Ser mãe vai além de “desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos”, como bem escreveu Torquato Neto para Caetano Veloso em Mamãe Coragem. Ser mãe é enfrentar barreiras, desafios e construir uma estabilidade emocional que nenhum homem conseguiria.

Até porque ser mãe vai além de parir e amar. É cuidar, na maior essência da palavra. "Para mim, significa ser responsável pela vida de outra pessoa, que é indefesa e totalmente dependente de mim pra tudo", analisa Teresa Albuquerque, mãe "profissional" do Abel.

Teresa lembra que os desafios muitas vezes são sociais- Raíssa MoraisTeresa lembra que os desafios muitas vezes são sociais- Raíssa Morais

Grávida da Luna, que deve nascer em agosto, Teresa fala um pouco sobre a dor e a delícia de ser mãe. "Sobre a romantização de ser mãe, eu vejo que hoje em dia a gente está indo muito contra isso. Sigo muitos perfis que falam das dificuldades, dos problemas, da desvalorização, e eu vejo que hoje a discussão é muito sobre como é difícil ser mãe, ainda mais na nossa sociedade de hoje que é capitalista, individualista, então as mulheres estão ficando cada vez mais sozinhas", revela.

O outro em primeiro lugar

Ser mãe é mais do que uma prova de amor, é um exercício de colocar o outro sempre em primeiro lugar. "Hoje parece mais cruel e exigente com a mulher, que nessa conquista de ocupar o mercado de trabalho, acabou ganhando uma sobrecarga muito grande, então vejo que quem é mãe sabe das dificuldades e fala sobre elas. Muita gente fala que maternidade é amor, é realização, mas esses comentários não fazem parte da minha 'bolha' e eu particularmente acho que não podemos reduzir a maternidade a isso", considera Teresa.

Se a maior alegria é ver o Abel se desenvolvendo plenamente, o grande desafio de Teresa é lidar com o cansaço e a privação o sono.

 "Aqui em casa, meu bebê começou a ter noites melhores agora com 1 ano e 5 meses, e mesmo assim ainda acorda. Imagina passar 1 ano e 5 meses dormindo por no máximo 3 horas sem ser interrompida. De manhã tem café, brincar, almoço. Não coloco meu filho na frente da televisão ou do celular, pois não é recomendado até 2 anos. A rotina é um desafio", desabafa.

Rotina passa a ser um grande desafio para as mães - Raíssa MoraesRotina passa a ser um grande desafio para as mães - Raíssa Moraes

As mães precisam de empatia

Os desafios também são sociais. "As pessoas param de convidar você. As pessoas param de frequentar sua casa. As pessoas ignoram sua rotina. E durante os primeiros meses, por exemplo, em algum evento em família, a mãe fica ali sozinha no quarto amamentando ou tentando colocar o bebê para dormir enquanto as pessoas estão no evento. A mãe é a última a comer e come sozinha. Um passeio no shopping com ela e o bebê já não é mais interessante porque aquele bebê vai dar trabalho”, diz Teresa apontando mais aspectos e situações que acabam não sendo observadas pelas pessoas e que se reflete na vida das mães.

Mães precisam de empatia na vida - Raíssa MoraesMães precisam de empatia na vida - Raíssa Moraes

“Entrar em lojas e experimentar roupas já não é tão simples, então a companhia daquela mãe e daquele bebe já não são mais interessantes. A mãe sente que vai atrapalhar e se isola, ao mesmo tempo que também quer manter a rotina do bebê, junta com cansaço e com pessoas que não estão dispostas a ajudar. O resultado é uma mãe que vai ficando cada vez mais solitária", aponta Teresa Albuquerque, mãe do Abel e futura mãe da Luna.

A palavra de ordem é: empatia para as mães. "As mães e os bebês merecem. Bebês choram, bebês são barulhentos, mas eles fazem parte da sociedade, eles são o futuro. Se nós adultos choramos, às vezes perdemos o controle das nossas emoções, por que esperamos maturidade de bebês? E a empatia com a mãe é mais do que urgente. As pessoas precisam ser mais gentis. Ninguém sabe quantas vezes aquela mãe precisou acordar de madrugada para amamentar ou o tamanho da dor nas costas dela dando colo por horas pra um bebê de 10 kg", reforça.

O tripé materno: amor, cuidado e responsabilidade

Aline Costa, arquiteta, é mãe do Pedro, carinhosamente conhecido como Pepê, de três aninhos. Para ela, ser mãe é cuidar, amar e ter responsabilidade. 

"Nem sempre as três coisas juntas. Às vezes cuido por amor, às vezes por responsabilidade. A romantização da maternidade é cruel com as mães porque estabelece padrões e ideais, praticamente inatingíveis, que podem se transformar em dor e culpa em pessoas que fazem o melhor que podem, com as ferramentas que elas têm", afirma.

