(Por Wellington Soares e Isabel Cardoso)

Personalidade importante na formação da poesia brasileira contemporânea, o poeta Salgado Maranhão nasceu em Caxias do Maranhão, morou em Teresina e em 1973, mudou-se para o Rio de Janeiro.

Autor de vários livros, sendo o mais novo O Mapa da Tribo. Nele, o poeta retorna às suas origens. ?Podemos chamá-lo de um épico lírico?, diz o escritor, que fala ainda de sua relação com a capital piauiense, da similaridade entre música e poesia e também emite sua opinião sobre os poucos leitores no Brasil. ?Há o desincentivo à leitura em todos os gêneros. Porque vivemos num país cujo ensino é direcionado para a sobrevivência e não para vivência. Todo o nosso sistema escolar visa o emprego e não o saber?.

Meio Norte - Como você está com livro novo na praça, gostaríamos que falasse um pouco dele, iniciando pelo título.

Salgado Maranhão - O Mapa da Tribo é o nome do meu mais novo livro, tem este nome porque é o livro do retorno às pegadas da minha origem, trata da forma como eu vejo o que se deu no meu acidentado percurso de vida, podemos chamá-lo de um épico lírico. Silviano Santiago, num depoimento concedido a O globo, sobre mim, declarou que eu deveria escrever uma poética puxada para o épico, e agora isso acontece. Claro, eu mesclo o ontem com o hoje, mesmo porque o interior do Maranhão que eu vi e vivi só existe no meu imaginário, já virou mito, é uma espécie de Macondo, de Garcia Marquez.

MN - O que mudou na sua escrita e na concepção poética do primeiro livro até este último?

SM - Muita coisa mudou na minha escrita desde o início, em Teresina, na década de 70. Eu comecei escrevendo sonetos, sob a orientação do Hardi Filho e do Des. Luis Lopes Sobrinho, isso foi superimportante como aprendizado da técnica do verso, que poucos da minha geração aprenderam. Depois eu descobri, na Biblioteca Anísio Brito, uma antologia dos poemas de Fernando Pessoa, que mudou completamente o meu modo de ver a poesia. Portanto, o meu primeiro livro trazia esse caldo de cultura que, com o tempo, foi se refinando. Pois, quando eu aprendi a desconstruir, já sabia construir. A poética que hoje eu realizo trabalha a linguagem e a palavra como totens, busca permanentemente uma clareira no novo, como quem procura um pirilampo na escuridão.

MN - O Maranhão costuma ser apontado com um celeiro de ótimos poetas. Quem são eles, na sua opinião, entre os já consagrados e os contemporâneos?

SM - O Maranhão é um fenômeno, desde o começo do século XIX, produz literatos de importância nacional. Basta dizer que muitos desses escritores, entre os quais Gonçalves Dias, Souzândrade, Odorico Mendes, Joaquim Serra, João Lisboa, Sotero dos Reis, fazem parte da primeira geração de criadores dos mitos do novo Brasil que se formava, como, por exemplo, o indigenismo, a instauração da ?cor local?, no romantismo brasileiro. Assim, quando eu me entendi como poeta, já tinha como referência Gonçalves Dias e muitos outros autores maranhenses canônicos, que contribuíram para gerar em mim um ethos de orgulho e de pertencimento. Nos dias de hoje, apesar da decadência econômica e política em que se encontra o estado, ainda existe um enorme vigor criativo entre os jovens, principalmente, na área de poesia. E não podemos nos esquecer que o Drummond atual é o maranhense Ferreira Gullar.

MN - Talvez você possa elucidar, como autor de textos cantados por grandes artistas da MPB, um antigo dilema que permeia as discussões literárias: poesia e letra de música são a mesma coisa?

SM - Muito se discute sobre isso, mas, esse é um falso dilema. No começo de tudo, na Grécia Antiga, a poesia era apresentada pelos Aedos, os Bardos e os Rapsodos, em forma de canto. A Ilíada e a Odisseia, de Homero, só foram escritas quatro séculos depois. Também era assim na China de Confúcio, que considerava as odes cantadas o mais refinado ensinamento na formação do homem superior. Porém, com o advento da imprensa, na idade média, a palavra cantada perdeu espaço para a palavra escrita. No Brasil recente, a letra de música, pela qualidade dos seus letristas, entre estes, Torquato Neto, adquiriu um status de poesia que, por um momento, quase que ofuscou o poeta do livro, simplesmente pelo fato da canção dispor de maior exposição na mídia. Mas, isso não esclarece o problema principal: a música e o livro são apenas suportes, se o poema for ruim, não ficará melhor porque está no livro. Do mesmo modo, uma letra de qualidade não ficará ruim porque virou canção.

