção; ii) Aumento dos ganglios linfáticos: são os que chamamos de ‘ínguas’, os quais são responsáveis por ‘recolher’ todo microorganismo causador de infecção; iii) Dor de cabeça: decorrente do processo infeccioso; iv) Inchaço no local da lesão: lesão essa causada pelo animal infectado,. Então podemos ver e entender que os sintomas são de uma infecção normal e o diagnóstico, se não for bem acompanhado, pode ocasionar erros implicando no início de um tratamento não eficaz para a doença de Chagas. Entre a oitava e décima segunda semana, os indivíduos infectados entram na fase crônica da doença. Nesta fase a maioria dos indivíduos pode apresentar: i) Insuficiência cardíaca: decorrente do alargamento dos ventrículos do coração (aumento deste órgão). Infelizmente não tem cura, mesmo com o transplante do órgão, o protozoário Trypanosoma que estará na corrente sanguínea sempre acometerá este órgão ii) Dilatação do esôfago ou alargamento do colon (intestino grosso): estas situações acontecem em casos raros.

Inchaço característico proveniente da picada do barbeiro, bastante comum na região do rosto. Fonte: Hospital Israelita Albert Einstein.

Como obtemos o diagnóstico? Para a fase aguda apenas a retirada de sangue para procura do protozoário em microscópio já é um diagnóstico bem preciso para a doença. Para a fase crônica é preciso de exames imunológicos.

Qual o tratamento da doença? O tratamento ocorre através de medicamentos antiparasitários, não permitindo com que o protozoário parasite sistemas importantes do corpo humano, tal como o Sistema Nervoso. Um estudo em 2010 sugere que o tratamento antiparasitário leva à cura parasitológica em cerca de 60–85% dos adultos e em mais de 90% das crianças tratadas no primeiro ano desde a fase aguda da doença de Chagas. Crianças (idades entre seis e 12 anos) com a doença crônica apresentam uma taxa de cura de aproximadamente 60%. Apesar de a taxa de cura diminuir com o tempo em que o adulto está infectado com a doença de Chagas, o tratamento tem se mostrado capaz de postergar o início do acometimento cardíaco em adultos com doença de Chagas crônica. Mas vale ressaltar que cada caso é um caso e o acompanhamento do paciente por um profissional da área da saúde capacitado é crucial.

Qual a realidade do Maranhão frente a Doenças de Chagas? O índice de casos no Estado do Maranhão apresentou uma queda brusca desde o ano de 2007, sendo bem mais raros os casos agudos da Doença de Chagas, permanecendo apenas os casos existentes, mas estes, infelizmente, já se encontram em fase crônica. Nós, profissionais da área da Saúde e das Ciências Biológicas, ficamos felizes com o resultado, mas confessamos que há certa negligência em relação a esta doença. Porque escrevemos isso? É nítida a redução de campanhas de prevenção à doença, pesquisas e palestras por parte dos órgãos competentes.

No município de Pedro do Rosário, no Estado do Maranhão, na zona rural, foram identificados casos de Doença de Chagas. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde (SES), até o momento foram 19 casos positivos. Dados estes que servem de alerta para a sociedade maranhense. Também segundo a SES, a contaminação ocorreu pela ingestão do suco de bacaba, uma espécie de fruto oriundo de palmeira típica da Amazônia, assim como os açaís ou juçaras, bastante apreciadas pela população. 

O açaí é uma fruta tipicamente amazônica e bastante apreciada. Seu processamento inadequado pode ser tão problemático quanto o do bacaba. Recentemente 19 novos casos em Pedro Rosário, Maranhão, foram associados ao mau processamento da bacaba, um fruto também amazônico e de processamento semelhante ao açaí. Fonte: Wikipedia.

Quais são as medidas preventivas que podem ser adotadas? i) Políticas públicas voltadas para a higiene e saneamento básico: precisamos ressaltar que a Doença de Chagas é uma problemática em Saúde Pública. Saídas de esgotos e lixos a céu aberto contribuem veementemente para a contaminação e propagação da doença, ou seja, melhorias na área de saneamento básico; ii) Melhoria das condições de moradia: a contaminação através do barbeiro, em sua maioria, acontece em famílias que moram em casa de barro, pau-a-pique ou taipa, invasões, logo, regiões onde o índice de desenvolvimento humano (IDH) são baixos. Neste caso, a mudança da moradia de taipa ou barro para casas de alvenaria e a limpeza diária seria uma medida preventiva de extrema importância e que requer esforços dos diferentes setores do poder público; iii) Controle nos bancos de sangue: neste caso é específico para o setor hospitalar. A contaminação por transfusão sanguínea não é mais uma realidade, por causa da evolução e capacitação dos profissionais deste setor. Todo cuidado é pouco. Uma boa triagem do doador de sangue sempre será a melhor solução. 

Pesquisadores da área de Biologia e Medicina Veterinária ligados à Universidade Estadual do Maranhão (São Luís) tem se debruçado em estudos sobre doenças emergentes que afetam sobremaneira a sociedade maranhense: Doença de Chagas, Esquistossomose, Hantaviroses, Febre maculosa, dentre outras doenças. Colaborações científicas tem sido oficializadas entre a Universidade Estadual do Maranhão e o Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) na tentativa de se estudar a problemática e propor medidas mitigadoras e diretrizes para melhor direcionar investimentos públicos. Percebemos que ainda ‘engatinhamos’ nesse sentido, principalmente pela escassez de recursos financeiros para realização das pesquisas e uma melhor integração às secretarias de saúde e acesso aos dados oficiais organizados e disponibilizados em banco de dados para toda sociedade.

Enquanto as autoridades competentes negligenciarem as doenças emergentes o Maranhão figurará, infelizmente, entre os estados onde, por exemplo, a situação da esquistossomose ou barriga d’água apresenta números alarmantes e vexatórios. No final das contas, tudo está muito relacionado à falta de estrutura adequada, de moradias, de saneamento básico, dentre outras mazelas, que assolam o nosso estado e o povo maranhense, sobretudo os menos favorecidos. Isso não é uma crítica pejorativa e vazia, mas necessária e construtiva. Mudar esse quadro é tarefa de todos nós, desde governos federal, estadual e municipais até os autores deste texto e você que está finalizando a leitura desta simples abordagem sobre Doença de Chagas. Muito obrigado, caro leitor! Críticas e sugestões são sempre bem vindas.

Casa de taipa ou pau-a-pique comum nas regiões rurais e mais carentes no meio-norte do Brasil, recoberta por palhas secas de babaçu. Este tipo de residência favorece maior incidência da doença de Chagas. Fonte: Wikipedia.



Este texto foi escrito pelo meu aluno de iniciação científica Thalles Richard Ribeiro de Almeida e revisado por mim.

Thalles Richard Ribeiro de Almeida é aluno de graduação do curso de Biomedicina da Uninassau, São Luís; estagiário no Laboratório de Biodiversidade Molecular atuando na Coleção de Tecidos e DNA da Fauna Maranhense - COFAUMA - UEMA; co-fundador do Movimento União Nacional Biomédica; representante da União Nacional Biomédica no Estado do Maranhão; e conselheiro gestor do conselho municipal de saúde na instância organizacional da sociedade civil do município de Paço do Lumiar - MA.


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