Acompanhar o desenvolvimento do Pepê é a maior alegria e desafio da vida de Aline. "É gratificante conhecer a pessoa que ele está se tornando. A personalidade, ver que ele está se transformando em alguém do bem. Saber que somos pessoas distintas e que ele vai ter alegrias e sofrimentos. E eu estarei do lado dele", considera.

Aline afirma que é preciso mudar paradigmas - Arquivvo pessoalAline afirma que é preciso mudar paradigmas - Arquivvo pessoal

Aline conta que todo mundo deveria se sentir envolvido quando nasce uma criança. 

"As pessoas relegam isso para as mães, que terminam no limbo da sociedade, até a criança se tornar mais independente. Aí podemos encontrar uma brecha para ter um lugar. As pessoas não se envolvem e não entendem as necessidades das crianças. Vou dar um exemplo: criança fazer birra, se apegar aos pais. Quem não tem contato com criança pequena vê isso como um problema, quando na verdade é um processo natural", acrescenta Aline.

É preciso mudar paradigmas

Sobre o Dia das Mães, Aline afirma que é preciso mudar paradigmas. "É muito voltado para o intuitivo. Que é só amor. E não é só isso. Tem a carga mental de ser responsável pela vida de alguém que depende de você. É preciso de informação para ser uma mãe melhor. Desde o parto até a amamentação", afirma a arquiteta.

Aline reforça que é muito cômodo para a sociedade colocar a mãe com a super-mãe, que trabalha, cuida da casa e não precisa de mais ninguém. 

Mães são sempre cobradas na sociedade segundo Aline -  Arquivo pessoalMães são sempre cobradas na sociedade segundo Aline -  Arquivo pessoal

"Isso isola a gente. Colocar a responsabilidade só para a gente de forma positiva não é legal. Existe, sim, um isolamento. E as mães são muito cobradas na sociedade. Políticas públicas como o aumento da licença paternidade, por exemplo, seriam essenciais. E isso só mudaria com mais mulheres na política, porque os homens não enxergam isso", pontua.

Mamãe da vida real

A jornalista Dani Arrais é quase "influencer" do bem para difundir a necessidade de uma maternidade da vida real. Para ela, ser mãe é "entrega, cuidado e dedicação". "Só quem é mãe entende. A sociedade acolhe muito pouco as mães, sobretudo no mercado de trabalho. Somos potência em nossa melhor versão, é um amor que cresce de forma exponencial", conta. Dani faz uma reflexão sobre o que é ser mãe.

"As pessoas têm a ideia de que quem tem filho é feliz o tempo inteiro. Isso não acontece sempre. Ter um filho mexe com muita coisa, mas a maternidade também pode ser algo solitário. Os espaços não são feitos para mães com crianças. A romantização fica para propagandas e filmes", acrescenta.

Dani Arrais lembra que as mães são cobradas - Arquivo pessoalDani Arrais lembra que as mães são cobradas - Arquivo pessoal

As mães são cobradas porque nunca fazem o suficiente. "Existe um 'escanteamento'. O mercado quer que a gente trabalhe como não fosse mãe, e a sociedade espera que a gente cuide da criança como se não trabalhássemos. É uma conta que não fecha e a mãe é julgada o tempo inteiro. É preciso trocar isso pelo acolhimento", aponta Dani Arrais.

É preciso ‘virar a chave’

Para a psicóloga Fernanda Teles, é preciso "virar a chave" da sociedade. "A romantização existe no imaginário da mulher que não é mãe. Existe um ideal de mãe, de filho. E é algo 'perfeito' construído através de arquétipos. As propagandas, margarinas que têm por aí, redes sociais com fotos de newbork. Aquela mãe sempre linda e maravilhosa. Essa representação inunda o imaginário da mulher que não é mãe. E o parto já é o primeiro impacto, porque é selvagem e profundo. Seja vaginal ou cesárea", aponta.O isolamento social das mães termina sendo cruel. 

Segundo Fernanda isolamento social termina sendo cruel - Arquivo pessoalSegundo Fernanda isolamento social termina sendo cruel - Arquivo pessoal

"É preciso ter uma aldeia para criar uma criança. Na Índia, as mães são recebidas de volta pelas famílias com os filhos, até que elas se sintam à vontade para ir embora. Isso foi se perdendo na sociedade moderna. Cada mãe se esconde na sua casa e vivencia os desafios de forma solitária. É preciso olhar para isso como um alerta social. As mulheres precisam de ajuda", alerta Fernanda.

O Dia das Mães precisa ser ressignificado. "Dia das Mães é todo dia. Elas precisam de um olhar mais carinhoso. Colo, carinho, atenção, cuidado. Não podemos falar sobre isso somente nesta data. A maternidade real precisa estar em todos os dias. Precisamos de autenticidade e verdade", finaliza.