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Jorge Mello: Piauiense foi o maior parceiro de Belchior

Um talento piauiense pouco conhecido no Piauí fez com seu maior parceiro, Belchior, algumas das mais lindas canções da música popular brasileira. Músico, natural de Piripiri, conta mais sobre sua trajetória de sucesso

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Jorge Francisco de Carvalho Melo, conhecido em todo o Brasil como Jorge Mello, nasceu em Piripiri, cidade ao Norte do Piauí, no dia 27 de novembro de 1948. Um talento piauiense pouco conhecido no Estado, fez com seu maior parceiro, Belchior, algumas das mais lindas canções da música popular brasileira.

Iniciou a carreira na efervescência dos festivais de música das décadas de 60 e 70. Foi e ainda é “patrão” da música, atuando em empreendimentos comerciais ligados ao segmento. Mas, no substrato, um artista de inigualável talento, que tirou (e ainda tira) do violão suspiros de uma época riquíssima da produção fonográfica brasileira.

Crédito: Arquivo Pessoal

Além de artista, um acadêmico de três graduações. Afora dezenas de discos na bagagem, é bacharel em direito, atuando como advogado especializado em direitos autorais, além de ter cursado licenciatura plena em pedagogia. Na música ele formou em Composição e Regência, atuando como professor de três faculdades particulares de São Paulo.

De alma multitalentosa, também produz pintura e audiovisual. Atualmente vive com a esposa em um sítio no meio da floresta, onde ele garante comer o que planta. Em meio a um paraíso de matas virgens, ele prepara um novo álbum e defende os 50 anos e carreira com uma turnê em grande estilo.

Na última semana, um sonho realizado: tocar no Piauí. Em elogiada apresentação no Palácio da Música, Jorge Mello mostrou a força e a garra de um monstro da música, que traz no acervo canções inéditas que certamente ainda vão aquecer corações ao longo dos anos. Este é Jorge Mello, um artista de excelência, conteúdo, psicodelia e arte.


Jornal Meio Norte: Sua carreira começou em festivais. O que pensa do desprestígio por este tipo de evento atualmente?

Jorge Mello: Quando fiz 14 anos, ainda em Piripiri, e já músico, tive conhecimento dos Beatles e também dos festivais de música, e ouvi falar em Chico Buarque, Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso. E esse contato com a música desses jovens artistas, virou minha cabeça. Sonhava me tornar um músico também. Por isso busquei as oportunidades indo para Teresina, em 1965, e em fins de 1966 fui para Fortaleza, sonhando com o rádio e a TV. Em Fortaleza, participei de todos os festivais de música depois que lá cheguei. Eram três ao ano: o Festival promovido pela Prefeitura, um outro pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e o outro pela TV Ceará. Participei de todos e fui bem colocado, em alguns, entre os primeiros lugares. Eram oportunidades naqueles anos, porque a novidade do veículo, aproximava os artistas e os revelava para as gravadoras e para o grande público, em especial ao público estudantil. Hoje, com o surgimento de muitas outras oportunidades, tais como os bares, restaurantes, shows em faculdades, e até em shows nas ruas produzidos por entidades culturais ou governamentais, fez com que os festivais de música fossem perdendo sua importância, como tinham nos tempos de minha juventude. Agora, já não revelam tendências. O último festival em que participei foi em 1972. No Rio de Janeiro concorri no 5º Festival Universitário da TV Tupy, com minha música “Felicidade Geral”. E com essa canção conquistei o prêmio de "Melhor Intérprete" e "Maior Comunicação" naquele evento e fui contratado pela gravadora Poligran para gravar um álbum. Com esse álbum viajei todo o país e participei de centenas de eventos, hoje considerados clássicos da psicodelia brasileira. Nunca mais concorri a nenhum festival de música.

JMN: O senhor saiu de Piripiri e foi ao Rio de Janeiro ainda na década de 70. Isso colocou você perto do circuito?

