O caso de stalking envolvendo o francês Malik Roy, que perseguiu insistentemente a modelo piauiense Rayanne Adorno desde o ano de 2019, ganhou repercussão nacional após a prisão do homem em Santa Catarina no dia 15 de julho. Ele é acusado de caluniar, perseguir e ameaçar a jovem através das redes sociais e também na vida real. 

O chamado stalking, que em uma tradução livre seria "perseguindo",  é normatizado na Lei 14.132/2021 como o ato de perseguir alguém, fisicamente ou virtualmente, ameaçando a integridade física ou psicológica. Isso inclui restrições à capacidade de locomoção, seja por medo ou ameaças, além da invasão de privacidade. 

A partir da nova lei, o que antes era tipificado como perturbação da tranquilidade alheia, com prisão de 15 dias a 2 meses, agora pode ser enquadrado para até dois anos de reclusão, com pena aumentada em 50% quando é praticada usando armas ou contra crianças, adolescentes, idosos ou mulheres em razão do gênero. 

Crime de Stalking é cada vez mais comum no mundo- reprodução instagramCrime de Stalking é cada vez mais comum no mundo- reprodução instagram

Ameaças e xingamentos

No caso de Rayanne Adorno, a situação evitou o extremo. As ameaças e xingamentos virtuais estavam insustentáveis para a jovem, que praticamente anulou a vida online com receio de ser encontrada por Malik Roy. O sonho de se tornar modelo em Budapeste, na Hungria, se transformou em um pesadelo orquestrado pelo francês de cabelos longos e comportamento doentio.

De volta ao Brasil, Rayanne não teve paz. Malik chegou a vir para Teresina para perseguir a jovem, até quando o caso ganhou repercussão e ele foi investigado e preso, três anos depois, na cidade de Itajaí.

Rayanne conta sobre os 3 anos de desespero

Rayanne Adorno conversou com exclusividade com a reportagem do Jornal Meio Norte. Ela conta que morava com Malik Roy em Budapeste, na Hungria, até que o comportamento violento do francês passou a assustá-la e ela decidiu pelo término. No entanto, a violência não parou e chegou aos extremos. Mensagens de teor racista e fotografias pornográficas fake eram algumas das ferramentas de ameaça através das redes sociais, seja para Rayanne ou para quem estivesse ao seu redor.

A modelo vivia a insegurança e o medo- DivulgaçãoA modelo vivia a insegurança e o medo- Divulgação

Insustentável

A situação ficou insustentável ainda em solo húngaro, há três anos atrás. 

"Ele me xingava, jogava objetos em mim. Então tive que sair da casa dele e ele passou a mandar mensagens para pessoas da minha família e amigos. Ele inventava histórias e se colocava como vítima. Depois disso, registrei um boletim de ocorrência na polícia da Hungria. Foi acordado que ele não deveria ir atrás de mim, mas três dias depois ele voltou a mandar mensagens ameaçadoras. Como eu estava fora do Brasil, eu me sentia desprotegida. Tanto que a Embaixada do Brasil me recomendou voltar para casa", lembra a jovem. 

Rayanne estava no auge. A modelo começou a carreira internacional com o pé direito, sendo convidada para campanhas e buscando novos contratos. No entanto, a perseguição maníaca de Malik Roy foi nefasta para a carreira da jovem. 

"Tive que abandonar tudo. Quando cheguei em Teresina, ele soube e veio em seguida. Então voltou a mandar mensagens para mim, familiares e amigos. Ele mandou a localização dele perto da minha casa. Eu sempre bloqueava e ele adicionava novamente. Foram momentos de pânico. Eu não sabia a quem recorrer. Até que fui à Polícia Federal, corri atrás durante muito tempo. Eu não sabia onde formalizar a denúncia. É um crime que ninguém aqui tinha passado. Uma estrangeiro perseguindo uma brasileira no Piauí", desabafa.

A jovem  era o tenpo inteiro perseguido por Malik - reprodução internetA jovem  era o tenpo inteiro perseguido por Malik - reprodução internet

Perseguição

A jovem relata que a insistência assustadora do stalker não permitia que ela tivesse uma vida normal. Malik passou a perseguir amigos e até os amigos dos amigos de Rayanne. O único critério era que a pessoa falasse português. Mensagens ameaçadoras e vexatórias eram os principais conteúdos. "Ele conseguia, de alguma forma, descobrir e-mails, WhatsApp. Ele incomodava mandando textos. Foi algo inacreditável", recorda Rayanne.

