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Famílias de assentamento criam galinhas caipiram e vão instalar abatedouro

Famílias de assentamento criam galinhas caipiram e vão instalar abatedouro

FAMÍLIAS DE ASSENTAMENTO PRIORIZAM CRIAÇÂO DE GALINHAS CAIPIRAS E VÂO AGORA INSTALAR ABATEDOURO

Maria de Lourdes Batista, de 42 anos, tem uma casa cercada de vasos de plantas, de flores de muitas variedades e de pé de amora que dá frutos em razoável quantidade e dentro de sua residência de piso de cerâmica, três quartos, cozinha, banheiro organizados em 51 metros quadrados não cabem todos os aparelhos eletrônicos como TV, equipamento de som, geladeira, lavadoura de roupa.

Para resolver o problema de espaço, Maria de Lourdes Batista manteve a antiga casa de taipa em que morava para colocar estante para utensílios domésticos e uma bicicleta ergométrica, que comprou R$ 722 à vista porque o médico constatou que estava com colesterol alto e problemas vasculares, que estava impedindo que andasse

?Quando o médico exigiu que eu fizesse exercício, deu para comprar a bicicleta para fazer os exercícios?, fala Maria de Lourdes Batista, que reduziu o seu peso de 87 quilos para 64 quilos.

?Consegui o dinheiro dos móveis, aparelhos eletrônicos com o que estou ganhando com as galinhas?, diz Maria de Lourdes, integrante de uma das 64 famílias que moram no assentamento Vale da Esperança, mantido pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), que existe há seis anos, mas que há dois anos tem garantido prosperidade aos assentados com a criação e venda de galinhas caipiras para o mercado teresinenses, SDR (Secretaria de Desenvolvimento Rural) e Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

Os assentados estão conhecendo pela primeira vez a prosperidade econômica em sua vidas. Cada família cria de 200 a 600 galinhas e têm um rendimento mensal variando de R$ 600, valor superior ao salário mínimo, a R$ 1,3 mil.

Agora, os avicultores estão começando a fechar o financiamento para instalar abatedouro para comercializar as aves já prontas para o consumo embaladas e com rótulo, uma verdadeira agroindústria.

Quase todos os assentados viviam em favelas, vilas e em condições precárias em bairros de Teresina, muitos deles foram para o assentamento e zona rural para conseguir educar os filhos longe dos perigos do vício das drogas e da sedução da marginalidade.

O superintendente regional do Incra, Evandro Cardoso, afirmou que os investimentos no assentamento Vale da Esperança estão em torno de R$ 1 milhão, incluindo os empréstimos para a produção e gastos com infraestrutura para a implantação de água luz e abertura de estradas.

O assentamento tem 884 hectares, onde as famílias que eram sem-terra plantam em vazantes milho, feijão para a subsistências, encheram os quintais de fruteiras como acerola, graviola, caju, goiaba e mamão. As famílias agora estão sendo treinadas para criar ovelhas.

Evandro Cardoso disse que o Incra deu apoio inicial à estruturação da criação de galinhas caipiras com uma estratégia de comercialização. ?As famílias já têm um canal direto de vendas com a SDR e a Conab e com o Programa de Compra Direta. Elas estão conseguindo percorrer toda a cadeia de produção, desde a criação à comercialização?, falou Cardoso.

Ele informou que o planejamento agora está direcionado para a instalação de um abatedouro de galinhas caipiras até o final do ano no assentamento Vale da Esperança.

?A instalação do abatedouro é para agregar valor para que a galinha seja comercializada embalada e com rótulo?, afirmou Evandro Cardoso.

?O nosso objetivo nesse assentamento é iniciar a experiência da agroindustrialização para que os assentados possam disputar mercado seja o institucional com as compras do próprio governo seja o mercado convencional?, declarou Cardoso, lembrando que a partir de agora 30% de toda a merenda escolar terá que sair da agricultura familiar.