MN - De que maneira nasceu em você, menino criado numa casa sem livros, o desejo de ser escritor?

SM - Às vezes, eu digo (brincando), que sou uma produção de mim mesmo. Por livre e espontânea vontade, sem que ninguém me influenciasse ou me indicasse um caminho, eu busquei a poesia quando o mais sensato era eu que procurasse um meio de vida que me garantisse sobrevivência a mim e à minha família, recém chegados a Teresina.

Mas, nem sempre um jovem busca um caminho lógico. Encantado com os cantadores repentistas que minha mãe hospedava em nossa casa, no interior do Maranhão, eu fiquei com aqueles cantares no meu juízo e, na primeira oportunidade que eu tive de dominar o código da leitura, eu fui buscar a poesia, porque era o tipo de discurso que me fascinava. Naturalmente, havia uma vocação e um temperamento obstinado, e, claro, uma biblioteca pública no meio do caminho.

MN - Há explicação plausível para o enorme fosso entre a quantidade de obras poéticas lançadas e a escassez de leitores desse gênero em nosso País?

SM - Há: o desincentivo à leitura em todos os gêneros. Porque vivemos num país cujo ensino é direcionado para a sobrevivência e não para vivência. Todo o nosso sistema escolar visa o emprego e não o saber. Por outro lado, aqui, a TV ganhou uma importância na vida dos brasileiros que eu não vi em nenhum dos quatorze países por onde passei. No que concerne à poesia, as coisas ficam ainda mais difíceis, porque o texto poético não é autoajuda, não direciona as pessoas, senão para elas próprias. E como a maioria das pessoas vive em busca de uma solução para as questões imediatas, de alguém que lhe dê uma fórmula para o sucesso e a poesia só lhe dá a reflexão e o espanto, só uns poucos se agarram ao silêncio seu ?barco bêbado?.

MN - O poeta piauiense William Soares escreveu, num dístico instigante, que a poesia não resolve, revolve. Essa é também a sua definição ou teria uma outra ainda melhor?

SM - Concordo em gênero e grau com o que afirma o querido poeta, William Mello Soares, e acrescento: a poesia é o lugar do coração que pensa. Trata-se da mais sofisticada forma de expressão humana, porque é tão livre e irresponsável como o discurso das crianças e dos loucos, se estes tivessem nexos. É a única forma de discuso em que o inconsciente não pode se esconder, tem que estampar através das palavras seu equilíbrio ou sua desarmonia. E tem que fazê-lo com beleza, do contrário, não comove a ninguém.

MN - Geralmente você é convidado a falar de sua obra em universidades norte-americanas. Como encara isso e por que essa experiência não existe no Brasil?

SM - As universidades americanas são instruídas para a excelência, isso reflete a mentalidade do seu povo, que quer ser o melhor e quer o melhor dos outros. Há um orgulho e uma certeza dessa importância, tudo que fazem é visando o topo. Essa é a cabeça do primeiro mundo, demoram a nos aceitar, mas quando reconhecem o nosso mérito, nos tratam como príncipes. É isso que eu encontro por lá há mais de dez anos, quando começaram a estudar, sistematicamente, a minha obra. No Brasil, que o ensino é instrumentalizado para o mercado de trabalho e não para a excelência do conhecimento sem finalidade, ainda não praticamos esse modelo, mas eu creio que aos poucos chegaremos a ele.

MN - Indagado a respeito de classificação literária, você diz que sua poesia está inserida na vertente apolínea. O que expressa, de fato, tal afirmativa?

SM - O Conceito de ?Poesia Apolínea? é do prof. Luiz Fernando Valente, da Brown University, criado a partir de um estudo sobre a minha poética. Ele afirma que essa linhagem é inaugurada com Drummond, segue com João Cabral e Mário Faustino e continua comigo. Trata-se de uma poética que embora incorporando o ?sentimento do mundo?, trata-o com extremo rigor verbal. No meu caso, que já sou fruto de um caldo de cultura que envolve, a poesia clássica, a Tropicália e a Poesia Concreta, esse conceito é levado às últimas consequências.

