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Sérgia A escreve por deleite e necessidade interior

"À medida em que mais mulheres produzem literatura maior a possibilidade de se encontrar qualidade nessa produção"

Por Wellington Soares

Mestre em Letras/Literatura, Memórias e Cultura, Sérgia A. tem publicações acadêmicas e literárias em diversas revistas e coletâneas culturais. A produção mais recente é a coletânea de contos de terror Coven, pela Editora Desdêmona, 2020).

Sérgia A.também escreve para o blog Do Caminho, site da Revista Revestrés. Autora dos livros Quatro Contos (Quimera, 2018) e Adejo [poemas] – Coleção I Mulherio das Letras (Venas Abiertas, 2019).

Em entrevista ao Meio Norte, Sérgia A. diz que o seu processo criativo é meio caótico.  "As ideias me chegam e são elas que definem o próprio rumo", diz. Ela afirma ainda que não escolhe os temas na hora de escrever. "São eles que se apresentam dentro do meu espanto diante do mundo", afirma.

Sérgia A. escreve sem pressão (Divulgação)Sérgia A. escreve sem pressão (Divulgação)

A poesia não resolve, revolve, escreveu o poeta William Soares. Você concorda?

Sérgia A.: Sim, me parece uma boa definição. William foi certeiro como sempre. Entendo que a poesia está no mundo e se revela ao olhar do poeta/artista como um espanto. Traduzir esse espanto em palavras e torná-lo espelho é o labor do poeta, assim como traduzir o espanto em desenho, pintura, música, dança, cinema etc. é o trabalho de outros artistas. O verbo resolver traz a ideia de apresentar uma solução ou uma resposta. Enquanto revolver, pelo contrário, é revirar, mostrar o lado encoberto, instigar... causar incômodo ou levar à reflexão. É o que a poesia faz.

Mesmo ligada ao mundo das letras, por que demorou tanto a publicar um livro?

Sérgia A.: Já me fiz essa pergunta e cheguei à conclusão de que existem duas razões que estão interligadas. A primeira é pessoal, por insegurança em relação à qualidade do que eu escrevia ou medo da exposição. A segunda nasce da desigualdade de gênero e da distância dos ditos “centros culturais”, que ainda são fatores presentes no mercado editorial. Há algumas décadas era muito pior, não havia internet (sou desse tempo). Até os livros chegavam com dificuldade e já passando por uma “seleção” feita pelo olhar masculino dos livreiros. Uma menina criada no Piauí crescia sem referências próximas, palpáveis, acreditando que aquele mundo era inalcançável. Poucas escritoras conterrâneas de gerações anteriores ou da minha geração superaram todas as barreiras e abriram o seu espaço. Aí retornamos à primeira: pra enfrentar é preciso ter um suporte ou acreditar muito em si mesma. Eu não contava com uma coisa nem outra. A coragem só veio com a maturidade.

Em qual praia literária você fica mais à vontade pra lutar com as palavras: poesia ou conto?

Sérgia A.: Uma pergunta difícil de responder porque meu processo criativo é meio caótico. Dificilmente me sento diante de uma folha em branco com a decisão sobre que gênero literário escrever. As ideias me chegam e são elas que definem o próprio rumo. Faço anotações sobre o que vejo, o que escuto, o que sinto... dali com transpiração, e muita pesquisa se for o caso, pode nascer um poema, um conto, uma crônica ou outro texto fora dos trilhos.

Ao contrário do passado, hoje despontam várias mulheres em nossa literatura. Alguma explicação pra isso?

Sérgia A.: Eu não tenho dados para citar, mas é notório que nos últimos anos cresceu o número de publicações de literatura produzida por mulheres como também essas publicações passaram a ter a qualidade reconhecida em premiações. Credito esse avanço a uma conjunção de fatores. Entre eles, a expansão dos estudos de literatura e gênero nas universidades na última década que jogam luz sobre a produção feminina; a eclosão de movimentos como o Mulherio das Letras e clubes de leitura como o Leia Mulheres que incentivam a produção e a leitura respectivamente. À medida em que mais mulheres produzem literatura maior a possibilidade de se encontrar qualidade nessa produção que diversifica o olhar. Assim como à medida em que mais mulheres são lidas maior a possibilidade de reconhecimento e valorização dessa produção. Isso cria uma reação em cadeia que influencia o próprio mercado editorial.

Sua obra está mais sintonizada com as causas feministas ou políticas?

Sérgia A.: Bom, eu não diria que o que escrevo tem uma causa além da própria arte de escrever. Não escolho os temas. São eles que se apresentam dentro do meu espanto diante do mundo. O “Quatro Contos”, por exemplo, são histórias que se guardaram em mim, ouvidas aos sussurros na infância/adolescência vivida sob uma ditadura militar. Portanto, os dois aspectos estão dentro de mim e ressoam. Sou mulher, mãe e avó de meninas... não tem como a minha obra não ser atravessada pelo feminismo. É uma questão de sobrevivência. Da mesma forma que por sermos humanos, somos seres políticos e manifestamos nas criações as angústias do nosso tempo. Nesse sentido, o feminismo é abarcado pelo político que seria então a causa maior. Como disse a poeta polonesa Wislawa Szymborska no poema “Filhos da época”:

“O que você diz tem ressonância,

o que silencia tem um eco

de um jeito ou de outro político.”

Dá pra viver e ser feliz com literatura?

Viver no sentido de ter a literatura como fonte de renda é quase impossível neste país. São poucos os casos de autores, mesmo os consagrados, que vivem da sua arte. Felizes são os que têm atividades paralelas vinculadas como o ensino de literatura ou produção cultural. Sob esse ponto de vista, o fato de ter dedicado longos anos a outra carreira profissional me favorece, me deixa livre para escrever e ser feliz. É um privilégio. Escrevo por deleite e necessidade interior. Sem pressão. Não conseguiria mais viver de outro modo. Mesmo com todas as angústias que a sensibilidade traz sou feliz por ter encontrado esta forma de expressão. É um canal para extravasar o que me sufoca por tristeza ou por encanto, às vezes até inconscientemente. Catarse, talvez!

O isolamento social tem favorecido ou prejudicado sua escrita?

Sérgia A.: Como todo mundo, vivi fases. O mais fácil foi ficar em casa porque já trabalhava assim e nunca tive vida social agitada. O problema é a sensação de impotência, de ver a humanidade inteira ameaçada por algo invisível, desconhecido. No início não conseguia produzir. Depois de um tempo a gente se adapta, se organiza mentalmente e a coisa flui. Participei de grupos de estudo à distância com incentivo à produção que me ajudaram a manter o foco. Alguns eventos literários importantes nos facilitaram o acesso, pelo formato on-line. Mantive minha rotina de leitura. Escrevi pela primeira vez um conto de terror, para uma edição muito bonita que reúne 15 autoras, como se estivéssemos em uma roda em que mulheres usam a ficção para lidar com o medo. 2021 trouxe a esperança da vacina e o desespero de tantas mortes diárias, cada vez mais próximas, que poderiam ser evitadas se tivéssemos um governo preocupado com a vida a exemplo de outros países. Novamente fico abatida, mergulho na dor que nasce da percepção de que não aprendemos (nós humanidade) muito sobre o que o vírus nos diz: somos um todo, estamos conectados, se o coletivo não estiver bem o indivíduo não estará... Respiro fundo (enquanto posso) e sigo encontrando refúgio em novos projetos. Penso que, no cômputo geral, a minha escrita manteve o ritmo.

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