JM: Saí de Piripiri, fui Diretor Musical da TV Ceará e depois fui contratado pela TV Tupy do Rio de Janeiro. E me relacionei com os maiores nomes da música e da TV brasileira. Criei e produzi a trilha da Novela João da Silva, que foi a primeira novela a ser projetada na Rede Globo em meados dos anos 1970. Também criei e produzi peças de teatro premiadas e montadas em várias capitais do país. Foram mais de 20 peças de teatro entre Rio e São Paulo. E também fiz cinema como ator e criador de trilhas musicais. Logo fui chamado para produzir os álbuns de muitos artistas para as gravadoras. E com essa experiência, montei a minha própria gravadora, editora e produtora de shows e eventos, em sociedade com Belchior, meu parceiro mais constante. Acho que não estava perto do circuito, mas sim, no centro do furacão. No olho do chamado circuito onde tudo acontece. 

JMN: Como chegou a parceiros como Belchior?

JM: Chegar às parcerias com o Belchior, foi lá no início. Muito antes de se pensar em ir para o "Sul Maravilha". Quando cheguei em Fortaleza em 1966,  me preparei para prestar o vestibular. Tentei Direito e meu irmão Emanuel Carvalho Melo prestou para Medicina. Isso em 1967. Ambos fomos aprovados e iniciamos uma nova vida. Éramos universitários da UFC. Um dia o Emanuel me falou que na sua turma, havia um carinha igual a mim, que passava o dia inteiro fazendo versos e tocando violão. E um certo dia ao chegar em casa no meu apartamento chamado República Estudantil, vi meu irmão estudando ao lado de um rapaz. Eu sentei no meu colchão no chão e comecei a tocar meu violão, como fazia sempre. O tal moço deixou o Emanuel e os estudos e sentou do meu lado. Era Belchior. Nunca mais nos largamos. 

Ao ir embora para o Rio de Janeiro em 1971, moramos juntos em Copacabana, eu, ele, Fagner e ainda o Cirino. Logo se juntou a nós minha mulher a Teca Melo e moramos juntos até 1973. Nesse ano, eu e Teca fizemos um filme em Pernambuco com Alceu Valença, Geraldinho Azevedo e Lula Côrtes e ao voltar ao Rio, vi que o Belchior havia se mudado para São Paulo. Entreguei as chaves do apartamento e também me mudei para lá, onde comecei a ensinar música em três faculdades e a produzir discos para as gravadoras. E em 1976, Belchior estourou no sucesso. Logo depois nos associamos em duas empresas: a Paraíso Discos, uma gravadora, e a Constelações, uma editora musical. Fomos sócios por 15 anos. Nesse período compomos muito. Criamos juntos 29 canções escritas em parceria, 23 delas foram gravadas e publicadas ou editadas, seis ainda são inéditas. Ele é o meu maior parceiro e eu sou o maior parceiro que ele tem, em volume de obras.

JMN: Como era sua relação com ele? 

JM: Nossa relação era de irmãos, muito mais que de amigos e sócios. Eu já tinha a Produtora JMT Produções e o selo Terramarear. Ele sabia de minha experiência na produção de discos, na formação em música e buscou me ter como sócio em uma empresa nossa. Essa minha experiência com certeza atraiu a atenção de Belchior. Que sendo o artista de sucesso popular que se tornou, não poderia cuidar de uma gravadora, uma produtora e uma editora musical sozinho, precisava de alguém com essa experiência. Então me convidou para ser seu sócio e eu me associei a ele na criação de nossa gravadora, a Paraíso Disco, tendo o Hélio Rodrigues Ferraz também como sócio no início. Depois de pouco tempo fiquei com suas quotas e a empresa se tornou minha e do parceiro Belchior. Devo informar que não fechei a minha própria empresa e que continuei a prestar os serviços de produção e criação de trilhas de publicidade, de cinema e de teatro na JMT Produções, novo nome dado à Terramarear, que já falei para você. Assumi a direção de produção de tudo que a Paraíso lançou ao mercado. Uma empresa não atrapalhava os objetivos da outra. 

