A visita a Taiwan da presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, pode ter dado início à quarta grande crise no estreito de Taiwan? A viagem de Pelosi à ilha que a China considera parte do seu território, uma província "rebelde", aumentou a tensão entre Washington e Pequim.

O desafio de Pelosi para demonstrar "o compromisso inabalável dos Estados Unidos de apoiar a vibrante democracia de Taiwan" foi recebido com manobras militares chinesas no mar que rodeia a ilha.

Muitos receiam que os dois países tenham iniciado um caminho que pode levar a uma crise diplomática, política e até militar, como já aconteceu no passado.

Soldado vigia estreito de Taiwan, nas ilhas Matsu  (Foto: Reprodução)Soldado vigia estreito de Taiwan, nas ilhas Matsu  (Foto: Reprodução)3 grandes crises entre China e EUA por Taiwan

Primeira crise do estreito de Taiwan (1954-1955)

Ocorreu logo depois da Guerra da Coreia (1950-1953), quando os Estados Unidos consideravam que o estreito de Taiwan, que separa a China continental da ilha, deveria permanecer neutro.

Em agosto de 1954, decidido a reconquistar o território continental, o Kuomintang destacou tropas para as pequenas ilhas de Quemoy e Matsu — muito próximas do litoral do continente.

As hostilidades somente cessaram quando os Estados Unidos anunciaram publicamente sua disposição de utilizar armas nucleares contra a República Popular da China para defender Taiwan

Líder nacionalista Chiang Kai-shek passa em revista tropas norte-americanas (Foto: Reprodução)Líder nacionalista Chiang Kai-shek passa em revista tropas norte-americanas (Foto: Reprodução)Segunda crise (1958)

Mao Zedong retomou os bombardeios de Quemoy e Matsu em 1958, com a intenção de expulsar dali as tropas nacionalistas e retomar o controle das ilhas.

Isso reativou o conflito e o então presidente norte-americano, Dwight Eisenhower, pressentiu que, se os comunistas tomassem aqueles pequenos arquipélagos, poderiam acabar invadindo Taiwan. Eisenhower então decidiu apoiar e reforçar as tropas taiwanesas.

A Sétima Frota da marinha norte-americana, sediada no Japão, foi reforçada e seus navios ajudaram o governo nacionalista a proteger as linhas de abastecimento das ilhas.

As duas partes chegaram a um acordo muito curioso. Comunistas e nacionalistas se bombardeariam em dias alternados — um pacto que evitava a escalada do conflito. Muitas vezes, eles lançavam apenas folhetos de propaganda.

Esta situação prolongou-se até 1979, quando os Estados Unidos reconheceram a República Popular da China e estabeleceram relações diplomáticas com o governo de Pequim.

Soldados taiwaneses apontam um canhão para a China nas ilhas Matsu (Foto: Reprodução)Soldados taiwaneses apontam um canhão para a China nas ilhas Matsu (Foto: Reprodução)Terceira crise (1995-1996)

A última grande crise ocorreu em 1995, com a visita do então presidente taiwanês Lee Teng-hui à Universidade Cornell, em Nova York (Estados Unidos), onde ele havia estudado.

A China considerou essa visita uma traição norte-americana ao seu compromisso de respeitar o conceito de "uma só China".  O gigante asiático respondeu na época com meses de exercícios militares, lançando baterias de mísseis sobre as águas taiwanesas e até ensaiando uma invasão da ilha com meios anfíbios.

Já os Estados Unidos responderam com o maior deslocamento de forças militares na Ásia desde a Guerra do Vietnã. Navios de guerra norte-americanos chegaram a transitar pelo estreito de Taiwan.

No ano seguinte, nos dias anteriores à eleição presidencial taiwanesa de 1996, Pequim tentou amedrontar o eleitorado de Taiwan para que se abstivesse de votar em Lee Teng-hui, disparando outra rodada de mísseis. Mas a estratégia não funcionou. Lee venceu com 54% dos votos

Lee Teng-hui aplaudido em uma cerimônia na Universidade Cornell (Foto: Reprodução)Lee Teng-hui aplaudido em uma cerimônia na Universidade Cornell (Foto: Reprodução)