No Janeiro Branco, mês em que é relembrada a importância dos cuidados com a saúde emocional, especialistas voltam as atenções para as crianças e adolescentes - públicos que dia após dia continuam sofrendo com os impactos provocados pela pandemia. 

O cenário de intensas mudanças trouxe graves consequências, que incluem ansiedade e depressão. Dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) mostram que, no mundo, a depressão entre crianças na faixa dos seis aos 12 anos saltou de 4,5% para 8% na última década. O crescimento alarmante leva à outra consequência: o aumento dos suicídios.

Depressão infanil vem crescendo a cada dia - reproduçãoDepressão infanil vem crescendo a cada dia - reprodução

Detalhes comportamentais

Para a psicoterapeuta clínica Cláudia Aline, é preciso acompanhar os detalhes comportamentais no cotidiano para observar mudanças bruscas ou persistentes, não descuidar da qualidade do tempo que se convive com esse público, fazendo um investimento nas relações e no aprofundamento dos laços afetivos.

“Se os responsáveis perceberem problemas crônicos que não cessam e que estão além da sua compreensão, é importante contar com especialidades que podem auxiliar em um tratamento adaptado para as necessidades de cada pessoa, como o psicólogo e o psiquiatra. As demandas do mundo contemporâneo estão exigindo muito de todos nós e desse público também, é como se o mundo exigisse mais do que eles conseguem suportar em algumas situações. Um exemplo disso são os transtornos de ansiedade aumentando em crianças, a ida delas em psiquiatras e psicólogos com mais frequência quando foi preciso uma intervenção em crise nesse período”, declarou a especialista em Tanatologia.

 Saúde emocional

Ainda de acordo com a especialista há sinais precoces que podem ser prevenidos, garantindo que as crianças cresçam com saúde emocional. 

“Sinais depressivos, ansiedade crônica, reações emocionais desproporcionais, desequilíbrio emocional mais agravado em situações em que isso era ausente, dificuldade com o enfrentamento de desafios normais ao ponto de ter muito sofrimento psíquico, falta de autocontrole de forma contínua, isolamento constante, falta de interesse por hábitos que anteriormente eram prazerosos, falta de conexão com possibilidades que a vida pode oferecer, funcionamento mental rígido ou catastrófico, falta de flexibilidade para resolver problemas cotidianos, são sinais precoces que podem ser prevenidos e podem embasar ações preventivas se a decisão de cuidar de quem os sente não for adiada desnecessariamente ou não for adiada por um tempo arriscado para o tipo de situação”, acrescentou.

Cláudia Aline ressalta a importância de falar sobre o problema - DivulgaçãoCláudia Aline ressalta a importância de falar sobre o problema - Divulgação

Consolidação da prevenção é essencial

Cláudia Aline ressalta que o Janeiro Branco pode sensibilizar para o que inquestionavelmente está cada vez mais evidente e em pauta: a saúde mental da população, independente de idade.

No mês de janeiro é uma oportunidade para aprofundar a discussão sobre práticas que podem melhorar aspectos que podem fazer com que a saúde mental de crianças e adolescentes diminua ou não exista. Além disso, é essencial consolidar na cultura a prevenção em saúde mental, antes que transtornos mentais apareçam e/ou antes que o sofrimento psíquico se aproxime do intolerável.

"Precisamos ensinar esse público como evitar a ansiedade, por exemplo. É comum as crianças não saberem mais como se acalmar, conviver com múltiplos estímulos que geram uma ativação prejudicial do sistema nervoso. Temos que cuidar dos jovens para que eles saibam lidar melhor com as emoções e fazer com que eles entendam que a saúde mental vem em primeiro lugar. Não existe separação entre mente e corpo. Se a mente está doente, o corpo está doente em algum nível. E se o corpo está adoecido, a mente já estava também antes do problema aparecer. Por fim, essa atenção concentrada no mês de janeiro pode ser o início de uma conscientização mais aprofundada, com uma valorização durante todo o ano para questões que envolvem o autocuidado”, analisa. (W.B)

Ficar atento aos sinais nas crianças - reproduçãoFicar atento aos sinais nas crianças - reprodução

Oportunidade para ligar radar das emoções

A psicóloga Renata Bandeira explica que o Janeiro Branco é uma oportunidade para ligar o radar em relação aos transtornos mentais dos pequenos. Segundo ela, algo comum nas famílias é negligenciar as emoções e as necessidades dos filhos, ignorando birras, desobediência, comportamento opositor, intolerância às frustrações, apatia e desatenção.

“Na infância  e na adolescência são os momentos da vida, onde a pessoa começa a lidar com as emoções, com as consequências do comportamento, então a gente percebe que o aumento de números de transtornos mentais entre crianças e adolescentes vem aumentando, então, a atenção ao cuidado com a saúde mental desde a infância faz com que as pessoas criem consciências de valorizar os pequenos cuidados com a saúde mental e também direciona o que fazer em momentos onde existe necessidade de cuidar da saúde mental”, enfatiza.

Conforme Renata, o intuito do Janeiro Branco é conscientizar as pessoas da importância em relação ao cuidado com a saúde mental e também no combate da psicofobia, que é o preconceito aos transtornos mentais.  

Renata Bandeira fala sobre consciência do assunto - DivulgaçãoRenata Bandeira fala sobre consciência do assunto - Divulgação

“O Janeiro Branco faz com que as pessoas tenham consciência da importância do cuidado com saúde mental em crianças, em adultos e também saiba como ajudar, porque muitas vezes as pessoas têm ideias, de que por exemplo, ir em uma terapeuta holística,  na acupuntura ou coaching, vai ajudar nesses processos, mas não, quem são os profissionais capacitados, que estudaram anos para isso são o médico psiquiatra e o psicólogo, então é muito importante essas concretizações de quais profissionais deve procurar”, afirma.

Bem estar é indispensável

Diante dos sinais de alerta oferecer uma rede de apoio familiar é indispensável para garantir o bem-estar das crianças e adolescentes. Dessa forma, o diálogo, segundo Renata Bandeira, é a principal dica para ajudar os pais a lidar com os problemas emocionais dos filhos.

“Muitas vezes os pais são distantes da vida do filho, porque a criança tem um mundo próprio, ela vai na escola, tem os amiguinhos, tem os conflitos, então é interessante criar esse vínculo desde cedo, perguntar quem são os amigos, está inteirado sobre a vida da criança, mesmo que muitas vezes, isso se julgue dispensável.  É importante os pais terem esse vínculo de conversar, saber o que está acontecendo e saber acolher aquelas emoções que muitas vezes são desvalorizadas. Os pais não ouvem a criança que muitas vezes estão experienciando emoções pela primeira vez e não sabem lidar com isso, então é necessário que os pais expliquem o que estiver acontecendo, converse sobre as emoções e ensine os filhos a lidar com essas emoções através do exemplo e através da conversa, então, o que eu diria é conversar, dialogar, esclarecer”, pontuou.(W.B)