Teresina, uma cidade entre dois rios, iniciou sua história no bairro Poti Velho, onde a pesca até hoje garante o sustento das famílias. A terra do Cabeça-de-Cuia permanece como um polo pesqueiro, e essa cultura marca a ancestralidade da capital do Piauí. No dia 29 de junho, religiosamente, ocorre a tradicional Corrida das Canoas, uma festa que marca a cultura de um povo que ainda procura a própria identidade.

A comemoração é regada a muito forró, pois não deixa de fazer parte das Festas Juninas, peixe assado, feijoada e a tradicional corrida das canoas. "Eu nasci praticamente dentro de uma canoa. Participar dessa festa é lembrar das nossas vidas. É algo que a gente sempre aguarda com alegria", conta Maria do Amparo, de 59 anos.

Maria do Amparo procura sempre acompanhar a procissão - Lucrécio ArraisMaria do Amparo procura sempre acompanhar a procissão - Lucrécio Arrais

Olimpíadas do Poti

Dentre as competições, tem a de quem pesca mais com a tarrafa, uma espécie de rede utilizada para a pesca. Mas a corrida é, de longe, a competição mais concorrida nestas "Olimpíadas do Poti". "Eu ganho todo ano. É muito bom participar", revela Biritão Barbosa, de 58 anos, o imbatível no remo. "É uma brincadeira que todo mundo entra na onda, a gente sempre participa", acrescenta Luís Alves da Silva, de 46, que ficou em segundo lugar.

Mas não se engane. Pessoas de todas as idades participam da celebração. Das crianças e adolescentes até os matriarcas, ninguém fica de fora dessa grande festa. "É um momento da comunidade celebrar a própria cultura. Assim é a X Feijoada da Casa das Canoas", revela.

Em um verdadeiro momento de descontração onde toda a comunidade confraterniza, é ali no Poti Velho, precisamente na Rua Sapucaia, que a festa começa pela manhã e vai até o anoitecer. Ano que vem tem mais. Após dois anos de pandemia, o povo voltou a manifestar a própria essência.

Comunidade participa ativamente desse momento - Lucrécio ArraisComunidade participa ativamente desse momento - Lucrécio Arrais

Atividade pesqueira presente no rio

A atividade pesqueira está intimamente ligada ao surgimento da Vila Poty, que depois se transformou em um bairro de Teresina. De acordo com o historiador Shi Takeshita, a pesca de camarões, que deu nome ao rio.

Para Takeshita, isso faz parte da identidade de Teresina. 

"A atividade pesqueira tem muito a ver com o surgimento do primeiro núcleo da Vila do Poty que depois vai ser transformado em Teresina. Não apenas a pesca específica de peixes, mas também a de camarões, já que a tradução literal de Poty seria 'Rio dos Camarões' em tupi", define.

A transferência da capital de Oeiras para Teresina transformou a vida do pequeno vilarejo. 

Atividade pesqueira no Poti contribui para o desenvolvimento da cidade - Lucrecio ArraisAtividade pesqueira no Poti contribui para o desenvolvimento da cidade - Lucrecio Arrais

"Se a gente considerar que a principal justificativa da transferência da capital foi a utilização do Parnaíba para a navegação, comércio, agricultura e pesca, então, devemos nos lembrar sempre desses primeiros potienses, que com a pesca conseguiram fazer a Barra do Poty crescer e se transformar em vila em 1832", aponta.

A atividade pesqueira contribuiu para o desenvolvimento de Teresina. "Mesmo que pouco estudados pela nossa historiografia, os pescadores conseguiram, de alguma forma contribuir para o surgimento do embrião de Teresina e também para o crescimento da província do Piauí", acrescenta Shi.

Atividade pesqueira marca identidade teresinense

A verdade é que os pescadores de ontem e de hoje são parte da memória teresinense, e devem ser valorizados não apenas do ponto de vista sociológico, mas também cultural. Eles fazem parte da construção da identidade da cidade.

Atividade pesqueira deve ser valorizada  - Lucrécio ArraisAtividade pesqueira deve ser valorizada  - Lucrécio Arrais

Sincretismo

A atividade pesqueira está ligada a várias questões, como a religião católica e seus sincretismos. 

"É preciso levar em conta seus hábitos religiosos, seus hábitos de trabalhos, seus instrumentos: rede, tarrafa, anzol, canoas e balsas. Como entender Teresina sem nossa lenda principal que é o Cabeça de Cuia? É passando pelas formas de pensar o cotidiano dos pescadores do Poti de ontem que vamos chegar a uma ideia de como essa lenda nasceu e qual ensinamento folclórico ela pretendia passar para aquela população", lembra o historiador Shi Takeshita.

O movimento das canoas no Dia de São Pedro é um reflexo importante dessa cultura.

Corrida de canoas é uma forma de lembrar a atividade - Lucrécio ArraisCorrida de canoas é uma forma de lembrar a atividade - Lucrécio Arrais

 "A corrida das canoas e, principalmente, a procissão de São Pedro pelas águas do Parnaíba e Poty, são exemplos máximos da ancestralidade que os pescadores contribuíram para nossa manifestação cultural mesmo sendo de caráter popular", aponta

Os pescadores merecem mais atenção da própria população, em razão da importante função cultural da profissão. "Mesmo sendo uma atividade que oferece risco aos seus profissionais e que não é valorizada por ser uma atividade de subsistência, ela contribuiu não só economicamente, mas também culturalmente para nossa identidade local", finaliza.