MANOEL PAULO NUNES FALA SOBRE INCÊNDIOS EM TERESINA  DOS ANOS 40

MANOEL PAULO NUNES FALA SOBRE INCÊNDIOS EM TERESINA DOS ANOS 40

MANOEL PAULO NUNES FALA SOBRE INCÊNDIOS EM TERESINA DOS ANOS 40

Por: Manoel Paulo Nunes *

1 - LEÔNIDAS MELO

* ?Nós vamos falar de uma época em que eu era adolescente, mas já me interessava em participar dos acontecimentos, principalmente dos acontecimentos políticos, porque a minha geração foi uma geração bastante preocupada com o problema político. Vivíamos o final da ditadura de Getúlio (Vargas), 1942, 1943, e doutor Leônidas (Melo), apesar de ser uma pessoa de conduta irretocável, ele era um homem de vida privada e de vida pública sem defeitos, era um homem correto, de vida limpa, mas numa ditadura tudo pode ocorrer.?

* ?No próprio governo dele houve um ato pelo qual quase ele vai destituído da função, que foi a aposentadoria dos desembargadores Simplício de Souza Mendes, Arimathéa Tito e Esmaragdo de Freitas, depois eleito senador. Então, neste período de ditadura, tudo era possível ocorrer. Ele (Leônidas) trouxe para cá um oficial chamado Evilásio Vilanova a quem deu carta branca para fazer a estruturação dos serviços de segurança, não só da Polícia Civil, como também da Polícia Militar, que era chamada de ?Força Policial?. Ele reformou o Quartel do Comando Geral de modo a alterar a planta primitiva do prédio, deixando a fachada desigual. A Polícia Civil ele instalou onde atualmente funciona a Secretaria de Segurança do Estado. Ao lado disso, Evilásio era uma pessoa de formação fascista. Isto o harmonizava com o clima de ditadura em que se vivia.?

2 - CULPA DE EVILÁSIO VILANOVA

* ?Eu acredito, tenho a convicção, sobre os incêndios, de que o autor dessa ignomínia foi o chefe de polícia Evilásio Vilanova. Ele era uma figura sinistra, era um homem perverso, foi comprovado em vários inquéritos, que adotou práticas de atrocidade contra a população de Teresina, principalmente os pobres, que eram duramente castigados para apontar a falsa autoria dos incêndios. Tenho a certeza plena de que ele (Vilanova) foi o autor destes incêndios, apesar de que ele se defendia acusando outra pessoa.?

* ?Vilanova residia em Brasília quando eu ali morava também. Através de um meu parente que era delegado da Polícia Federal e que também se dava com ele, soube que ele atribuía esse fato ao senador José Cândido Ferraz. Era uma forma de defender-se de uma acusação grave que houve contra ele. Mas o que há de mais estranho é que depois da saída de Vilanova os incêndios continuaram, durante a interventoria de Vitorino Corrêa e Dario Coêlho. Paira um certo mistério em relação a esse fato, da continuidade dos incêndios.?

* ?Houve acusações a várias outras pessoas que foram envolvidas no processo, como o posteriormente senador José Cândido Ferraz, que adquiriu uma grande popularidade nessa fase. Foi ele quem fez as primeiras denúncias sobre o fato.?

* "Essa convicção se formou pela fama que detinha o comandante de ser uma pessoa autoritária e pelo que depois se apurou nos inquéritos que foram feitos. Houve atrocidades que chegaram ao ponto de inutilizar pessoas. Luiz Enfermeiro, por exemplo, que foi espancado barbaramente para confessar o que a polícia queria, a ponto de ser mutilado. Minha convicção formou-se daí. Este fato contribuiu para impopularizar tremendamente o governo Lêonidas Melo. Impopularizando Leônidas, Vilanova esperava assumir o poder. Era coronel do Exército, naturalmente tinha suas relações na área federal. Isso é o que muita gente supõe, não apenas eu."