JMN: O que pensa do sumiço pré-falecimento?

JM: Sobre o seu desaparecimento só posso dizer que a atividade na música e no mundo dos shows não é fácil. É uma carga muito pesada e muitas vezes pode nos pedir um tempo distante dessa loucura de shows para repor a carga e renovar as pilhas. Pode ter sido uma opção por esse descanso merecido e esperado. Eu, por exemplo, moro num sítio, tenho a vida de um índio, vivo no mato, pescando, cuido da terra e como o que planto e colho. Esse contato com a natureza, cria um fio-terra que facilita a administração dessa carreira de artista. Mas os que vivem em cidades e em hotéis levam uma vida mais dura e têm maiores estresses.

JMN: Sua discografia é extensa. Pensa em gravar algo novo? Se sim, como está esse processo?

JM: Estou no fim da escolha do repertório do álbum novo. Já escolhi oito das doze faixas que quero gravar. Quando monto um novo álbum, não o faço escolhendo canções que gosto, nem as que criei recentemente. Não! Entendo um álbum como um objeto que tem uma determinada cor. Veja que meu primeiro álbum gravado, foi o primeiro da história da música a gravar guitarras elétricas em forrós e em repentes nordestinos, gravei em 1972. Ele tem um corpo, lá revelo uma sonoridade nunca gravada antes. E isso está no livro da história do rock.  O terceiro álbum, tem em suas letras, as formas poéticas utilizadas pelos repentistas, tais como: martelos, gabinetes, décimas, quadrão, meio-quadrão, sextilhas, etc. Mesmo que as melodias sejam xotes, sambas ou até rocks. Nos textos há um compromisso formal e referências às formas populares dos improvisos dos repentes. Esse álbum chama-se Integral, lançado pela WEA em 1977. Então a cor dele é a forma poética de todas as faixas... O seguinte tem um compromisso com os timbres, somas de instrumentação nos arranjos. Um trovador eletrônico, apresenta os instrumentos eletrônicos e suas influências na música universal. Tais como sequencers, scanners, pedaleiras, distorções, essas coisas que mudam os timbres até então conhecidos e gravados.Digo isso para ser didático e poder explicar que o objetivo do disco novo é ter um produto acústico, contendo apenas violões, bandolins e violino e/ou rabeca e vozes! Então o repertório tem que  ser escolhido dentro da questão desse aproveitamento desses timbres acústicos. Logo gravarei.

JMN: Fale sobre a turnê de 50 anos de carreira. Como foi a escolha do repertório?

JM: Fui avisado por um amigo que meu primeiro contrato com a TV Ceará fazia 50 anos, no mês de abril desse ano. Ele é historiador. Fiquei muito feliz com isso. E passei a dizer isso aos que me procuravam no meu acervo e também a quem me escrevia. Até que formatei um repertório para festejar. Primeiro pensei em me mostrar por todos os lugares para demonstrar meu agradecimento. E depois cuidei do repertório. Interpreto canções que me deram orgulho por tê-las construído, sem levar em conta o fato de alguma delas ter ou não sucesso popular. São canções que posso contar do seu DNA, qual a matéria poética e musical utilizada e o que pretendia alcançar ao escrevê-las. E ficou um show cantado, mas também contado. Conto muito sobre as canções no show! E a platéia fica muito feliz e admirada com essas histórias do nascimento dessas canções.

Crédito: Arquivo Pessoal


JMN: O senhor vive atualmente em São Paulo. Sente saudade do Piauí? Tem familiares aqui?