MN - Com Mural dos ventos você ganhou o Jabuti de 1999, prêmio acalentado por todos os escritores nacionais. Qual a importância desse livro na sua vida e carreira?

SM - Esse prêmio foi muito importante para alavancar ainda mais os estudos acadêmicos da minha obra. Junto com o Prêmio da ABL (que eu ganhei em 2011) é o mais prestigioso prêmio literário do Brasil. Além disso, foi uma honra á parte, dividi-lo com Haroldo de Campos e Gerardo de Melo Mourão. E foi pelo Mural de Ventos que o Luiz Fernando Valente descobriu a minha obra e iniciou os estudos que deflagaram essa explosão de interesses pela minha poesia nas universidades americanas, foi ele quem me apresentou o mais importante tradutor de poesia de língua portuguesa para o inglês, Alexis Levitin.

MN - Que lembranças você guarda de Teresina durante a época em que morou e estudou aqui?

SM - Antes de Teresina só existia o José Salgado Santos, mas não o Salgado Maranhão. Essa persona nasceu a partir da minha transferência com minha família para essa terra ensolarada e hospitaleira, me conectando com a leitura e gerando em minha vida uma nova sincronicidade de destino jamais imaginada. Os quatro anos vividos nessa cidade nortearam o que eu faço até hoje. Não é que tenham sido tempos sem turbulência, ao contrário, foram anos que, pela magnitude da adversidade eu pude auferir a resistência moral e psíquica que me transformaram no adulto que sou. Além de ter me dado um naipe de amigos e aliados que eu carrego até hoje, como Cineas Santos, Luís Romero, William Mello Soares, Albert Piaui, Menezes y Morais, Edmar Oliveira, Paulo José Cunha, e tantos outros. Aliás, nesse sentido ela continua me premiando com novos amigos, como os doutores, Gisleno Feitosa, Kássio Gomes,Marcelo Passos Lacerda, Alano Dourado. E por aí vai. Mesmo vivendo no Rio há tantos anos, é como se uma parte de mim continuasse em Teresina.

MN - Você almeja pertencer um dia, sonho de tantos autores, a Academia Brasileira de Letras?

SM - Veja bem, o desejo de um escritor pouco importa para o seu pleito de entrar para a ABL, o que importa é o desejo da ABL de tê-lo entre os seus membros. Posso dizer que tenho muitos amigos por lá e, de vez em quando, algumas pessoas apontam meu nome como um dos prováveis candidatos, e eu apenas ouço e sigo em frente produzindo a minha poesia que é o que me cabe fazer. A Academia é um clube que, quando alguém me vir pleiteando, é porque eu estou sendo solicitado com muito entusiasmo.

MN - Que poetas devem ser lidos por quem está começando a rabiscar seus primeiros versos?

SM - Um poeta que comece a escrever deve ler muitíssimo. É comum, agora, ver pessoas que escrevem alguns versos primários já pensando em publicar. Mas, se me perguntam, eu sempre digo que o mais importante é ler, porque sem se informar sobre o imenso acervo da poesia ocidental, não dá para fazer nada de relevo. Da nossa língua é fundamental ler Camões, Gonçalves Dias, Bandeira, Quintana, Cecília, Drummond, Pessoa, Cabral, Jorge de Lima, Mário Faustino, Gullar, Dobal, só para começar. Depois eu falo dos estrangeiros.

MN - Quem é Salgado Maranhão e quais seus projetos para o futuro?

SM - Salgado Maranhão é apenas um menino que brinca com palavras. Escolhi esse caminho e ninguém me procure noutra parte. Eu estou feliz onde estou. meus planos futuros começam no presente: lançar meu mais novo livro, O Mapa da Tribo (que sai pela 7Letras, uma casa editorial dedicada quase que exclusivamente á poesia)em vários lugares, inclusive em Teresina. Desejo trazer minha exposição iconográfica(com curadoria de Carlos Dimuro), que está em São Luis, no Centro de Criatividade Odylo Costa filho, e eu gostaria que viesse para Teresina ou Timon, para que meus amigos e familiares também pudessem ver. Além de seguir divulgando minha obra em outras línguas: no momento, meus poemas estão sendo traduzidos para os idiomas italiano e sueco. E acabo de assinar contrato com uma editora de Nova Iorque, para lançamento de mais um livro meu por lá. A poesia é meu jeito de estar no mundo.