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A arte pandêmica de Érico Ferry

Artista plástico usa da experiência global da pandemia como mote para exposição

O artista plástico Érico Ferry fez uma série de pinturas a óleo durante a pandemia e agora serão exibidas em exposição semi-presencial. A série “Estudos no Isolamento” apresenta 19 obras elaboradas em pleno período sinistro da pandemia gerada pela covid-19 em 2020. Originalmente com contexto voltado a questões de base social, o trabalho se desdobrou em um mergulho profundo provocado pelo enfrentamento psíquico e emocional derivado do estresse e solidão.

Para Érico, “Estudos de Isolamento” passeiam entre anseios pessoas e psicológicos. “Acho que é uma das coisas que mais tenho dificuldades em definir por se tratar de um trabalho que eu estou sempre redescobrindo e fazendo alterações de acordo com o que o momento pede ou a temática abordada, mas acho que o que mais percebo que define ele é que é um trabalho em que busco retratar a sociedade em que vivemos e como ela nos atinge seja na esfera psicológica e física tanto de maneira geral como pessoal”, conta o artista.

Crédito das fotos: Jocasta Santos.Crédito das fotos: Jocasta Santos.

O trabalho é retrato do próprio dia-a-dia em conflito com a pandemia. “O que mais me influencia é, principalmente, o cotidiano e as coisas que acontecem à nossa volta em nossas rotinas e isso pode ir desde nossos problemas mais humanos até a esfera política e social seja nacional ou global. Eu presencio uma situação ou recebo relatos de quem a presenciou, vejo uma matéria no jornal ou algum assunto retratado em textos de coisas que me chamam a atenção  e isso me leva a tentar expressar na pintura ou na música algo que não tenho habilidades pra descrever só em palavras sobre as temáticas. Acho que esse é um ponto importante, é a melhor maneira que encontrei de me comunicar até hoje.

O artista usa materiais diversos para chegar ao efeito das obras. “Meu material de preferência é a tinta óleo. Mas também utilizo esporadicamente a acrílica, a aquarela e até me utilizo da fotografia vez ou outra. O que me atrai no óleo são as texturas, a luz e o tempo de secagem que me permite voltar ao quadro várias vezes e refazer algo ou mudar completamente. Eu nunca sei exatamente o que a pintura vai exigir de mim até iniciar uma nova tela e acho que trabalho melhor com um espaço de tempo maior entre uma sessão e outra, acho a acrílica uma tinta mais imediata, mais rápida, melhor para trabalhos mais rápidos”, compara.

Érico também é músico, coisa que influencia em seu trabalho como artista plástico. “Tanto a música influencia no meu trabalho visual como meu trabalho visual influencia nas minhas músicas. Geralmente, em determinadas épocas, fico muito absorto e fissurado em um determinado assunto e aquilo tende a ser um estado permanente de vivência para mim por alguns meses ou anos. Isso faz com que as notas que escolho para uma composição soem mais quentes e as cores de uma pintura também se aquele assunto me causa essa sinestesia de tons arenosos, assim como é boa parte dessa série de quadros dos “Estudos de Isolamento’”, acrescenta Érico.

A arte pandêmica de Érico Ferry - Imagem 2

A pandemia, como inspiração, foi a causa do isolamento que frutificou a exposição. “Esse trabalho representa muito para mim o período durante o qual foi desenvolvido, que foi desde o exato momento em que a pandemia foi declarada até pouco tempo atrás. Ele carrega muito das incertezas e das oscilações que passamos e continuamos passando nesse ano. Desde os momentos mais introspectivos e reflexivos do isolamento até a revolta, a serenidade, o calor eo frio. Percebo que essa série se relaciona muito com a passagem do tempo, com os sacrifícios e com o turbilhão de mil coisas diferentes que tem sido 2020. Há muito de terra, mas há muito de ar, de respiração, neste trabalho”, aponta.

Érico é destaque na arte piauiense

Érico Ferry é um artista que vem se destacando na cena artística do Piauí. Após participar de exposições coletivas na Montmartre, galeria que hoje acolhe a exposição “Estudos de Isolamento”, de forma virtual e presencial para os interessados, que devem marcar horário para a visitação, ele traça o próprio voo solo, com todas as atenções voltadas para sua obra.

