Basta uma rápida olhada nas listas de melhores livros de economia do ano passado para descobrir a obra essencial de 2021: The Future of Money: How the Digital Revolution is Transforming Currencies and Finance ficou entre os preferidos da Financial Times e da The Economist

Seu autor, o indiano Eswar Prasad, de 57 anos, tem um currículo vasto. Hoje ele dá aulas de política comercial e economia da Universidade de Cornell, no estado de Nova York – mas já foi diretor da Divisão de Estudos Financeiros do Fundo Monetário Internacional (FMI) e head da divisão chinesa do fundo (ele também já serviu de consultor oficial sobre a economia da China.)

“As criptomoedas e o dinheiro físico vão acabar”, diz autor- Foto: Divulgação"As criptomoedas e o dinheiro físico vão acabar", diz autor- Foto: Divulgação

Não é difícil entender por que o livro foi tão aclamado. Com uma visão sofisticada e uma linguagem de fácil entendimento, a obra descreve o que vai acontecer com o dinheiro nos próximos dez anos: para onde vão as criptomoedas, o que vai acontecer com o dinheiro físico e como os governos vão lidar com as novas tecnologias.

Em janeiro, as criptomoedas perderam US$ 300 bilhões em valor em apenas três dias. Você vê essa queda como um sinal de que esses ativos podem estar com os dias contados?

Eu acredito que essa instabilidade mostra o caráter real das criptomoedas – que são ativos arriscados, submetidos às mesmas forças que outros investimentos arrojados. Muitas pessoas acreditavam que o bitcoin seria uma espécie de proteção contra a inflação, uma moeda capaz de preservar seu valor, mesmo numa crise. Mas hoje é evidente que o bitcoin nada mais é do que um ativo financeiro especulativo, que está submetido às mesmas forças que os outros investimentos. Quando o Federal Reserve deu a entender que poderia aumentar as taxas de juros e apertar a política monetária americana, as pessoas começaram a se distanciar dos ativos arriscados – o que inclui as criptomoedas – e se mover em direção a investimentos mais seguros. Essa é uma das razões da queda.

Em seu livro, você diz que “o bitcoin falhou”. Você acredita que as criptomoedas não estão cumprindo sua função?

Quando o bitcoin surgiu, em 2008, tinha uma proposta incrível: permitir que as pessoas fossem capazes de realizar transações usando uma moeda totalmente descentralizada, sem depender do banco central ou de qualquer instituição financeira tradicional. Outra inovação importante era o fato de que você não precisaria revelar sua identidade real, apenas identidades digitais, ao fazer uma transação. Na época, a ideia parecia impossível, mas eles encontraram um jeito de fazer isso funcionar.

O que deu errado?

O problema é que o bitcoin não realizou a promessa de funcionar como uma moeda de troca. Uma exigência fundamental para uma boa moeda de troca é que ela tenha um valor estável em relação a uma unidade básica, que geralmente é emitida por um governo ou banco central. Isso nunca aconteceu. Além disso, a rede bitcoin não é muito eficiente na hora de processar transações. Veja bem, a rede só consegue processar diretamente cinco ou seis transações por segundo, o que é uma fração minúscula do que pode ser processado pelas redes da Visa ou do Mastercard, por exemplo.

Então, de uma maneira paradoxal, o bitcoin se transformou em algo que nunca desejou ser, que é um ativo financeiro - e, na minha visão, um ativo financeiro meramente especulativo, porque não tem nenhum valor intrínseco e não serve como moeda de troca. A única coisa que responde pelo seu valor é o movimento dos investidores. É uma base muito frágil para um ativo financeiro.

Por que determinados governos, como os da China e da Rússia, estão tentando banir as moedas digitais? Como vê esse movimento?

Eu acho que os governos estão acordando para o fato de que as criptomoedas apresentam uma série de riscos para a vida econômica de uma nação, e começaram a tomar providências. Do jeito que são hoje, as moedas digitais trazem vários perigos. O mais óbvio é o que pode acontecer com os investidores ingênuos, que acreditam que o valor das criptomoedas tende sempre a subir. Se as moedas digitais entrarem em colapso, eles podem se dar muito mal. Mas há um risco muito maior, que é o de essas moedas serem usadas para atividades ilegais, tanto dentro do país quando em operações internacionais – como tráfico de drogas, por exemplo. Em países emergentes, as criptos também podem ser usadas para tirar dinheiro do país. Essas são algumas das razões pelas quais a China quer acabar com o uso das criptomoedas. Mas não tenho certeza de que banir completamente criptomoedas seja a melhor solução.

E o dinheiro físico, como fica?

Eu acredito que, nos próximos cinco a dez anos, o dinheiro físico vai desaparecer. Nós já estamos usando pagamentos digitais em larga escala, e essa tendência deve apenas se acelerar no futuro. Em alguns países, como a Suécia, o dinheiro praticamente não é mais usado. Mas é bom salientar que a troca do físico pelo digital vai ocorrer em diferentes velocidades, dependendo do país. Em alguns lugares, o dinheiro ainda é muito apreciado, porque ele tem uma vantagem muito importante: proporciona privacidade e confidencialidade às transações, algo que nenhum sistema digital será capaz de replicar.