?Esta é a primeira organização voltada para uma produção para o consumo dos assentados e para gerar renda adicional com os mercados institucional e da iuiciativa privada. É para agregar valor e aumentar a renda das famílias?, falou Cardoso.

FAMÍLIAS RECEBERAM R$ 14 MIL PARA A CONSTRUÇÃO DE CASAS NO VALE DA ESPERANÇA

´Cada família do assentamento Vale da Esperança recebeu R$ 14 mil para a construção de suas casas. As residências construídas com a Caixa Econômica Federal (CEF) são amplas e grande parte enfileiradas, mas não com nos conjuntos habitacionais.

As residências sempre estão rodeadas de plantas frutíferas e de jardins. Afastadas das casas estão as pequenas granjas. Os assentados compram os pintos por R$ 1,45 cada e três meses depois estão vendendo as galinhas caipiras, conhecidas como caipirão porque são maiores e mais carnudas, e, três meses depois, vendem cada galinha a R$ 13 cada para a SDR ou a R$ 7,50 o quilo para a Conab. Como cada galinha tem o peso médio de 2,2 quilos, terminam faturando R$ 18 por cada ave.

?Nós também vendemos para quem procura a gente aqui no assentamento. Se as pessoas encomendam já tratadas fazemos isso e um gapão pode ser vendido até a R$ 25?,l diz a assentada Gevani Maria Reis de Almeida, de 50 anos, que morava no Dirceu, na zona Sudeste de Teresina, e foi para o Vale da Esperança. No assentamento teve oportunidade e foi estudar em São Luís, por três anos, para se formar como agente comunitário de saúde pela Universidade Federal do Maranhão.

?Não poderia estar melhor, estou criando 300 pintos e a minha qualidade de vida nem se compara ao período em que vivia no Dirceu assustada com a criminalidade?, falou Gevani Maria Reis de Almeida, que começou a preparar a criação de ovelhas.

SEM-TERRA RESOLVERAM CRIAR GALINHA POR FALTA DE RECURSOS PARA INVESTIMENTOS INICIAIS

O presidente da Associação dos Assentados do Vale da Esperança, João Luiz Vieira de Sousa, de 33 anos, nasceu no povoado Pedras Miúdas, na zona rural de Teresina, neto de um agricultor que passou 49 anos de sua vida e morreu como agregado de um proprietário de terra, mesmo destino de seu pai, que gastou 38 anos de sua vida também como agregado.

Apesar de querer viver no campo, João Luiz Vieira de Sousa, pai de três filhos, não queria o mesmo destino. Participou da ocupação da Vila Irmã Dulce, na zona Sul da capital, arrumou um emprego em um comércio no bairro, mas com o mesmo sonho de voltar a trabalhar no campo.

Foi quando foi participar de uma ocupação de terras em José de Freitas, que terminou em incêndio criminoso de casas e despejo, e participou de um acampamento Nossa Esperança com a ocupação da fazenda Funil, na zona rural de Teresina, em 2003.

Nesse acampamento ficaram 770 famílias, que se dividiram em outros quatro assentamentos na região.

João Luis Vieira de Sousa falou que os assentados do Nova Esperança decidiram criar galinhas caipiras porque cada família recebeu um empréstimo do crédito apoio de R$ 2,4 mil, o dinheiro era pouco e eles tiveram a ideia de comprar os pintos.

Foram esses pintos que tornaram os sem-terra empreendedores.

?Como o valor era pequeno, nós fizemos um projeto pequeno. Lá não tinha água e não poderíamos fazer irrigação, não tínhamos estrutura, nós tínhamos pasto, mas não tínhamos arame para cercar. Ao nosso ver, não fazia sentido com esse pequeno valor aplicar na compra de gado porque iríamos esperar dois anos para poder vender a carne. A galinha vem mais rápido. Criamos as galinhas e desse criatório de galinhas fizemos um grupo de três famílias?, afirmou João Luis Vieira, lembrando que os assentados fizeram novo empréstimo de R$ 1,5 mil do Pronaf (Programa Nacional de Agricultura Familiar).

