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Texto enviado por Monteiro Júnior sobre as relações

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TEXTO DE FIM DE MÊS

Texto enviado por Monteiro Júnior

A palavra, num gesto de autopiedade e comiseração, disse para a vírgula: ?Não me barre, não interrompa meu fluxo?. A vírgula, obviamente, não entendeu o que a palavra estava dizendo, afinal estava ali para ajudá-la, para dá-lhe um sentido dentro do ritmo da frase, essa a razão pela qual existiam. ?Não brinque comigo, vírgula?, retorquiu a palavra. ?Você sabe o que estou falando?. ?Não sei, não?, foi o que respondeu a vírgula.

Então, como acontece nas melhores sentenças escritas, começaram a discutir a relação, se é que se pode chamar assim o encontro da palavra com a vírgula. A primeira demonstrava insatisfação, estava triste, sentia-se mal compreendida pela companheira, que, por sua vez, pareceu admirada com a tristeza da palavra e, sinceramente, não sabia o que fazer. A vírgula, apesar de ser vírgula, e quem sabe por isso, era muito independente e cheia de vontade, sabia exatamente o que queria ou não, ao passo que a palavra, por motivos os quais só ela e o seu escritor sabiam, era insegura e dependente da vírgula.

Deu-se uma daquelas narrações longas, cheias de reticências e raciocínios que se atropelavam e constantemente eram interrompidos, gesto ao qual a palavra culpava a vírgula. Esta permanecia na posição defensiva, alegando fazer tudo o que podia para agradar aquela. Chegara ao ponto de só se encostar nela e em mais nenhuma outra. ?Mas não é assim que deve ser??, argumentou a palavra, obsessiva.

A vírgula se impacientou com a infantilidade da palavra e começou a ser grosseira com ela, apontando-lhe seus defeitos e dizendo que o problema não era ela, a vírgula, ser independente demais, e sim que ela, a palavra, era dependente demais e ela, a vírgula, não pediu por isso, e que se ela, a palavra, estava insatisfeita, que fosse procurar outra vírgula. Nesse elas por elas, a palavra não segurou sua onda ? ela nunca segurava mesmo ? e desatou a chorar. ?Pare com isso?, pediu a vírgula. ?Você não precisa disso para que eu fique como você?.

A palavra tentava engolir o choro, mas não conseguia. Enquanto a vírgula sabia que o que precisavam era de um ponto final àquela dissertação. Só que para a palavra, aquilo não era uma mera dissertação. Eram seus sentimentos, sua paixão à vírgula, que lhe era a coisa mais cara do papel. A palavra havia se entregado demais à frase, à sua função com a vírgula, e de repente essa função com a vírgula passara a abrigar o sentido de sua escrita. A vírgula, cautelosa após outras palavras a decepcionarem, manteve sua individualidade, tão bem que às vezes exagerava na dose, o que causava todo o sofrimento da palavra. ?Culpe o escritor, mas eu não sei o que fazer?.

Na verdade, nenhuma das duas sabia o que fazer. Interromper a frase? Deixar que o escritor se virasse para resolver aquela crise? Tentar um ponto-e-vírgula ou uma longa reticência para ver o que acontece? A vírgula parecia mais aberta à ideia de deixar o parágrafo, e por tabela o texto, sem final ? ou com um fim abrupto, sem um clímax satisfatório ?, enquanto a palavra, por ter se jogado demais na sua função com a vírgula, não imaginava a escrita sem a companheira, preferindo pedir ao escritor que a apagasse do que seguir sendo uma palavra sem sua vírgula. ?Por que você não muda??

?O que você me pede é impossível?, disse a vírgula. ?Não podemos mudar o que somos?. A palavra ficou ainda mais triste e angustiada. Queria acreditar na função da vírgula para consigo, mas só conseguia ver que ela não estava disposta a muita coisa para ficarem juntas. A vírgula, por sua vez, gostava muito da palavra, muito mesmo, porém precisava se manter firme no que achava certo, e por mais que a função dela para com a palavra fosse algo lindo e único e a frase a qual pertenciam valesse toda a pena, não ia abrir mão de sua individualidade por causa da insegurança da palavra. ?Você realmente dá valor à nossa função??