A arte pandêmica de Érico Ferry - Imagem 3

Gina Castelo Branco, galerista responsável, reforça que Érico possui um trabalho valoroso. “Autodidata, ele desenvolve sua técnica e estilo com experimentações e com as mudanças que vê em sua forma de se expressar ao longo do tempo. Acredita que desconstrução e insatisfação tendem a ser dois processos eternos na vida de um artista. Muito de ser artista é sobre não estar satisfeito por muito tempo com suas visões ou maneiras de se expressar, se renovando sempre”, analisa.

A galerista diz que as obras surpreendem pela diversidade de emoções. “No início do processo de criação, acreditava que o sentimento que predominava e predominaria em todas obras dessa série seriam angústia, tristeza, mas depois percebeu que tudo é muito imprevisível em relação a arte, essa série de pinturas percorreu muitos sentimentos diferentes”, acrescenta.

A arte pandêmica de Érico Ferry - Imagem 4

Como a pandemia criou um sistema de funcionamento caótico em todas as esferas da sociedade, o artista teve que lidar com escassez de materiais ou de variedade. “Acompanhei durante todo o ano o seu processo criativo e como tudo afetou sua produção. Em determinados dias havia uma vontade quase que incontrolável de pintar, passava o dia inteiro nisso, ia da manhã até a noite produzindo sem parar. Em determinados dias havia um sentimento de desesperança muito grande, uma aflição que simplesmente fazia todo o trabalho parecer em vão. Mas durantes muitos meses as pinturas foram acontecendo naturalmente, quando tinham acontecer, fossem pinturas rápidas criadas em poucos minutos até obras que demoraram meses no cavalete”, revela Gina.

A maneira de pintar também mudou muito de um trabalho para o outro. “De trabalhos feitos inteiramente em pincéis de cerdas macias com texturas mais suaves e cores quentes ou terrosas até pinturas de cores frias feitas com pincéis mais rústicos, chegando até à aplicação feita inteiramente com a espátula em algumas obras. No final das contas foi um trabalho bastante sincero e que significa muito para o artista”, considera a galerista.

Arte em sombras

“O que fazer com os olhos ao perder a luz de vista?”, questiona Elsa Elvas, curadora da exposição “Estudos de Isolamento” de Érico Ferry. “O real caos perturbador depara com uma única porta, a brecha que leva e traz a sombra das sensações singulares, reveladora da luz artificial e turva da natureza humana. Os subterfúgios bloqueadores da face sombria afloram e inconscientemente emergem emoções, conflitos individuais e coletivos. Devaneios e ocupações habituais desmedidos perdem o sentido, forçam encarar silêncios, insuficiências, imperfeições e assim dissolvem ‘verdades’”, acrescenta.

A arte pandêmica de Érico Ferry - Imagem 5

Elsa afirma que a exposição é “um conjunto primoroso de pinturas a óleo, com peculiaridades individuais e ao mesmo tempo impregnado por um conteúdo generalizado, ao qual reside o descontrole, a condição finita proeminente da ausência de poder diante de uma gigantesca pressão rotineira e invasiva”, reforça.

A curadora explica que a exposição teve um longo processo artístico. “O processo criativo desenrolou-se durante horas exaustivas, com buscas por recursos técnicos e dedicação afincada em meses. Técnicas diferentes, em tons escuros outrora frios, refletem o inconsciente no ato criativo, contrastam na paleta de cores trazendo luz e vivacidade dentro da confusão nas ideias. Involuntariamente as figuras elementos das peças, imitam a fragilidade, a máscara embutida nas personas construídas pelas facetas psicológicas, formatadas e conceituadas pela realidade vivida”, aponta Elsa Elvas.

A arte pandêmica de Érico Ferry - Imagem 6

A obra, no entanto, tem caráter ilimitado. “Com fluidez crescente, o desdobramento de todo processo se expande em fases, a evolução  das sensações tomam um corpo instigado pelo isolamento e desgaste, desperta a carência da cura pelo autoconhecimento, transmutando a temática onde ora fatídica em algo dinâmico e renovador, sereno e lúcido”, finaliza a curadora.

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