Você precisa verificar a sua conta, acesse o seu e-mail

mais
URGENTE
Acidente em aeroporto de Teresina causa confusão em voôs para todo o país
Baixe o nosso APLICATIVO
ESCOLHA A LOJA ABAIXO: Google Play AppStore
curiosidades rede meionorte blogs notícias entretenimento esportes cidades carros
Biodiversidade e Sociedade

Até onde mesmo vai a Amazônia no Nordeste do Brasil?

Até onde mesmo vai a Amazônia no Nordeste do Brasil?
Nova espécie de roedor na região meio-norte que chegou aqui há cerca de 1000 anos vindo da Amazônia | Rita Rocha

A região conhecida como meio-norte do Brasil é representada pelos estados do Piauí e Maranhão. Estes dois estados se encontram no limite oeste do Nordeste do Brasil com características muito interessantes do ponto de vista da Biodiversidade e Conservação, constituindo verdadeiros “laboratórios a céu aberto” para diversos tipos estudos, cujos resultados podem ser revertidos em políticas públicas para uso sustentável ou racional dos recursos naturais ali existentes em favor da sociedade através da geração de rendas alternativas, sobretudo para as populações mais vulneráveis.

A Amazônia legal brasileira foi criada pelo governo para promover o desenvolvimento social e econômico dos estados da região amazônica, correspondendo a cerca de 60% do território brasileiro. A Amazônia legal contempla áreas de Cerrado no Maranhão, Tocantins e Mato Grosso, além de porções do pantanal mato-grossense, como pode ser visto nos mapas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dentre outras fontes na internet. É importante não confundir esta delimitação com o conceito de bioma Amazônia. Bioma pode ser entendido como um conjunto de ecossistemas característicos, sendo considerados para o Brasil, por exemplo, o Cerrado, a Caatinga e a própria Amazônia.

Considerando-se o bioma Amazônia, este chegaria apenas até o oeste do Maranhão, região conhecida como Amazônia maranhense e fortemente impactada por atividades madeireiras, com elevados índices de desmatamento. O Cerrado ocupa grande extensão de terras maranhenses, sendo também bastante impactado por atividades relacionadas ao agronegócio. Além disso, há extensas regiões ou “faixas” de transição que são conhecidas como regiões ecotonais, bem como alguns elementos de Caatinga bem na sua porção leste, margeando o curso do rio Parnaíba. Podemos definir essas regiões ecotonais como regiões de “encontros” entre diferentes tipos de ecossistemas naturais, com presença marcante das matas de cocais ou babaçuais e matas secas ou semideciduas (que perdem apenas parte de sua folhagem no período de estiagem). Além disso, devemos destacar as vegetações litorâneas (manguezais).

E em relação ao estado do Piauí? Este estado apresenta presença marcante dos biomas Cerrado e Caatinga (Caatinga e Cerrado, respectivamente, nas fotos abaixo, cujos créditos são de Trigueiro Martins e Caliandra do Cerrado), além de expressivas “faixas” de transição entre estes dois biomas, com presença também de matas de cocais ou babaçuais e um tipo de vegetação muito interessante, as matas secas. Essas matas secas podem ser observadas em formas de manchas desde a capital piauiense até a região do Parque Nacional de Sete Cidades. Outro tipo de vegetação intrigante são os chamados “boqueirões” que se encontram presentes no sul do Piauí, em Unidades de Conservação como o Parque Nacional da Serra da Capivara e Serra das Confusões, dentre outras localidades. Por fim, não podemos deixar de citar as vegetações características do litoral do Piauí.

Fiz minha graduação em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Piauí, entre 2002 e 2005, quando puder iniciar meus estudos sobre biodiversidade, com enfoque em fauna, na região norte do Piauí, estudando durante três anos seguidos a fauna do Parque de Sete Cidades e outras localidades. Durante minhas caminhadas nos trabalhos de campo, ainda como um estagiário em início de formação, comecei a me deparar com estes ambientes interessantes: matas secas, babaçuais e até mesmo os boqueirões em uma excursão científica à região da Serra da Capivara em 2003.

Chamou-me a atenção desde cedo o fato de encontrar nessas localidades vegetação predominante de chapada (Cerrado), mas com pequenas manchas destes ambientes ou hábitats florestais e mais úmidos. Lembrando, caro leitor, que a vegetação de Cerrado é mais baixa, com árvores de pequeno porte, troncos retorcidos e adaptações naturais para regeneração por conta de queimadas naturais, ao passo que a de Caatinga é ainda mais seca e também de baixo porte. Quando eu adentrava estes ambientais florestais e mais úmidos para estuda-los me deparava com uma vegetação e fauna um tanto diferenciada daquela presente no Cerrado e Caatinga e algo muito me intrigava: o fato de encontrar espécies tipicamente amazônicas ali. Comecei intuitivamente a buscar respostas para esse padrão que eu começava a enxergar. Por que essas espécies tipicamente amazônicas só estão aparentemente nestas manchas de florestas na região dominada por Cerrado e Caatinga? Foram anos de estudos e conversas até elaborar algumas hipóteses e começar a colocar em prática estudos sobre o tema.

Segundo pesquisadores, onde atualmente predominam as vegetações abertas (Cerrado e Caatinga) no Maranhão e Piauí já teriam sido ocupadas por florestas úmidas contínuas através de um processo de retração e expansão de florestas. Deixe-me tentar ser mais claro: em períodos mais úmidos as florestas se expandiam e se uniam e ocupavam a região meio-norte, ao passo que em períodos mais secos estas florestas regrediam e voltávamos a ter mais presença de ambientes secos, como Cerrado e  Caatinga.

