Você sabe o que é intolerância política? Na prática, e em extremos, o caso do assassinato do guarda municipal Marcelo Arruda foi um triste exemplo das consequências de uma conduta fomentada pelo ódio e o fanatismo. Comemorando o aniversário com o tema do Partido dos Trabalhadores (PT), Marcelo foi executado a tiros pelo bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranho, agente penitenciário federal.

De acordo com Vitor Sandes, professor do curso de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a intolerância política é o processo que leva a não aceitação da preferência, das posições e de atitudes diferentes, ou seja, não reconhecer e respeitar aqueles que pensam e possuem diferentes visões de mundo.

VVitor Sandes diz que intolerância é o processo que leva a não aceitação - DivulgaçãoVVitor Sandes diz que intolerância é o processo que leva a não aceitação - Divulgação

Casos assim podem ser levados a extremos.

 "Quando não se tolera o diferente, no sentido político, não é possível aceitar a existência de quaisquer ideias e, consequentemente, sujeitos que possuem outros pontos de vista e opiniões, formas de experienciar e de exercer sua liberdade política", explica.

O professor explica que ela acontece na medida em que um sujeito compreende que suas preferências políticas são superiores a de outros que pensam diferente. "Este é um pressuposto básico. No entanto, somente isso não é suficiente. É possível considerar que suas preferências políticas são superiores, mas conviver com o diferente, com algum grau de tolerância. O intolerante não. Esse é incapaz de conviver com diferente, compreende o outro que pensa de forma antagônica como um inimigo, sujeito não pertencente ao seu modelo de mundo. Por isso, em casos extremos, busca eliminá-lo", acrescenta Sandes.

As consequências do ódio são severas

"Um princípio básico da democracia é a liberdade política, de votar e de ser votado, mas também de manifestar suas preferências publicamente sem o uso da violência. Com liberdade política, os cidadãos podem ser ativos num regime democrático, posicionando-se no debate público, manifestando-se, debatendo e votando. Sem isso, a liberdade política é frontalmente atingida e, consequentemente, a democracia. É por isso que a violência política tem sido, historicamente, um dos maiores desafios das democracias pelo mundo", analisa o cientista político.

Eleições podem acirrar os ânimos - ReproduçãoEleições podem acirrar os ânimos - Reprodução

Assassinato é o extremo do ódio ideológico

O caso do guarda municipal Marcelo Arruda é um exemplo de muitos casos de extremismo político. "São inúmeras as mortes por razões políticas no país, de apagamento do diferente e de vozes dissonantes. Se nada for feito para combater este tipo de ação intolerante, a violência política será, cada vez mais, uma arma política dos intolerantes", revela o professor universitário Vitor Sandes.

Para Sandes, a democracia não se faz somente com voto na urna, mas com liberdades. "O assassinato político é uma forma de matar a liberdade política, desencoraja os cidadãos, encoraja os intolerantes e fere de morte a democracia. A radicalização pode ser incentivada por lideranças pouco comprometidas com a democracia", determina o estudioso da Ciência Política.

Líderes políticos que incitam o ódio podem ser um sério risco à democracia. Durante campanhas políticas, era comum ouvir de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro palavras de ordem para "metralhar petistas".  "Como sabemos, um líder tem a capacidade, por suas qualidades pessoais de persuasão, de influenciar pessoas. Quando um líder direciona mensagens de ódio por meio de discursos polarizantes, no sentido político, reforça-se o ambiente radicalizado", avalia Vitor Sandes.

É preciso cuidado para não ter hostilidade entre grupos - reproduçãoÉ preciso cuidado para não ter hostilidade entre grupos - reprodução

Hostilidade entre grupo

Ambiente radicalizado é capaz de vilanizar pessoas e gerar hostilidade entre grupos. "O ódio mina as chances de convivência pacífica entre os diferentes, o que pode, em última instância, levar à violência política.  Cabe às lideranças políticas, num regime democrático, incentivar a convivência pacífica entre os cidadãos, incentivar o debate, a construção coletiva de ideias, de forma não violenta. E é responsabilidade de todos não compactuar e nem propagar discursos de ódio, de intolerância ao outro", afirma.

História recente acentuou conflitos

A socióloga Marcela Castro Barbosa explica que a intolerância política faz parte do contexto histórico social brasileiro. "De forma direta ou indireta ela deixa alguma marca. Nas últimas eleições temos percebido uma maior efervescência de casos de intolerância política, seja entre grupos políticos e desavenças familiares", aponta.

Marcela lembra que conflitos fazem parte da história do país - DivulgaçãoMarcela lembra que conflitos fazem parte da história do país - Divulgação

Marcela explica que a história recente acentuou conflitos. 

"Desde o impeachment da presidenta  Dilma Rousseff,  a movimentação de grupos sociais pelo 'Fora Temer', a roupagem da eleição de 2018. Isso contribuiu para um desgaste do cenário político brasileiro, como: o crescimento do antipetismo, o fortalecimento do discurso de ódio, ataques de grupos extremistas, a não aceitação do outro e das diferenças políticas'’, pontua.

Além disso, a perseguição às minorias sociais é uma realidade. "Ameaças, ataques virtuais com fake news, fanatismo, violência política contra as mulheres e o caso mais extremo de homicídio em decorrência de uma questão política. Esses tipos de intolerância podem ser produzidos por grupos de direita, esquerda, centro, dentre outros, mas tem sido mais visível  em grupos da extrema direita", disserta a pesquisadora.

Dentro de uma democracia o debate deve ser feito pela troca de ideias. "Na prática isso não é o que costumamos encontrar no Brasil, pois a maioria dos eleitores e políticos levam a questão política como algo mais pessoal e pouco coletivo. Daí surge as ofensas, os desentendimentos, as ameaças e casos extremos como atentados e assassinatos", finaliza.