Um fantasma vergonhoso, que remete a países subdesenvolvidos com condições limitadas de recursos naturais, volta a assombrar o Brasil: a fome. Em 2018 o país voltou ao Mapa da Fome, em um retrocesso incabível ao contexto do país. Após o desmantelamento do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), em 2019, foi ladeira abaixo. O resultado é que hoje existem 33 milhões de brasileiros que não sabem o que vão comer na próxima refeição.

Uma situação preocupante e inacreditável ao lembrar da geografia brasileira, onde existe um extenso território. Onde, como bem disse Pero Vaz de Caminha na carta portuguesa que remete ao descobrimento: "nesta terra, em se plantando, tudo dá". No entanto, o que se dá não está chegando como deveria na mesa dos mais pobres.

Muitos brasileiros não sabem o que irão comer - AdobestoskMuitos brasileiros não sabem o que irão comer - Adobestosk

Famintos

É o que aponta o relatório do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, publicado no dia 8 de junho. São 14 milhões de famintos a mais do que o número registrado em 2020. Este é o pior cenário enfrentado pelo Brasil no século XXI.

Para se ter noção, entre 2003 e 2004, o Brasil nunca tinha atingido um contingente semelhante. Ao todo, são 125 milhões de brasileiros com algum grau de insegurança alimentar, sendo 59 milhões em um grau leve e 33 milhões que de fato passam fome todos os dias.

Quatro a cada dez famílias brasileiras têm acesso pleno à alimentação. Literalmente, é um privilégio comer bem no Brasil. A pesquisa, conduzida pela Rede Penssan, de pesquisadores da área de Segurança Alimentar Nutricional (SAN), foi executada pelo Instituto Vox Populi e ouviu 12 mil famílias de 577 municípios entre novembro de 2021 e abril de 2022.

Muitas famílias não tem acesso a alimentação - Lucrécio ArraesMuitas famílias não tem acesso a alimentação - Lucrécio Arraes

Banco de Alimentos distribuiu 987 toneladas de hortifruti

Algumas iniciativas trabalham na contramão do cenário de insegurança alimentar que acomete até 60% das famílias brasileiras. Reconhecimento como o melhor projeto de PPP do mundo pela Organização das Nações Unidas, a Nova Ceasa, administrada com regulação do Governo do Estado do Piauí através da Superintendência de Parcerias e Concessões (Suparc-PI), possui um Banco de Alimentos que já distribuiu mais de 987 toneladas de comida.

O alimento que sobrava da feira, que era depositado em grandes tonéis de lixo, hoje passa por um processo de beneficiamento e é distribuído para 23 entidades, que recebem, semanalmente, um reforço na alimentação com frutas, legumes, verduras e hortaliças que chegam da feira.

São doadas cerca de vinte toneladas - Lucrécio ArraesSão doadas cerca de vinte toneladas - Lucrécio Arraes

Doação

Jorgenei Moraes, gerente de projetos sociais da Nova Ceasa, é uma média de até 20 toneladas doadas todos os meses. 

"Estamos fazendo um circuito de rodas de conversas para mostrar esse projeto para a sociedade, além de explicar a importância da sociedade fazer parte. O Governo Federal extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e isso foi muito grave, queremos refundá-lo", aponta.

O Banco de Alimentos atende cerca de 16 mil pessoas das instituições beneficiadas. "Funciona como um local de reserva de alimentos de distribuição imediata. Além disso, é um centro de empoderamento para as comunidades saberem que é um projeto muito abrangente", revela Jorgenei.

Jorgenei Moraes fala em  uma média de até 20 toneladas doadas todos os meses - Lucrécio ArraesJorgenei Moraes fala em  uma média de até 20 toneladas doadas todos os meses - Lucrécio Arraes

Banco de Alimentos

Para o gerente de projetos sociais da Nova Ceasa, a maior importância do Banco de Alimentos é criar uma sensibilização comunitária. 

"É preciso de um desejo coletivo para observarmos a insegurança alimentar no nosso Piauí e Brasil. É triste perceber que as pessoas estão passando fome e não sabem o que vão almoçar. É uma situação que vem muito do desemprego", considera.

CUFA distribui 35 mil toneladas de alimentos no Piauí

A Central Única das Favelas (CUFA) é outra instituição que caminha na contramão da fome no Brasil. Somente no Piauí foram distribuídas mais de 35 mil toneladas de alimentos.

Para Gil BV, coordenador da CUFA, a conta da pesquisa da Rede Penssam mostra o retrato de um Brasil de favelados famintos.

Ação da Cufa tem ajudado muitas familias - Raissa MoresAção da Cufa tem ajudado muitas familias - Raissa Mores

 "Desses 33 milhões que passam fome no Brasil, acreditamos que a grande maioria está nas favelas brasileiras. Nos becos e comunidades, vivendo subempregos ou empregos nenhum. São situações onde não existe educação e transporte. O resultado é a vulnerabilidade alimentar", revela.

A pandemia agravou a situação da pobreza.

 "Se a favela fosse um prato de comida, a pandemia seria a pimenta. Ela veio para deixar a situação mais 'braba' no aspecto econômico e financeiro. Acabaram as possibilidades de fazer 'bico'. O barbeiro, o rapaz que capina, a manicure, ficaram sem trabalhar. Essas pessoas ficaram sem uma gota de alimento", acrescenta Gil BV.

Gil BV  diz que empresários de supermercado atacadistas podem ajudar - Raíssa MoraesGil BV  diz que empresários de supermercado atacadistas podem ajudar - Raíssa MoraesCombate a fome 

A Cufa fez um trabalho relevante de combate à fome. "O Mães da Favela fortaleceu as comunidades, principalmente as mães solteiras. Fomentamos a questão da fome, financeiro e empreendedorismo. Distribuímos cestas básicas, cartelas de ovos e kits de alimentação. Já entregamos 35 mil toneladas em várias cidades, amenizando a fome", lembra o coordenador.

É preciso criar uma rede de pessoas que possam ajudar. "Os empresários de supermercado atacadistas podem ajudar. Eles podem entrar em contato com a gente através das redes sociais para nos ajudar. Estamos voltando a fortalecer a campanha", finaliza Gil BV.