Nesse ponto chegamos a um detalhe muito interessante: durante o período seco permaneciam pequenas manchas de vegetação úmida que abrigavam essas espécies de plantas e fauna florestais. Os cientistas chamam esse período de oscilações do Quarternário e apontam que ocorreram há milhares de anos por várias vezes. Uma teoria muito difundida e debatida é dos Refúgios Plesistocênicos, que teve participação de um grande pesquisador brasileiro em sua elaboração, Paulo Emílio Vanzolini, aquele mesmo autor da música Ronda que se tornou famosa na voz de Maria Bethânia e do “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, dentre outros sambas. Além de ótimo compositor Vanzolini também era zoólogo, ou seja, especialista em fauna, e trabalhava no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Atualmente vivemos em um período mais seco, onde os dois “blocos” de florestas da América do sul se encontram separados: a Amazônia a oeste e Mata Atlântica restrita bem ao leste do Brasil, com pouco mais de 10% de sua cobertura original, e os Cerrados e  Caatingas formando um corredor central de vegetação mais seca que separa os biomas florestais no continente sul-americano.

Retornemos às minhas andanças pelo Piauí durante meu curso de Biologia. Em estudos realizados por mim nessas manchas de matas semidecíduas próximo à Teresina encontrei além de espécies tipicamente amazônicas novas espécies para Ciência, ou seja, espécies ainda não descritas. Para uma destas espécies, um roedor silvestre do gênero Makalata (foto a seguir da nova espécie do roedor cedida por Rita Rocha), estudos genéticos mostram que as populações dessa nova espécie chegaram por aqui vindos do norte do estado do Pará, atravessando a foz do rio Amazonas, há menos de 1000 mil anos e que muito provavelmente essa dinâmica de vai e vem de florestas pode ter influenciado e muito essa realidade. Um estudo florístico realizado no Parque de Sete Cidades por uma pesquisadora piauiense demonstrou que as matas secas de lá teriam forte afinidade com a Amazônia.

Estudiosos consideram estes ambientes relictuais, uma vez que representam verdadeiras relíquias e podem ser extremamente importantes para entendermos como a evolução moldou a biodiversidade tal qual a observamos atualmente no meio-norte do Brasil. Outro ponto interessante é a difusão sem embasamento científico de que os “boqueirões” da Caatinga do sul do Piauí representariam manchas de Mata Atlântica (Crédito de Augusto Pessoa). Não há estudos que sustentem tal informação, sendo mais provável, dada a realidade de outras manchas de vegetação úmida no Piauí, uma maior afinidade e influência Amazônica, questão que ainda precisa ser bem estudada.

Uma coisa é fato: há grande carência de estudos básicos como listas de espécies e catalogação de espécies, informações genéticas e evolutivas e, por fim, a utilização destas informações em termos práticos na elaboração de políticas públicas para estudo e  conservação da biodiversidade do meio-norte do Brasil, região extremamente interessante em vários aspectos, heterogênea e que pode ser considerada chave para entendermos a evolução da Biodiversidade do Nordeste, do Brasil e do próprio continente sul-americano.

Atualmente aprovamos um projeto por edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Maranhão (FAPEMA). Será o pontapé inicial para começarmos a entender as questões que exponho a vocês caros leitores. Mas por restrições orçamentárias (R$ 42.000,00) só poderemos estudar duas áreas no Maranhão. Interessantemente o embrião desse projeto surgiu em 2003, durante minhas “caminhadas” pelo Piauí, e só começaremos a dar o pontapé inicial agora em 2019, o que escancara a dificuldade de realização de estudos dessa natureza, principalmente por falta de recursos financeiros e alguns especialistas contratados em instituições de ensino e pesquisa no meio-norte. Precisamos sensibilizar gestores, poder público e sociedade para investimentos em estudos desta natureza, praticamente inexistentes para a região, principalmente para o Piauí.

Sei que é clichê mas insisto: precisamos conhecer para preservar. Como preservar efetivamente o que não conhecemos? Precisamos estudar a biodiversidade para usá-la de modo racional em favor desta e das futuras gerações de maranhenses e piauienses. Depois de tudo posto finalizo com a seguinte pergunta: até onde mesmo vai a Amazônia brasileira? Melhor ainda: até onde vai a influência da Amazônia brasileira? Ao que tudo indica passa fortemente pelo Piauí e se estende por outros estados do Nordeste do Brasil. Precisamos refletir, valorizar e estudar nossa biodiversidade, patrimônio de valor incalculável e essencial para melhor qualidade de vida dessa e das futuras gerações. Como você, caro leitor, acha poderia contribuir para melhor conhecimento e uso racional de nossa biodiversidade?


Cleuton Miranda é formado em Ciências Biológicas pela UFPI (Teresina), Mestre e Doutor em Zoologia pelo Museu Emílio Goeldi (Belém) e pós-doutor na área de Biodiversidade pela UEMA (São Luís)


Tópicos
Compartilhe
Google Whatsapp

Localização

Definir a localização padrão

Central do usuário

Login pelas Redes Sociais

Nunca postaremos nada em seu nome


Login por e-mail

Use sua conta cadastrada por e-mail

Não tem conta no meionorte.com?

Cadastre-se

Fique por dentro

Receba notícias quentinhas diretamente no seu whatsapp

Continuar

Falta pouco, agora escolha as categorias que deseja receber notícias

Aperte (ctrl + clique) para selecionar vários
Pronto!

Agora você passará a receber novidades diretamente no seu whatsapp.

Termos de uso

Texto

Política de privacidade

Texto

×