A morte do cineasta Breno Silveira, que sofreu um infarto fulminante após se recuperar da Covid-19, trouxe a pauta de volta aos holofotes. Seria o coronavírus o responsável por aumentar o número de doenças cardiológicas? De acordo com especialistas, existe, sim, uma relação entre os dois problemas.

A verdade é que a Covid-19 afeta a saúde do coração de uma forma bastante ampla. Problemas cardiovasculares podem surgir em decorrência da infecção, e os maus hábitos cultivados durante o período de isolamento também contribuem para esse contexto.

Covid pode provocar problemas cardíacos. Crédito: Pexels.Covid pode provocar problemas cardíacos. Crédito: Pexels.

De acordo com um estudo divulgado, o Avaliação Pré-participação Cardiológica após a Covid-19: Orientações para Retorno à Prática de Exercícios Físicos e Esportes, as lesões cardíacas comprometeram de 20 a 30% dos pacientes hospitalizados e foram a causa para 40% das mortes. A lesão miocárdica, por exemplo, compreende 20% dos casos. Em seguida vem a arritmia, com 16%, além da miocardite (10%), insuficiência cardíaca congestiva (ICC) e choque (até 5%).

O retorno pós-Covid termina debilitando o indivíduo. O personal trainer João Paulo Oliveira, por exemplo, afirma que demorou um pouquinho para retornar ao rendimento de antes. "Quando eu peguei Covid, perdi rendimento. Nas primeiras semanas de recuperação eu senti o baque da doença, até que voltei ao normal", revela.

João Paulo orienta procurar um profissional. Crédito: divulgação.João Paulo orienta procurar um profissional. Crédito: divulgação.O profissional da educação física orienta que os alunos fiquem atentos a possíveis sequelas. "Se a perda de rendimento protelou depois da fase inicial pós-treinamento, o ideal é buscar um profissional especializado, como um médico cardiologoista", acrescenta.

Coronavírus lesiona tecidos do coração, engrossa o sangue e provoca arritmias 

Paulo Márcio Nunes é médico cardiologista, professor da Universidade Federal do Piauí (Ufpi) e superintendente do Hospital Universitário (HU-UFPI). O profissional é enfático ao afirmar que existe uma relação íntima entre doenças cardíacas e a Covid-19, provocada pelo novo coronavírus e demais variantes.

O cardiologista explica que a doença está comprovadamente relacionada a problemas circulatórios. "Já se sabe que a Covid aumentou em três vezes o número de infarto do coração e derrame cerebral. O acometimento do coração pelo coronavírus é bem conhecido pela medicina. São três mecanismos que justificam isso. A primeira determinação ocorre pelo efeito direto do vírus no músculo cardíaco, provocando uma miocardite, uma irritação no músculo do coração. Isso pode ser leve, moderado e fatal. Pode haver uma simples dor no peito, até cansaço e insuficiência cardíaca", explica.

Além disso, existem fatores que podem aumentar as chances de problemas de saúde mais graves. "O vírus também aumenta a coagulação do sangue. Ele engrossa o sangue da pessoa. A hipercoagulação leva a coágulos que podem causar trombose nas veias, além das veias do pulmão, a chamada embolia pulmonar. Pode ser no coração ou no cérebro também. Outra forma é quando o vírus acomete o sistema de condução do coração, a parte elétrica, determinando arritmias, que podem ser benignas ou malignas", analisa Paulo Márcio Nunes.

Dr. Paulo Márcio, médico cardiologista. Crédito: divulgação.Dr. Paulo Márcio, médico cardiologista. Crédito: divulgação.

A falta de acesso a médicos especialistas durante o período de isolamento foi determinante. "Além disso, a pandemia levou pessoas com pressão alta e arritmia, por exemplo, levou os pacientes a ficarem em casa, sem determinado acompanhamento médico em período de lockdown. O sedentarismo aumentou. Muita gente ganhou peso, desenvolveu ansiedade. O próprio tabagismo e bebida aumentou, além do stress. Esses maus hábitos também são determinantes", aponta.

Pegou Covid? Previna-se da morte súbita!

A pandemia levou as pessoas a justificarem maus hábitos. Dados do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) mostram isso com relação aos índices de obesidade, que chegou a 20,3% dos adultos das capitais do Brasil.

O médico Paulo Márcio defende que o paciente com Covid pode se prevenir de doenças cardíacas e da chamada morte súbita. "O tratamento correto de uma virose é o ideal. Hidratação, alimentação saudável, repouso e não se expor a doenças oportunistas como uma pneumonia. Se a doença levar a um caso de inflamação, a medicação correta. Assim é possível reduzir a morbidade e mortalidade da doença", considera.

O paciente com Covid bem tratado, bem acompanhado, morre muito menos de complicações cardíacas ou de outra natureza. "A associação da Covid-19 com morte súbita está bem reconhecida. As duas doenças associadas são o tromboembolismo pulmonar, arritmia cardíaca e infarto", finaliza.