Você sabia que a canela pode ser um importante coadjuvante no controle da diabetes? De acordo com um estudo realizado em Parnaíba, assinado por José Claudio Garcia Lira Neto, doutor em enfermagem pela Universidade Federal do Ceará e ex-interno da Organização Mundial de Saúde (OMS) nos Estados Unidos, 3g de canela por dia tem efeito positivo sobre a glicemia e a resistência à insulina. 

Atualmente José Claudio atua como professor do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí (Ufpi). “Estudo Diabetes há mais de 10 anos, e em 2017, precisava de um projeto para desenvolver no doutorado. Sabendo das dificuldades que os pacientes com diabetes têm no dia a dia, no controle da glicemia, na compra de medicamentos, e na mudança da dieta, queria algo que fosse possível de ser aplicado por aqueles que convivem com a doença. A partir daí, comecei a investigar mais sobre produtos fitoterápicos, pois, muitas vezes, são baratos, de fácil aquisição e eficazes. Dentre os fitoterápicos que encontrei, um me chamou atenção por ter possíveis atividades hipoglicemiantes, todavia não muito exploradas. Esse produto era a canela. Todavia, os estudos que utilizaram a canela na tentativa de controlar os níveis glicêmicos de pacientes com Diabetes tipo 2, não eram claros quanto ao efeito dessa especiaria, recomendando maiores investigações. Diante disso, dei seguimento à pesquisa”, explica. 

Canela é eficaz como coadjuvante. Crédito: Raíssa Morais.Canela é eficaz como coadjuvante. Crédito: Raíssa Morais.

A canela tem apresentado inúmeras propriedades antibacterianas, antifúngicas, antioxidantes e hipoglicemiantes. “Os principais mecanismos para esta ação hipoglicemiante podem ser a devido a redução no tempo de esvaziamento gástrico, inibição das enzimas alfa-glicosidase e alfa-amilase pancreática, redução da gliconeogênese, ativação e potencialização dos receptores de insulina. Ademais, o diabetes, por ser uma conjunto de desordens metabólicas, também sofre influência dos níveis de lipídios no organismo. A canela, por sua vez, também tem apresentado características benéficas para a redução desses marcadores. Logo, esse produto mostrou-se útil para utilização em pessoas com a enfermidade, conforme estudos prévios”, considera José Claudio.

Canela é coadjuvante no tratamento. Crédito: Raíssa Morais.Canela é coadjuvante no tratamento. Crédito: Raíssa Morais.

Por ser um produto natural, a canela deve entrar no grupo dos fitoterápicos, definidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) como aqueles medicamentos obtidos a partir de ativos vegetais. Mas o pesquisador reforça que esse tratamento deve ser coadjuvante. “Apesar de terem efeitos positivos, até o momento, nenhum fitoterápico, incluindo a canela, tem propriedades suficientes para agir no controle dos níveis glicêmicos de pessoas com diabetes, isoladamente. Logo, ainda são necessários outros ensaios clínicos, que considerem outras doses e períodos de intervenção. Portanto, a canela pode ser útil quando associada aos antidiabéticos orais”, acrescenta. 

O estudo 

O ensaio clínico foi realizado na cidade de Parnaíba, litoral do estado do Piauí, cidade natal do pesquisador. Foram recrutados pacientes com Diabetes tipo 2, não insulino-dependentes, em diferentes Unidades Básicas de Saúde do município. “Fizemos uma triagem para incluir aqueles que podiam e tinham interesse em participar da pesquisa, e ao final, contamos com 140 voluntários, com idade entre 18 e 80 anos e há, pelo menos, dois anos com diagnóstico de diabetes, e com dificuldades de controle dos níveis glicêmicos”, contabiliza José Claudio. 

José Cláudio, autor do estudo. Crédito: arquivo pessoal.José Cláudio, autor do estudo. Crédito: arquivo pessoal.

