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Gays, lésbicas e travesti participam de casamento coletivo em SP

Cerimônia coletiva em cartório de Campinas reuniu cinco casais LGBT, entre os quais, o de um homem que se casou pela quarta vez -- a primeira, segundo ele, com uma travesti

Gays, lésbicas e travesti participam de casamento coletivo em SP
Celular | Reprodução

O casal Wagner Fernandes, 60 anos, e Paola Fernandes, de 36, comemorou a união nessa quarta-feira, em Campinas (79 km de São Paulo), do modo tradicional: registro em cartório com certidão de casamento, troca de alianças, beijinho para os fotógrafos e sobrenome do marido transferido à cônjuge na certidão – de batom vermelho, vestido branco e buquê de rosas vermelhas. “É meu quarto casamento”, disse o noivo à reportagem. “O primeiro, porém, com um travesti”, ressalvou. “Minhas ex-mulheres até sabem, mas meu filho ainda não aceita muito bem”, admitiu.
Gays, lésbicas e travesti participam de casamento coletivo em SP - Imagem 1Eles foram um dos cinco casais que oficializaram relacionamentos de anos, perante a Justiça, com base na resolução nº 175, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), publicada em maio de 2013. Pelo documento, cartórios de todo o Brasil não podem recusar a celebração dessas uniões, tampouco a conversão de uniões estáveis homossexuais em casamentos.

No começo do mês, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que foram registrados no Brasil, no ano em que a resolução do CNJ entrou em vigor – ainda que, tecnicamente, o Judiciário reconhecesse a união homoafetiva desde 2011 –, um total de 3.701 casamentos entre pessoas do mesmo sexo ; a maioria (52%) entre mulheres e na região Sudeste (65,1%). O número representa 0,35% das 1,1 milhão de uniões que aconteceram no mesmo período.

As uniões civis em Campinas foram organizadas pelo Centro de Referência LGBT, serviço municipal implantado em 2003 e primeiro do gênero, no poder público, criado no País. É a segunda iniciativa do órgão.

Casamento foi "um sonho realizado", diz travesti

Para os casais, a medida é um primeiro passo para ao menos garantir a segurança jurídica do parceiro – tais como direitos a bens, em caso de separação ou morte, ou mesmo a inclusão do nome como beneficiário de plano de saúde.

Nascida em Imperatriz (MA), Paola contou que o casamento foi “um sonho realizado”. “Estamos felizes, não temos do que reclamar na vida social e conjugal. Queria muito ter o nome do meu marido, estamos juntos há seis anos. Agora é comemorar nossa lua de mel, que vai ser top: tem uma banheira com flores e champanhe nos esperando no hotel”, contou a cabeleireira. “Oficializamos mais pela segurança dela por exemplo em relação à minha aposentadoria, e também porque era um sonho. E nunca sofremos discriminação – também porque todo mundo acha que ela é mesmo uma mulher”, completou o marido.

Para casal gay, "faltam leis aos LGBT"

Gays, lésbicas e travesti participam de casamento coletivo em SP - Imagem 2Também casados no cartório, o motorista Adaílton da Silva Germano e o tosador de cães Elival Júnior, ambos de 29 anos, decidiram registrar os sete anos em que estão juntos. O que ainda falta aos LGBTs? “Faltam leis que garantam mais igualdade a quem é LGBT e também que criminalizem a homofobia. Porque hoje alguém agride um gay ou uma lésbica e fica praticamente impune”, observou Germano. “E viriam aqui 17 casais, só vieram cinco. Se as leis de fato existissem de forma mais ampla, seria mais fácil para as pessoas e assumirem e reivindicarem seus direitos”, complementou Júnior.

 

Mulher foi impedida de ver companheira no hospital


Gays, lésbicas e travesti participam de casamento coletivo em SP - Imagem 3Para o casal Regina Maria, 47 anos, e Adriana Campos, de 25, falta de leis de amparo e preconceito ainda são barreiras para a aceitação dos casamentos homoafetivos. Elas estão juntas há nove anos.

“Há dois anos, ela sofreu um acidente de moto e ficou internada. Só consegui vê-la no hospital com um mandado judicial, pois a família dela, que não me aceitava, proibia a minha presença lá. Enquanto houver esse preconceito, as pessoas não vão ter tanta coragem de se assumir, isso é fato”, analisou Regina, que é porteira. “Agora minha mãe nos aceita, mas meu pai, de jeito nenhum. E aí fora é só olhar com atenção: se antes era xingamento, agora a coisa parte até para a agressão e a morte”, disse Adriana, que é encarregada.

“E curioso é que pagamos impostos como qualquer outro cidadão. Se na eleição os políticos não vêm perguntar nossa orientação sexual para pedir voto, o mínimo que deveriam fazer é garantir que os direitos sejam iguais para todos, porque eles ainda não são”, arrematou Regina.

"Já somos uma família", diz casal de lésbicas com filho

Gays, lésbicas e travesti participam de casamento coletivo em SP - Imagem 4Entre os casais, parte levou os familiares junto às testemunhas, parte alegou que a família estava na cidade natal, ou em horário de trabalho. Companheiras há 14 anos, a operadora de produção Carmen Silvia Ferreira Poderoso, 47 anos, e a auxiliar de enfermagem Cláudia Nascimento da Cunha Poderoso, 44 anos, fez questão de levar o filho de oito anos para acompanhá-las perante a juíza que celebrou a união.

“Casamos pela estabilidade jurídica, porque uma família já somos faz tempo”, disse Carmen, ao lado do “filho de coração” – adotado ainda bebê após três anos de espera na fila. Ela pediu que o nome do menino não fosse publicado para evitar “mais bullying na escola”. “Ele já sofreu, mas isso foi corrigido”, mencionou, recebendo do filho um sorriso cúmplice.

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