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Meritocracia, uma grande e excludente falácia

O filósofo Michael Sandel, um dos mais plenos e instigantes pensadores dos nossos tempos, tem causado grande impacto nos meios intelectuais e um acolhimento intenso junto aos inquietos jovens do nosso século, sobretudo depois que lançou o seu cobiçado livro “Justiça – o que é fazer a coisa certa”. Mas não só pelo excelente livro. Reconhecido pela Associação Americana de Ciências Políticas por uma excelência na carreira de ensino, suas aulas já atingiram mais de 15 mil estudantes na Universidade de Haward, nos Estados Unidos, ou espalhados por inúmeros outros ambientes no mundo, como ocorreu, em Dezembro de 2013, no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.

Filósofo Michel Sendel 

Ele tem sustentado, com clareza e coragem, que o dinheiro não pode comprar tudo. Como exemplo, não pode comprar os limites morais do mercado, pois a democracia não pode ser compatível com um nível de mercantilização social gerador de um aprofundamento radical das desigualdades.

Sandel vai em oposição às teses sustentadas por figuras proeminetes dos meios acadêmicos oriundas do pensamento econômico, que defendem o princípio de que as desigualdades de condições e de renda se reverteriam também em favor dos mais pobres, pelo simples crescimento genérico da riqueza produzida por determinada comunidade.

Para ele, a questão da justiça distributiva é absolutamente determinante, já que constitui uma condição imprescindível para a plena afirmação de uma sociedade democrática. Assim, a questão da eliminação da pobreza absoluta tem a ver com a necessidade de preservação de uma noção comum de cidadania, ponto coincidente com o raciocínio exposto com sabedoria pelo Nobel de Economia, Amartya Sen, no seu “desenvolvimento como liberdade”, que consiste no fortalecimento do cidadão como princípio de sua autonomia.

Se já nutria grande admiração pelo pensamento vigoroso de Michael Sandel, o aprofundamento dessas questões de justiça e igualdade que ele levanta ganhou de vez meu entusiasmo, com o lançamento de outra obra instigante que acaba de fazer. Trata-se do livro “A Tirania do Mérito “ ( Editora Civilização Brasileira), com edição aqui no Brasil programada para este final de Setembro.

No novo livro, Sandel vai fundo no ataque aos gurus da política progressista/globalistas das últimas décadas, agora diretamente acusados pelo autor de adotarem, como resposta aos desafios da globalização, uma cultura do mérito que levou a um legítimo ressentimento das classes trabalhadoras, de desastrosas consequências que se encontram presentes, inclusive, na gestão desta pandemia do Coronavírus.

Sendel

No título inglês ”The Tyranny of Merit”, o ganhador do prêmio Princesa de Astúrias de Ciências Sociais de 2018 defende que as crescentes desigualdades e o funil da mobilidade social transformaram em uma armadilha o mantra de que todo mundo pode vencer se tentar.

Michael Sandel sustenta que a cultura da meritocracia gerou uma arrogância entre os ganhadores e impôs um severo julgamento dos que ficaram para trás, cuja frustração e ressentimento alimentaram a onda global de protesto populista que levou Donald Trump ao poder. Sandel propõe uma revisão dos conceitos de sucesso e fracasso, um exercício de humildade que passa por “furar as bolhas” de uma sociedade polarizada para criar “uma experiência democrática compartilhada”.

Em recente entrevista ao jornal El Pays, da Espanha, publicada na sua edição brasileira, Sandel afirma que o mundo chegou num momento de divisão e polarização quase sem precedentes. Chegou após quatro décadas de globalização neoliberal, guiada pelo mercado, que trouxe enormes desigualdades e também atitudes em relação ao sucesso e ao fracasso que geraram uma profunda divisão entre vencedores e perdedores. Essa pandemia, salienta, expôs nossa dependência mútua e exige um alto nível de solidariedade social. Mas essas profundas divisões nos tornaram incapazes de apresentar o tipo de solidariedade que teria sido necessária para enfrentar a pandemia de maneira eficaz. No princípio se repetia o bordão de “estamos juntos nesta”. Mas não era bem assim. À medida que o vírus avançava, ia ficando cada vez mais claro que aqueles que suportavam as cargas mais pesadas e realizavam os maiores sacrifícios, e que sofriam mais perdas de vidas, eram aqueles que tinham sido deixados para trás na prosperidade das últimas quatro décadas.

Outro ponto notável na argumentação sustentada por Sandel em sue novo livro, é que essa distância social anterior à pandemia consistia na tendência dos vencedores da globalização a se distanciarem da vida em comum, dos serviços públicos, dos espaços comuns da cidadania democrática. Havia cada vez menos experiência de mistura de classes no curso ordinário da vida, seja na escola, no transporte público, nas instituições culturais, os centros de lazer.

Voltando ao foco central de novo livro, a questão da “Meritrocacia”, Michael nos lembra que a mudança de atitudes é tão importante como a desigualdade de riqueza em si mesma. Aqueles que aterrissaram lá em cima tendem a acreditar que seu sucesso é graças a si mesmos. Que merecem, portanto, os benefícios materiais que a sociedade de mercado distribui entre aqueles que fazem sucesso. E, consequentemente, que quem ficou para trás merece igualmente seu destino. Esse senso de menosprezo por parte das elites gerou, compreensivelmente, indignação e ressentimento entre os trabalhadores. Essas queixas eram legítimas, apesar de os políticos que apelaram a elas terem jogado com os piores impulsos. Impulsos tão feios como a xenofobia, o hipernacionalismo e o racismo.

Esse descontentamento lhes escapou, essa dimensão cultural da indignação. Detentores de poder foram surdos à insatisfação e ao crescente ressentimento dos trabalhadores. Acharam que o único problema da globalização era a deficiente distribuição das recompensas dos ganhadores aos perdedores. Mas não era sozinho um problema de justiça e redistribuição: era também um problema de reconhecimento e estima social.

Fico, aqui, aguardando com bastante entusiasmo e esperança esta nova obra, desse grande pensador.


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