O que a palavra no fundo queria era sentir-se bem com a vírgula, sentir que estava de fato com ela e não sozinha, como sentia às vezes (mais do que ela desejava), e que a companheira entendesse a importância da função das duas e que baixasse um pouco a guarda para a plenitude da frase. Por outro lado, não conseguia crer numa escrita sem a vírgula e, assim, resolveu se calar e aceitar o doloroso ponto final daquela ?dissertação?. A vírgula também se calou e ficou pensativa. Não queria ser a insensível, mas terminava sendo em razão de sua construção pessoal enquanto aquela determinada vírgula. O papel não aceita grafismos fracos ? eles desaparecem mais rápidos ? e ela queria ser forte, pois sofrera muito para isso. Também não queria magoar a palavra e nem deixá-la, nunca quis. Acreditava na função das duas, apesar da palavra achar que não. A vírgula chorou por dentro e pediu conselhos para o escritor, que permaneceu calado.

?Não podemos mais ficar juntas?, concluiu a vírgula com certa frieza. ?Não acredito mais que devo ficar ao seu lado?. A palavra esvaiu-se em desespero: ?Nunca pensei que fosse ouvir isso de você?. ?Não acredito mais na gente?, a vírgula parecia tão convicta no que estava dizendo que a palavra não a reconhecia mais: ?Não seja cruel, por favor?. ?Não consigo mentir pra você. Eu também estou sofrendo muito?. ?Não faça isso! Faço o que você quiser!?, a palavra já não tinha mais ego em que se apoiar, havia perdido toda a sua individualidade por causa de sua função com a vírgula. ?Podemos superar isso. Já passamos por muitas coisas juntas?. ?Não sei mais como fazer você feliz! Não dá mais! Eu não quero mais isso pra mim!?

Nesse instante, a palavra, despedaçada, olhou para a vírgula e viu, como quem ver um fantasma e não quer acreditar, que não havia mais sentimento da vírgula por ela e pela função das duas. Ou se havia, não era mais o suficiente para que a companheira optasse por lutar ao seu lado para superar aquela crise. ?O que eu faço agora?? ?Isso vai passar, eu prometo?, disse a vírgula, sem conseguir olhar para a palavra e com o coração doendo. Para a palavra, era tudo confuso e desesperador. Para a vírgula, um triste fim para algo que começou tão lindo e com tantas chances de dar certo. Fizera tudo o que podia, no entanto há coisas das quais não se deve abrir mão. A insegurança da palavra sempre seria razão de sofrimento para as duas, e ela não se sentia mais disposta a lidar com isso.

A palavra e a vírgula não chegaram a um consenso naquela dissertação. Uma queria continuar tentando, enquanto a outra assumia sua impotência diante da situação na qual a frase se encontrava. Mal sabiam elas que estavam atrapalhando a continuidade do parágrafo, e por tabela do texto, que outras palavras e outras vírgulas também queriam acontecer e terem ou não suas crises para que o texto pudesse chegar a algum lugar ou ser abandonado de vez pelo escritor. E se formos pensar que aquele era apenas um texto de fim de mês, a importância macro-cósmica da situação da palavra e da vírgula não passava de um insignificante grifo comum às relações entre vírgulas e palavras e que existe desde que a função das duas rodeia a morfossintaxe de um texto grafado no papel. Sendo assim, por que há sempre tanto sofrimento? Uma questão que nem a palavra, nem a vírgula e muito menos o escritor sabiam a resposta. Os motivos pelas quais as coisas acontecem não cabem aos caracteres apaixonados.

Teresina, 1 de maio de 2008

Monteiro Júnior

Escritor, cineasta, formado em Psicologia e graduando em Jornalismo, escreve cíticas de cinema há 11 anos para jornais impressos e internet. Este blog pretende ser uma espécie de arquivo de suas produções textuais tanto na sétima arte quanto nas quais tiver a ousadia de arriscar.


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