A quarta edição da pesquisa de percepção da Oxfam Brasil, realizada em conjunto com o Instituto Datafolha, mostra a necessidade de combater a desigualdade no Brasil para o efetivo progresso. Os números, com base em 2.564 entrevistas, mostram que a população anseia pela redução da pobreza

A pesquisa mostra que a sociedade brasileira percebe as diferenças de oportunidades vivenciadas por mulheres e homens, pessoas brancas e negras, e a necessidade de ação prioritária do Estado para a redução da distância social entre ricos e pobres. 

Francisca Ferreira tem 55 anos e afirma que as pessoas precisam de mais oportunidades. Crédito: Lucrécio Arrais.Francisca Ferreira tem 55 anos e afirma que as pessoas precisam de mais oportunidades. Crédito: Lucrécio Arrais.

Francisca Ferreira, de 56 anos, é catadora de lixo do projeto Emaús Trapeiros e acredita que o povo pobre precisa ser mais valorizado. 

"Aqui é nossa renda. Nosso sustento. Aqui é uma oportunidade excelente para a gente. Nós que somos mais humildes precisamos de mais atenção do Estado como um todo", considera. 

É quase unânime entre os brasileiros que o Estado precisa garantir a dignidade das pessoas. Além disso, as entrevistas mostram que a população acredita que o aumento de impostos para pessoas muito ricas deve contribuir para isso. O apoio à universalidade de políticas públicas de saúde e educação também é uma realidade descortinada no estudo. 

Dados mostram reflexo do brasileiro sobre questões sociais. Crédito: Reprodução.Dados mostram reflexo do brasileiro sobre questões sociais. Crédito: Reprodução.

A população brasileira também apoia medidas como a lei de cotas raciais nas universidades para equalizar oportunidades e segue vendo com ceticismo o papel da meritocracia pura e simples para a melhoria de vida. Uma das prioridades de brasileiras e brasileiros, indicadas na pesquisa para um futuro mais próspero, é o emprego e renda. 

Os dados mostram uma evolução no pensamento do brasileiro, onde a consciência de classe, cor e gênero estão de forma mais aparente nos dados apresentados. A pesquisa completa está disponível no site da Oxfam. 

Dados revelam que os brasileiros entendem a necessidade de diminuir diferenças sociais. Crédito: Reprodução.Dados revelam que os brasileiros entendem a necessidade de diminuir diferenças sociais. Crédito: Reprodução.

Necessidades constitucionais 

Para o cientista político e professor da Universidade Federal do Piauí (Ufpi), Vitor Sandes, existe uma mudança de comportamento que vai além dos valores da Constituição Federal de 1988, que prega a garantia de direitos universal. 

"Não dá para afirmar que a constituição explica, por si só, esses valores. As cotas raciais, por exemplo, foram bem polêmicas. O Bolsa Família também não foi bem quisto por uma parcela da população. Mas ao longo do tempo as pessoas foram compreendendo que essas políticas sociais foram positivas em termo de inclusão e dignidade humana", afirma. 

O resultado das políticas públicas e do retorno da pobreza e das desigualdades sociais com mais força, com um grande impacto social da pandemia, fez a população entender que o Estado deve estar mais presente. 

"No limite, o mercado consegue prover postos de trabalho. Mas é o estado o grande motor da economia. Até nos Estados Unidos, durante a grave crise de 1929, ou também em 2008, o Estado é capaz de entrar e induzir políticas para atenuar determinados problemas. E a população percebe isso", acrescenta Sandes. 

Vitor Sandes é cientista político e professor da Universidade Federal do Piauí (Ufpi). Crédito: Lucrécio Arrais.Vitor Sandes é cientista político e professor da Universidade Federal do Piauí (Ufpi). Crédito: Lucrécio Arrais.

O combate à pobreza e políticas públicas para favorecer as parcelas mais pobres da população hoje é um discurso político comum entre esquerda e direita. 

"Existe uma compreensão mais arraigada hoje em dia que o Estado precisa interferir nisso. Nossa Constituição Federal garante muitos direitos. E a população foi muito impactada. O cidadão entende que também é uma pessoa que possui direitos. Ele também quer demandar do Estado políticas efetivas, como educação e saúde, por exemplo. Durante a pandemia, o SUS, por exemplo, permitiu uma rápida vacinação. As pessoas começam a entender como esses serviços são fundamentais", analisa o cientista político. 

Movimentos sociais transformam opinião pública 

As consequências positivas do processo permitiu que os cidadãos tivessem uma visão de políticas públicas fundamentais. 

"É um processo de percepção necessário. Existe muita crítica com relação ao SUS. Mas há uma compreensão que sem ele estaríamos em uma situação pior. O resultado para a população carente é que ela precisa do Estado", aponta. 

Vitor Sandes acredita que a mudança de consciência política do brasileiro vêm de movimentos sociais. 

"O MST, por exemplo, é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. Durante os anos 90 e 2000 era um movimento muito criminalizado. Dar produtividade a terras com a reforma agrária. Não dá para descartar o processo de luta. A imprensa também tem um papel importante, além das redes sociais. Isso possibilita que a informação circule. Isso dá uma visão mais crítica do processo", acrescenta. 

Para o cientista político, a meritocracia não dá conta de melhorar a vida do povo. 

"As pessoas se esforçam muito e várias vezes não acontecem. Aí entra o papel do Estado. É preciso política de emprego e mudanças necessárias. Tivemos mudanças que não trouxeram resultados. Como o teto de gastos, as reformas trabalhistas e previdenciárias", finaliza Vitor Sandes.