Estadão: Fiat desce ladeira e caminha para naufrágio

A perda da liderança veio em meados do ano passado

O que a Fiat operou no Brasil durante a maior parte desse século foi impressionante. Seus carros jamais foram considerados pela crítica os melhores – nem perto disso, aliás. Os preços também nunca foram destaque. Mas, com um forte trabalho de varejo, uma excelente relação com concessionários e carros populares como o Uno e o Palio Fire (que, com projetos antigos, já pagos, eram bastante competitivos), a marca reinou no mercado nacional até o fim de 2015.

A perda da liderança veio em meados do ano passado. E, depois disso, o esquema da Fiat é o que podemos chamar de “morro abaixo”. Mês a mês, a marca registra quedas acentuadas em participação de mercado.



Há algumas leituras para essa queda acentuada. A mais propagada pela própria Fiat, ou melhor, pelo Grupo FCA (Fiat-Chrysler), é da perda da liderança para privilegiar a rentabilidade.

O atual presidente da FCA, Stefan Ketter (que assumiu a empresa em 2015), disse no ano passado que o grupo, no Brasil, é rentável – em um contexto de crise. A estratégia seria privilegiar produtos de maior valor agregado, ou seja, os produzidos em Goiana (PE) – os Jeep Renegade e Compass e a Fiat Toro.

Esses modelos, de fato, estão no caminho certo. Ou lideram ou são destaques em seus segmentos. E, por serem mais caros, geram mais lucro para a empresa.

Mas é difícil acreditar que o grupo FCA tenha, por opção, deixado a Fiat de lado, negligenciado a empresa italiana. Difícil porque a Fiat do Brasil era a maior operação da montadora no mundo. Nos bastidores, aliás, fala-se muito que, sem o dinheiro da subsidiária local, a Fiat não teria conseguido comprar a Chrysler – mas isso é assunto para outro post.

E por que a Fiat está afundando? Em meu ponto de vista, é porque ela não tem mais produtos no segmento de carros de passeio – esqueça, por enquanto, os comerciais leves.

O Uno antigo, aquele que vendia muito bem, saiu de cena há alguns anos. Estava muito defasado para um mercado que começava a ter carros mais modernos. A nova geração, porém, chegou mantendo a força da marca. Ele integrava a lista dos dez mais vendidos do Brasil e tinha preço interessante, já que era um dos únicos subcompactos do País – além de ser, por si só, uma marca forte e tradicional no País.

Mas aí veio o Mobi, e o fracasso. A chegada do carro, grande lançamento de volume da Fiat em 2016, resultou em dois movimentos. A versão Fire, a mais vendida do Palio, saiu de linha.

Além disso, o Uno foi reposicionado. O mais tradicional carro da Fiat no Brasil ficou bem mais caro.

Os efeitos nas vendas não demoraram a surgir. Em 2016, Uno foi um dos carros que mais perderam posições no ranking. Ele terminou o ano no 17º lugar, ante o oitavo registrado em 2015.

A coisa, porém, não parou por aí. No mês passado, a perda de participação atingiu seu ápice. Considerando apenas as vendas de automóveis, a marca ocupou a sexta posição.

Os comerciais leves salvaram o mês da Fiat. Somadas as vendas desse tipo de veículo, a montadora subiu para a segunda colocação.

Seu carro mais vendido em março não foi nem Palio, nem Uno, nem Mobi, e sim a Strada. A Toro foi o segundo Fiat mais emplacado.

Entre os carros de passeio, o mais vendido foi o Mobi, 15º colocado no ranking geral. O Palio, líder de vendas até outro dia, vem despencando mês a mês desde o adeus da versão Fire. Em março, foi apenas o 24º veículo mais emplacado do País. O Uno foi um pouco melhor, ficando com a 21ª posição.

A conclusão é que, hoje, a Fiat é basicamente uma fabricante de comerciais leves. Mas até essa tese perde força quando se olha para as vendas no varejo. Descontadas as vendas diretas (para empresas), a Strada apenas 531 unidades vendidas em março.

Isso significa que 4.039 exemplares do veículo mais emplacado da Fiat foram entregues à empresa, uma modalidade de compra que não tem a ver com quesitos como desejo e qualidade, mas com bons contratos, principalmente.

No ranking de comerciais leves, a Strada, considerando apenas as vendas para o consumidor final, cai o sétimo lugar – com a soma das vendas diretas, a picape é primeira colocada nessa lista.

Também preocupante é a situação do Palio, que, no ranking de vendas de carros de passeio para o consumidor final, foi apenas o 31º colocado – e, na soma dos automóveis e comerciais leves, 33º.

Ou seja: hoje, o único Fiat que realmente cativa o cliente final é a Toro. Os carros populares, especialidade da marca, não despertam desejo e não são nem mesmo opções racionais.

Os carros de passeio da Fiat – e a Strada também – ficaram defasados diante da concorrência. Atualmente, os modelos “populares” do País têm soluções modernas, como motores turbo (Up! e HB20), centrais multimídia funcionais (a maioria) e até sistema eletrônico de estabilidade (Ford Ka).

O Mobi chegou sem inovar. Até seu motor era antigo. Depois, já quase no fim de 2016, ganhou um novo propulsor, de três cilindros, mas também sem nenhum diferencial ante os que já eram oferecidos nos concorrentes.

A carreira do Mobi também vem sendo prejudicada por outros dois fatores. Em primeiro lugar, está a crise. O público de veículos de sua faixa de preço foi o mais atingido pelo momento ruim da economia brasileiro, e o que mais deixou de comprar carros novos.

Além disso, o segmento de subcompactos não está entre os preferidos do consumidor do País. O Up!, da Volkswagen, é um exemplo. O carro nunca fez um sucesso estrondoso.

Para este ano, a novidade da Fiat será um novo sedã. Ele deverá ter porte de modelos como Chevrolet Cobalt, e será posicionado acima do Siena. Ainda não se sabe se a montadora tentará vendê-lo como um rival dos três-volumes médios, para aumentar a rentabilidade.

No passado, a marca tentou essa estratégia com o Linea. Não deu certo. Certo é que esse carro, segundo fontes, também não trará grandes inovações. Nos bastidores, a informação que circula é de que a Fiat está sem caixa para fazer investimentos. O maior prejuízo é para o conjunto mecânico, extremamente antiquado, mas sem perspectiva de melhoras.

A Fiat vai precisar se reinventar, mas não como uma fabricante de carros sofisticados. A marca tentou investir nesses segmentos no passado, mas sem sucesso. A Toro vai bem pois é praticamente sozinha em um segmento que, no País, acaba de ser inventado.

A reinvenção precisa ser naquilo que consagrou a montadora: uma fabricante de carros populares. É preciso ter soluções inovadoras, mesmo que não seja no conjunto mecânico. A Fiat foi praticamente a pioneira no lançamento de sistemas de som mais modernos no País. Agora, ficou para trás.

Investir na Jeep é sim um caminho para a lucratividade. Mas é triste pensar que uma marca que construiu, no Brasil, uma história como a da Fiat, esteja a beira de um colapso.

Fonte: Estadão
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