* "Em seu livro "Trechos do Meu Caminho", doutor Leônidas fala sobre praticamente tudo o que aconteceu no período, primeiro como governador constitucional, eleito pela Assembléia, depois como interventor federal, indicado pelo presidente Vargas. Ele, entretanto, superficializa a abordagem da questão dos incêndios. Não apenas isso. Ele superficializa muita coisa neste livro. Falo do doutor Leônidas com muita simpatia, porque ele foi médico da minha família, inclusive foi médico da minha mãe. Minha família residia em Regeneração. Na época, minha mãe tinha tuberculose e era assistida por um grande médico de Amarante, doutor Francisco Ayres, que era compadre de meu pai. Então, meu pai a trouxe para Teresina a fim de ouvir a palavra do doutor Leônidas, nascendo daí um relacionamento extremamente saudável. Meu pai foi eleito prefeito constitucional, apoiando o governo Landri Sales, e quando veio o golpe de Estado de 37 foi designado prefeito de Regeneração. Então, havia uma afinidade muito grande entre eles. Do ponto de vista de honestidade e manuseio do dinheiro público, doutor Leônidas foi irrepreensível. Não há uma acusação de desonestidade no governo dele."

3 ? A CONSTRUÇÃO DO ARQUIVO PÚBLICO

* "Leônidas fez uma coisa interantíssima em relação ao Arquivo Público do Estado, apenas para citar um exemplo. Os serviços de saúde na época eram muito precários. O atendimento era feito pela Santa Casa de Misericórdia, um casarão sem nenhum recurso para atender as demandas. Ele construiu um hospital moderno, um dos mais modernos do país à época, o "Getúlio Vargas". Agora é que foi alterado, sucessivamente, completamente desfigurado, e hoje é uma casa quase que inadministrável. Pois bem... o governo construiu e houve uma sobra de material muito grande. Não havia o edifício do Arquivo Público, construído logo depois da construção do Hospital. O interventor perguntou ao doutor Cícero Ferraz de Sousa Martins, que era engenheiro e construtor do HGV, figura humana singularíssima, gostava de Mozart, de Bethoven, do escritor Marcel Proust, autor de "Em busca do tempo perdido", um dos maiores romances de todos os tempos. Uma figura muito honesta. Então, Leônidas perguntou a ele: "doutor Cícero, e esse material aí, daria pra construir o Arquivo Público e a Biblioteca da cidade, porque eu tenho o terreno mas não tenho recursos". A biblioteca e o arquivo eram acomodados em prédios particulares alugados ao governo. Cícero Ferraz respondeu: "dá, com um pequeno aumento de material, dá para construir". E com essa sobra foi construído o Arquivo Público, a Biblioteca (hoje está na antiga Faculdade de Direito) e o Museu Histórico (hoje no antigo Palácio da Justiça)."

* "Ele cometeu erros políticos terríveis, como a aposentadoria compulsória dos desembargadores para garantir a indicação do seu irmão, Eurípedes de Castro Melo. Por conta desse episódio, ele quase foi destituído da Interventoria. Não caiu porque o general Dutra era ministro da Guerra e muito amigo dele. Além disso, podemos mencionar o fato de ter tolerado na Chefia de Polícia o coronel Evilásio. Acredito até que ele tivesse receio de que a saída do Evilásio pudesse complicar a sua vida política. Ele tinha receio de enfrentar Vilanova. Havia indícios fortíssimos da participação do coronel nos incêndios. O Estado Novo era comandado por militares. Getúlio fazia o que os militares queriam."

4 ? TERESINA NOS ANOS 40

* "Era uma cidade pequena, que não tinha os serviços essenciais, ainda com muitas casas de palha, por isso ocorreram os incêndios. Dizem que a preocupação era fazer com que as pessoas construíssem casas de telha. Isso afetou principalmente a população mais pobre. Tanto que Teresina é até hoje, do ponto de vista político, uma cidade oposicionista. Na eleição de 1945, o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da oposição, perdeu em praticamente todo o país e ganhou apenas em três capitais, uma das quais Teresina. Pelo sofrimento imposto na época, a população teresinense passou a nutrir um sentimento de repulsa a todo e qualquer governo, porque o governo sobrevive na memória coletiva como algo ruim, danoso, que impõe sofrimento e morte."

* "A vida era muito simples. A vida social da cidade se fazia em torno das praças Pedro II e Rio Branco e dos cinemas. Em torno dos cines Rex e do Theatro 4 de Setembro, na Pedro II, e do Olympia, na Rio Branco. Havia também um cinema popular, o Royal, pertencente ao Sr. Emílio Ommatti. Os políticos e intelectuais se reuniam em dois cafés: o Bar Carvalho e o Café Avenida, ambos na praça Rio Branco, além do Clube dos Diários, onde se fazia o encontro da melhor sociedade."

* Presidente do Conselho Estadual de Cultura e ex-presidente da Academia Piauiense de Letras

Manoel Paulo Nunes, presidente do Conselho Estadual de Cultura, em depoimento ao jornalista Toni Rodrigues.





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