Cada família começou com 200 pintos. João Luiz Vieira já cria 600 galinhas, mas alguns chegam a criar até 700 galinhas.

?Os nossos investimentos deram resultado ligeiro?, declarou João Vieira de Sousa, que ganha R$ 1,2 mil por mês apenas com galinhas, além da roça de meio hectare para a subsistência.

?Antes do nosso assentamento, minha vida e dos outros companheiros era degradante. No assentamento nós mudamos do mel para o vinho. Não tínhamos empregos, morávamos na periferia em casas alugadas e estamos agora em casas e terras que são nossas. Tudo é nosso e temos certeza que podemos pagar nossa água, nossa luz e garantindo o estudo de nossos filhos?, falou João Luis.

INCRA TEM 480 ASSENTAMENTOS NO PIAUÍ COM 2,5 MILHÔES DE HECTARES E 3 MIL FAMÍLIAS

O Incra tem no Piauí 480 assentamentos no Piauí com 2,5 milhões de de hectares, com 31 mil famílias espalhadas em 108 municípios.

O Incra gasta em torno de R$ 150 mil para abertura e construção de estradas. Os assentados recebem dois empréstimos, de R$ 3,5 mil cada, para provento; R$ 15 mil para a construção de casas.

Os gastos com infraestrutura ficam em torno de R$ 100 mil para a distribuição de água e de R$ 70 mil a R$ 80 mil para a implantação do sistema de fornecimento de energia rural.

ASSENTADO COMPRA SUA PAMPA PARA FAZER TRANSPORTE DE RAÇÂO E VIAGENS PARA A FAMÍLIA

O assentado João de Sousa demonstra bem como está o negócio da criação de galinhas caipiras pode ser rentável. Em uma latada atrás de sua casa no assentamento Vale da Esperança está guarda uma Pampa, que comprou por R$ 3,370 mil com os lucros da venda das aves.

?Ele gastou uns R$ 7 mil já que para comprar mais peças pagou mais de R$ 3 mil?, diz seu filho, o também Tadeu Vieira, de 30 anos.

No assentamento a família de João de Sousa voltou a ficar reunida. Até a filha que era caseira em um sítio na Usina Santa, Ana Maria Vieira Sousa, deixou o emprego, onde ganha um salário mínimo, para morar no assentamento e criar galinhas.

?Viver aqui é muto tranquilo e estamos trabalhando no que é nosso, é como a gente tivesse conquistado a liberdade, trabalhar para a gente e melhorar de vida?, falou Ana Maria, que cria 450 galinhas.

?As oportunidades no assentamento são muitas porque a gente está trabalhando para o nosso crescimento, nossa melhoria de vida e não para os outros, para um empregador?, declarou Tadeu Vieira.

ADOLESCENTE ASSENTADO QUER FAZER VESTIBULAR PARA ADIMINISTRAÇÃO DE EMPRESA

Os jovens Wilson Vieira de Sousa, de 16 anos, estudante do 8º ano do ensino fundamental, e Radamés Soares de Sousa, de 17 anos, estudante do segundo ano do ensino médio, cuidam pela manhã das galinhas de um tio no assentamento Vale da Esperança durante a manhã.

Durante a tarde, os dois vão estudar na Unidade Escolar Artur Medeiros, no bairro Jardim Europa, na zona Sudeste de Teresina.

?O nosso trabalho não atrapalha nossos estudos. E quando estamos aqui no assentamento trabalhando estamos livres da marginalidade?, falou Radamés Soares, que prestar, no próximo ano, vestibular para Administração de Empresas.

?Acho que tenho vocação para administração de empresas. Quem sabe aprender a administrar a minha própria granja? , disse Radamés Soares.


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FOTOS: HÉLVIO MENESES

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