De início, foram levantados diferentes dados sobre características socioeconômicas, clínicas, antropométricas e de estilo de vida, além de exames laboratoriais como glicemia de jejum, hemoglobina glicada, níveis de insulina e colesterol. O estudo aconteceu através da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Após essa etapa, demos início à intervenção, onde metade dos participantes começaram a inserir cápsulas contendo 3g de canela [Cinnamomum verum] ao seu tratamento para diabetes, e a outra metade recebeu cápsulas de placebo. A decisão dos participantes por receber canela ou placebo foi feita de modo aleatório. A intervenção durou três meses, e ao final, repetimos todos os exames realizados antes do início do estudo”, revela 

Consumo da canela como coadjuvante diário 

Em relação à dose, a quantidade de 3g por dia do produto são suficientes e eficazes para diminuir a glicemia e hemoglobina glicada. “Essa canela não deve ter adição de açúcar ou fubá de milho, ou qualquer outro composto que sirva para adoçar. No dia-a-dia, o paciente com ou sem diabetes pode utilizá-la em bebidas, vitaminas, sucos, chás, cafés, chocolates, cappuccinos, canjicas, arroz doce, aves, etc.”, recomenda José Claudio. 

Canela pode ser consumida em pratos doces e salgados. Crédito: Raíssa Morais.Canela pode ser consumida em pratos doces e salgados. Crédito: Raíssa Morais.

Os resultados foram positivos. “Os pacientes que tomaram a canela, de modo adjuvante aos antidiabéticos orais prescritos pelos médicos, tiveram redução significativa nas faixas de glicemia de jejum, hemoglobina glicada, e reduziram o índice de resistência insulínica. Esse grupo também conseguiu reduzir o peso e o índice de massa corpórea. Acreditamos que, a longo prazo, os pacientes possam ter um melhor gerenciamento dos níveis glicêmicos. Faz-se importante ressaltar que, estamos oferecendo apenas uma possibilidade para que o paciente com diabetes tipo 2 possa utilizar no seu regime terapêutico. Igualmente, reforçamos as orientações de que a adição de canela não trará, isoladamente, a garantia de bons resultados ao tratamento do diabetes e, portanto, é preciso que o paciente faça uso das medicações e mantenha um estilo de vida saudável, com auxílio de uma equipe multidisciplinar”, descreve o doutor em enfermagem.

O estudo foi desenvolvido em Parnaíba. Crédito: Raíssa Morais.O estudo foi desenvolvido em Parnaíba. Crédito: Raíssa Morais.

O estudo do professor universitário é inédito no Brasil. “Um país como o nosso possui uma múltipla diversidade de cultura, hábitos de vida, alimentação, entre outras coisas, que impactam nos resultados. Além disso, também utilizamos um tamanho de amostra maior que a média de outras pesquisas. Também, não controlamos os hábitos de vida dos pacientes investigados e pudemos garantir uma eficácia prevista pelos resultados, muito embora outras investigações sejam necessárias. Ademais, após essa etapa, seguimos com a análise de custo-efetividade, com a possibilidade de indicar essa terapêutica ao Sistema Único de Saúde para ser ofertado de modo gratuito na Rede de Atenção à Saúde brasileira. Os próximos passos são dar continuidade às investigações de produtos naturais possíveis para serem inseridos no cotidiano dos pacientes com diabetes, bem como, ampliar os ensaios a outras regiões do país”, atesta. 

Hipertensos devem ficar atentos ao consumo da canela 

A nutricionista Larisse Coutinho, que recentemente ficou sabendo do estudo de José Claudio, afirma que esse é um avanço importante para a ciência. Ela recomenda o uso da canela pura e sem aquecer. “Não aquecer a canela é uma recomendação importante, pois os óleos essenciais presentes no pó ou nos talos são extremamente voláteis e perdem a potência após altas temperaturas”, explica. 

Larisse Coutinho, nutricionista clínica. Crédito: divulgação.Larisse Coutinho, nutricionista clínica. Crédito: divulgação.

Antes de consumir a canela todos os dias também é necessário observar se o paciente possui outras doenças, como a hipertensão. Neste caso é necessário o acompanhamento profissional. “Sabemos do potencial termogênico deste condimento tão apreciado na culinária, promovendo uma aceleração do metabolismo. Os hipertensos, por exemplo, não devem exagerar no consumo. Neste caso, o consumo da canela deve ser moderado, pois o efeito pode refletir na pressão arterial. Por isso não tome canela manipulada sem orientação de um profissional da saúde”, finaliza.