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Oscar Wilde passa dois anos na prisão pelo fato de ser gay

A acusação se baseava numa emenda ao Código Penal que visava a proteger moças de ataques sexuais e prostituição.

Após o julgamento, iniciado nesta data de 26 de Maio, no ano de 1895 e cuja sentença saiu no dia seguinte, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de trabalhos forçados na prisão de Reading, por prática de “indecência grave”. A acusação se baseava numa emenda ao Código Penal que visava a proteger moças de ataques sexuais e prostituição. Mas, por causa dos seus termos vagos, a emenda acabou abrangendo “atos indecentes” em geral, nos quais se incluíam de modo privilegiado as relações entre pessoas do mesmo sexo, ainda que adultas e consensuais. 

Cumprida a pena e libertado em maio de 1897, Oscar Wilde partiu diretamente para o exílio em Paris, falido, solitário e fisicamente destroçado. Aí viveu ajudado por amigos, morando em hotéis baratos, até sua morte em 30 de novembro de 1900, aos 46 anos. Foi inicialmente enterrado como indigente. Ainda durante o julgamento, sua família abandonara a Inglaterra, com destino à Suíça, onde seus filhos tiveram o sobrenome Wilde substituído por Holland, para fugir da desonra.

Após cumprida a pena, Oscar Wilde partiu diretamente para o exílio em Paris - Foto: ReproduçãoApós cumprida a pena, Oscar Wilde partiu diretamente para o exílio em Paris - Foto: Reprodução

Oscar Wilde (nascido em 1854 e morto em 1900), na Irlanda, foi jornalista e um dos grandes escritores do Reino Unido, autor de uma obra, aliás o seu único romance, “O Retrato de Dorian Grray”, que é considerada das mais importantes da literatura inglesa.

A obra de Wilde, aclamada pela crítica e pelo público, permanece como referência literária e se baseia na ideia de que a vida deveria ser norteada pelas preocupações artísticas como forma de enfrentamento dos problemas do mundo moderno.

Oscar Wilde teve uma vida conturbada, levada pela solidão, por atitudes desafiadoras, uma delas era o fato de ser homossexual numa Inglaterra profundamente conservadora.

Oscar Wilde teve uma vida conturbada por ser homossexual - Foto: ReproduçãoOscar Wilde teve uma vida conturbada por ser homossexual - Foto: Reprodução

Quando Oscar Wilde irrompeu na cena intelectual e mundana da Londres dos anos 1880, o amor entre pessoas do mesmo sexo gerava uma vaga consciência social. Sua existência era mais conhecida por termos eufemísticos como “sodomia”, “pecado “nefando”, “uranismo” ou “pederastia”.

João Silvério Trevisan professor, escritor e ativista dos direitos pró-homossexuais, nos lembra que anos antes, em 1869, na Alemanha, essa prática sexual fora batizada com o nome científico de “homossexualismo”, por um médico que seria ele próprio homossexual. O objetivo do criador do conceito era apresentar a atração pelo mesmo sexo como natural e não adquirida. Visava assim a afastar a culpabilidade (e a punição) por sua prática. Mas esse termo científico demorou para entrar no vocabulário popular. Foi muito mais rapidamente absorvido pela psiquiatria. De pecado, o amor entre pessoas do mesmo sexo se tornou desvio moral e doença. Sua condenação se transferiu do campo da religião para o da ciência, de modo que os padres foram substituídos por médicos e juízes, que ora tentavam curar, ora julgavam segundo a lei.

Oscar Wilde foi jornalista e um dos grandes escritores do Reino Unido - Foto: ReproduçãoOscar Wilde foi jornalista e um dos grandes escritores do Reino Unido - Foto: Reprodução

Durante seu acidentado julgamento, em 1895, Oscar Wilde negou sistematicamente sua vida homossexual. Mas a partir do momento em que foi acuado com provas irrefutáveis, tomou a defesa do amor que praticava. Ao ser inquirido pela promotoria, Wilde respondeu com um dos textos mais corajosos e contundentes em defesa da prática homossexual:

“Esse amor é a grande afeição de um homem mais velho por um homem mais jovem, como aquela que houve entre Davi e Jônatas, o amor que Platão tornou a base de sua filosofia, o amor que se pode achar nos sonetos de Miguel Ângelo e Shakespeare. Tal amor é tão mal compreendido neste século que se admite descrevê-lo como o ‘amor que não ousa dizer seu nome’. Ele é bonito, é bom, é a mais nobre forma de afeição. Não há nada nele que seja antinatural. Ele é intelectual, e repetidamente tem existido entre um homem mais velho e um homem mais novo, quando o mais velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e o encanto da vida à sua frente. O mundo não compreende que seja assim. Zomba dele e às vezes, por causa dele, coloca alguém no pelourinho.” Não há registros de que Oscar Wilde tenha se manifestado explicitamente contra a opressão sofrida pelo então chamado “terceiro sexo”. Mas ele ousou tematizá-lo em sua obra, freqüentemente acusada de pervertida – como foi o caso de O retrato de Dorian Gray. E é sobretudo esse seu discurso no tribunal que permanece como uma eloqüente afirmação do direito de amar contra a corrente.

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