Você sabe o que é manterrupting? O termo em inglês quer dizer “homens que interrompem". Esta conduta bem presente no cotidiano pode ser observada em diversos âmbitos da sociedade. Na política ela parece mais aparente. 

O mundo acompanhou Hillary Clinton (Democratas) ser a interrompida 51 vezes em debate com Donald Trump (Republicanos) nas eleições de 2016. No Brasil não foi diferente quando Manuela Dávila (Pc do B) foi a campeã de interrupções em rodadas de entrevistas para canais nacionais. 

Este tipo de comportamento comum aos homens foi objeto de um estudo realizado pela Universidade de George Washington (EUA), liderado por Adrienne B. Hancock, pesquisadora de comunicação e gênero. O resultado é que elas são duplamente mais interrompidas em conversas que os homens. 

O levantamento contou com 40 pessoas, sendo 20 homens e 20 mulheres, com diálogos estimulados. As voluntárias foram interrompidas 2,1 vezes mais que os voluntários. Um exemplo claro de que o que o tal “manterrupting” permanece como um fantasma dos efeitos do machismo. 

Neste Dia Internacional da Mulher, a socióloga Marcela Castro explica que o ato de impedir que uma mulher conclua um raciocínio é um comportamento ainda comum. “Está relacionado a interrupção da fala de uma mulher por um homem, ou seja, quando uma mulher é interrompida por um homem e não consegue terminar sua fala. Essa interrupção pode acontecer de forma sutil ou não. É uma forma de calar a voz da mulher, mesmo em um assunto em que ela domina”, explica. 

A socióloga Marcela Castro. Crédito das fotos: Raíssa Morais.A socióloga Marcela Castro. Crédito das fotos: Raíssa Morais.

A prática, Infelizmente, ainda é comum. “Não acontece com todos os homens, mas é perceptível em muitas práticas masculinas. Isso pode acontecer em qualquer espaço, em casa, na mesa de um bar, nas reuniões de trabalho, nos partidos políticos e em diferentes espaços de poder”, analisa a socióloga estudiosa sobre as questões de gênero. 

A conduta é naturalizada porque demonstra a dominação masculina. “É pouco comum as mulheres ocuparem cargos de liderança, ainda somos vistas como subordinadas, que devemos falar menos, principalmente no espaço público e de poderes, mesmo como todos os avanços conquistados por nós. O machismo ainda é muito forte. Isso também faz com que algumas mulheres vejam outras mulheres inferiores aos homens”, aponta. 

O manterrupting evita o progresso da sociedade. “Isso pode impedir o crescimento de uma empresa, pois pode haver uma mulher especialista em uma área de atuação e não ser ouvida, não ter espaço e ser desvalorizada. Assim, dando uma maior atenção aos homens que ocupam cargos de destaque e liderança, provocando uma desigualdade de gênero no âmbito do trabalho. Portanto, homens e mulheres precisam ser ouvidos, pois a empresa ganha com isso e a sociedade também”, considera. 

Não explique o óbvio para as mulheres 

Tratar as mulheres como pessoas menos inteligentes é outro comportamento machista incutido entre os homens. Este é o chamado mansplaining.

Dia Internacional da Mulher: que tal deixar elas falarem? - Imagem 2 

O mansplaining acontece quando um homem passa a explicar algo a uma mulher desmerecendo seu conhecimento sobre algo e passa a vê-la como inferior e intelectualmente incapaz. “Há homens que passam a explicar algo óbvio para uma mulher, muitas vezes sem nenhuma necessidade, tirando sua autoridade sobre algo”, analisa Marcela. 

Esta é uma situação que pode acontecer em casa e no trabalho, por exemplo. “Primeiro é importante a mulher perceber o que está acontecendo. Isso não deve ser confundido com toda e qualquer explicação de um homem a uma mulher. A prática do mansplaining tem um sentido, sua intencionalidade é clara. Uma das dicas que a mulher pode responder é a seguinte: você está explicando novamente o que eu já sei? Você está explicando a terceira vez o mesmo assunto? É importante dar aquele chega para lá. A mulher não deve sentir-se inferior”, completa a socióloga.

Gaslighting: violência emocional 

O gaslighting é uma forma de violência emocional onde muitos homens passam a duvidar das ações das mulheres, que podem estar associadas aos seus discursos, sentimentos, relações conjugais e sua percepção de mundo. “Isso é tão forte que faz com que algumas mulheres passem a duvidar de si mesmas. É uma manipulação psicológica bastante agressiva. Isso pode acontecer com homens e mulheres, mas é culturalmente comum afetar as mulheres”, explica Marcela Castro.

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Este tipo de comportamento tóxico pode ocorrer dentro e fora de relacionamentos. “Nos relacionamentos afetivos ela é bem forte, uma das frases mais comuns são: ‘você é louca? Deve estar na TPM’. ‘Você é uma desequilibrada’. ‘Você estar com paranoia! Você não aceita brincadeiras’. Isso também pode acontecer nos espaços públicos, caso de personalidade políticas, que são ofendidas e desacreditadas em meios midiáticos, não pelo o que fizeram ou deixam de fazer, mas por não serem aceitas no cargo de poder que ocupam”, exemplifica.

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Algumas recomendações são importantes para mulheres que vivem nesta situação. “Quando a mulher perceber que estar numa relação tóxica e ou abusiva é necessário procurar um profissional de saúde, um/a psicólogo/a, por exemplo. O profissional deve fazer os encaminhamentos necessários. Porque esse tipo de situação mexe com as emoções dos indivíduos”, finaliza.