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O Oscar para "Nomadland" nos deixa uma boa esperança

O resultado é uma imersão completa, que não enxerga o dia a dia como problemático, mas simplesmente considera isso como um modo de vida

 Enxerguei a festa de premiação do Oscar, nesse domingo, como evento bastante estimulante, um marco significativo no trato dos dramas sociais e na celebração da dignidade humana. A começar pela outorga do troféu para “Nomadland”, como melhor filme, por trata-se de um retrato bastante fiel e honesto da situação vivida por expressiva parcela da sociedade norte-americana, que enfrenta diariamente -e já não é de agora-, uma pobreza alarmante, muitos perigos à vida, submetidas a frio e fome.

O “filme-documentário”, uma mistura de ficção com realidade, traz a estrela Frances McDormand, para contar a história de Fern, uma viúva de 60 anos de idade, que, atingida pela crise econômica e financeira que atingiu os Estados Unidos em 2008, pega uma van e toma a estrada, para assumir uma vida nômade em busca de algo melhor.

A diretora asiática Chloé Zhao, nascida em Pequim, teve olhos e sensibilidade para tocar a história de maneira humana, voltando-se para a capacidade de sobrevivência diante de gigantescas dificuldades. Esse modo diferente de fazer o filme, ela confessa ter aprendido na convivência com os povos nômades, com os quais esteve durante os tempos de filmagem, em meio à pandemia do coronavírus.

“Nomadland”, levou o Oscar de melhor filme“Nomadland”, levou o Oscar de melhor filme

O resultado é uma imersão completa, que não enxerga o dia a dia como problemático, mas simplesmente considera isso como um modo de vida e uma oportunidade de virada à maneira da coragem e do espírito de cada um. Mas Zhao decide enxergar pelo outro lado, observar como os nômades vivem, se envolvendo entre eles, de maneira que inspirou a equipe, que fez as malas, viajou por cinco estados, durante semanas, com câmera na mão.

O resultado desse trabalho fica transparente no curtíssimo discurso que, ao lado da estrela Frances McDormand- que também recebeu o Oscar de melhor atriz-, Zhao pronuncia, expressando sua alegria e seu reconhecimento aos povos nômades:

” obrigada por nos ensinar o poder da resiliência e da esperança. E por nos lembrar o que é a verdadeira bondade.”

Parece que Hollywood está pensando e agindo diferentemente do passado, quando o propósito era expandir para o mundo uma imagem de vitória e glória dos Estados Unidos, um povo de bem com a vida, a maior Democracia do Mundo, uma espécie de senhores de todos os povos.

Chloe Zhao, diretora de "Nomadland", no Oscar 2021 — Foto: AP Photo/Chris Pizzello Chloe Zhao, diretora de "Nomadland", no Oscar 2021 — Foto: AP Photo/Chris Pizzello 

Não bastasse o principal prêmio ter ido para uma história de gente simples, pobre, e de suas gritantes dificuldades, uma realidade que Hollywood parece assumir diante de seu país, a noite fez também um pouco mais de justiça ao universo feminino: pela primeira vez, nas 93 edições do Oscar, duas mulheres foram simultaneamente indicadas ao prêmio de Melhor Direção. Chloé Zhao, de “Nomadlan”, e Emerald Fenneli, de “Bela Vingança”. Até então, apenas cinco diretoras haviam sido indicadas em edições anteriores, uma a cada ano. Para se ter uma ideia de como Hollywood é dominada pelos homens, lembremos um estudo do Center for the Study ou Womem in Television and Film, de 2018: apenas 35% dos filmes incluíram 10 ou mais papéis femininos com falas. Na comparação, 82% dos filmes têm 10 ou mais papéis masculinos com falas.

Mas, de algum modo, o Oscar de Los Ângeles, em sua 93ª edição, trouxe alento às mulheres que se dedicam ao mundo artístico e lutam contra tratamentos historicamente desiguais: Hollywood entregou o recorde de 17 estatuetas para as mulheres, não ficando só em Chloé Zhao e Frances McDormand. Emerald Fennell, melhor roteiro original; Ann Roth, melhor figurino; Youn Yuh-jung, melhor atriz coadjuvante, entre outras.

Outro aspecto que me chamou a atenção entre o público do Oscar, de atores a diretores, de artistas/apresentadores a produtores, foi o visível alívio por quase todos manifestado pela condenação do ex-policial Chauvin, responsável pelo assassinato do homem negro George Floyd. O fato de a condenação ter ocorrido em tempo adequado e de o assassino ter sido condenado nas três acusações que lhe foram impostas, parece ter deixado os corações do mundo artístico de algum modo aliviados.

Tanto isso fica transparente, que, certamente, se o ex-policial Derek Chauvin não tivesse sido condenado em três acusações pela morte de George Floyd, a atriz Regina King teria declinado do convite para apresentar o Oscar e se juntaria aos protestos que provavelmente estariam varrendo os EUA contra a sentença e ofuscando a cerimônia.

Num ano sacudido pelo luto da Covid-19, mas também coroado pelo rápido veredicto sobre a violência de um policial branco contra um negro desarmado, os apelos por justiça racial e contra a intolerância delinearam a festa.

“Eu sei que muitos de vocês em casa querem pegar o controle remoto quando sentem que Hollywood está pregando para vocês. Mas, como mãe de um filho negro, eu conheço o medo com que tantos vivem. Fama e fortuna não mudam isso”, resumiu a atriz e diretora de “Uma noite em Miami”, Regina King, ao abrir o 93º Oscar em Los Angeles.

Rotulada como um grito de guerra, outra mensagem poderosa veio do ator, cineasta, produtor e filantropo Tyler Perry, homenageado pela academia com o Prêmio Humanitário Jean Hersholt. “Recusem o ódio. É aí que a cura acontece, é onde a conversa começa e a mudança ocorre. Isso acontece no meio. Em tempos de divisão, a comovente rejeição ao discurso de ódio –seja imigrante, negro, asiático ou policial – advertiu .

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