Um crime cometido pelas redes sociais de forma covarde. Sem saber onde Malik estava, Rayanne nunca mais se sentiu segura. "Eu não sabia se ele estava aqui em Teresina, em São Paulo ou Santa Catarina. Ele faz isso em qualquer lugar do mundo. Ele sabia informações minhas, ele sabia tudo da minha vida e eu não sabia nada dele", afirma a modelo. 

Rayanne teve que se apagar, mesmo sendo uma profissional que precisa aparecer.

 "Por muito tempo eu me escondi. Desativei redes sociais, ficava com medo de sair de casa e encontrar ele. O conselho que dou para as vítimas desse crime é que é preciso denunciar e insistir. Não foi fácil para mim. Eu registrei vários boletins de ocorrência. Passei três anos lutando. Eu já estava cansada, exausta, pensando em desistir. Mas outras mulheres me apoiaram", recorda. 

Malik perseguia Rayanne nas redes sociais o tempo inteiro - reprodução internetMalik perseguia Rayanne nas redes sociais o tempo inteiro - reprodução internet

Acompanhamento psicológico foi necessário

Rayanne Adorno afirma que a terapia foi fundamental para passar por tudo isso. 

"A nossa vida muda completamente. A gente passa a viver com medo. E tive que mudar tudo na minha vida, parei de fazer muita coisa. Eu trabalhei muito tempo com a imagem e deixei de fazer isso. Parei de conseguir trabalho porque ele perseguia as lojas que me contratavam. É preciso saber lidar com tudo isso e saber voltar a viver. Sair de casa, não ficar com pânico e ansiedade dele aparecer do nada", afirma. 

A prisão é apenas o primeiro passo da jornada de Rayanne, que afirma que ainda assim não se sente tranquila "Por mais que eu tenha ficado aliviada com a prisão dele, ainda fico insegura. Eu não sei o que pode acontecer depois que ele for julgado. Não sei se ele vai continuar procurando saber da minha vida. Por mais que ele tenha sido pego, a gente fica com sequelas. Eu vou carregar isso para o resto da minha vida. Mas é preciso aprender a lidar. Desde que foi anunciada a prisão dele, eu já chorei, já gritei. Ainda é inacreditável para mim tudo o que está acontecendo", avalia.

Consequências graves

A psicóloga Joceirla Barbosa afirma que  as vítimas de stalking podem ter consequências psicológicas sérias.

"Danos disfuncionais na saúde mental, levando ao desenvolvimento de sintomas como: medo, desconfiança, hipervigilância, desânimo, ansiedade, pânico e podendo evoluir para psicopatologias como depressão maior, stress pós-traumático, ansiedade generalizada, etc. Mudanças no estilo de vida, hábitos e rotinas", revela. 

Existe uma grande possibilidade da vítima ter medo de se relacionar novamente com outras pessoas. "Esse com certeza é um grande impacto. Cada ser humano é único e singular, portanto cada caso é um caso. Superar situações traumáticas como a perseguição vai de acordo com o nível de impacto desse trauma, o que podemos orientar é procurar apoio psicológico ou psiquiátrico, da família, amigos", considera a profissional da psicologia.

A psicóloga Joceirla lembra que os traumas são para a vida toda - Raíssa MoraesA psicóloga Joceirla lembra que os traumas são para a vida toda - Raíssa Moraes

Malik foi preso em supermercado e estava foragido

Malik Roy estava foragido. Ele foi preso após um trabalho conjunto das polícias do Piauí e Santa Catarina. "Fizemos levantamento de campo e soubemos que ele teria uma saída para fora do Brasil no início do ano, mas não havia retornado ao Brasil. No entanto, através de diligências, verificamos que ele retornou ao Brasil. Ele circulou pelo litoral catarinense, até que efetuamos a prisão dele em um supermercado em Itajaí", declarou o delegado Matheus Zanatta, coordenador do GPE.

Os principais crimes são de stalking e injúria racial. 

"Ela registrou boletim para os crimes. A Polícia Civil do Estado do Piauí através da Gerência de Polícia Especializada e a Polícia Civil de Santa Catarina através do SIC [Setor de Investigação Criminal] deram cumprimento a um mandado de prisão preventiva expedido pela 5ª Vara de Teresina. Esse caso ficou muito conhecido no ano de 2019 pelo fato de uma modelo piauiense ter denunciado esse francês", finaliza o delegado.