JM: Morei na capital paulista por mais de 40 anos, mas agora estou no que se convencionou chamar de "Grande São Paulo", que são os municípios que estão agregados à zona urbana da capital. Moro em um sítio no Município de Embu-Guaçu. Um lugar muito bonito no meio da Mata Atlântica reservada, e lá convivo com os animais diariamente e planto minha própria comida. Acaba de passar um bando de quatis, mais de vinte deles. É assim o dia inteiro. Moro só com minha mulher Teca Melo. E para lá transferi o meu acervo de memórias da carreira. Memórias estendidas também a todos que têm relação comigo: parceiros, músicos, colegas de shows. Hoje o acervo tem mais de 50.000 documentos originais. É visitado por acadêmicos na procura de escrever seus trabalhos como monografias, mestrados e teses, assim como procurado por jornalistas para concluir suas matérias sobre música e também por cineastas e outros interessados. Não cobro nada, a visita é gratuita, porque entendo que o que guardei pertence à cultura brasileira e que eu sou apenas o guardião. Muitos livros do que se escreve sobre música, nasceram dentro de meu acervo, ou com material colhido nele. Sobre o Piauí. Meus parentes são muitos, os amigos também e muitos estão em minha terra. Adoro Piripiri, que trato carinhosamente como "Meu Parque de Diversões". Adoro minha terra e minha gente. E os da minha geração conheço todos e os trato pelo nome.

Arquivo Pessoal


JMN: Como foi tocar aqui recentemente?

JM: Tocar no Piauí foi um sonho, uma maravilha para mim. Eu nunca entendi a razão de minha música ter chegado pouco à minha terra, também não entendi a razão de ter sido chamado poucas vezes para shows.  Mas dessa vez tive o apoio dos amigos Vagner Ribeiro e do Wilson Seraine, e pude realizar esse sonho de cantar para minha gente no Palácio da Música. Adorei. O show foi lindo! Vou pelo menos duas vezes ao ano tocar em Fortaleza, Brasília, Rio Grande do Sul, Florianópolis e tantos outros lugares, mas não despertei o interesse dos empresários e promotores de eventos de minha terra. Agora mesmo vou a vários lugares levando esse show atual, mas, tenho o convite de um grupo de pessoas para ir a Piripiri. Espero que aconteça.


JMN: O que pensa da música brasileira contemporânea? Sertanejo, funk, "lacração" e estilos em voga.

JM: Sobre a música brasileira, não posso falar desses estilos da moda citados por você nessa matéria, porque não os conheço. Mas posso falar da área em que atuo, como compositor, cantor, maestro, produtor, e até como músico, que é a MPB. E ela sempre esteve bem. Trabalhos como o de Zeca Baleiro, Chico César, Fagner, Tom Zé, Alçeu Valença, Ednardo, eu conheço e acompanho. Tenho tudo daqueles que se relacionaram comigo. Mas nada sei desses estilos da moda que são tão populares. Também nada sei do pagode, mas, sei tudo do Paulinho da Viola, do João Gilberto, Beth Carvalho e outros amigos queridos. Então nessa sua pergunta, vou deixar de me manifestar por não ter conhecimento da matéria.

JMN: O Brasil vive um momento instável politicamente no que diz respeito à cultura. O que pensa da conjuntura política do Brasil? Já vivemos tempos semelhantes?

JM: Sou um ser cultural, não sou um ser político. Mas, como todo brasileiro, temos conhecimento do que se passa e acontece. Eu nunca fiz um só show político, e  muitas vezes em shows meus, em grandes praças, como na Praça da Sé em São Paulo ou no Parque do Ibirapuera, e outros grandes eventos públicos e abertos, subiram políticos em meu palco. Todas as vezes que isso aconteceu, eu parei o show e desci do palco. Não gostaria de que a pessoa que me ver cantar da última fila, lá do meio da multidão, pudesse imaginar que o pensamento daquele político, seja o meu. Também não discuto, não me meto, não xingo, nem me manifesto sobre o assunto. Só falo de arte, e cultura, em especial de música!

JMN: O senhor viveu a censura. Como foi passar por este período?

JM: Nos tempos da censura aos textos de música, teatro e cinema, eu sofri como todos os outros artistas contemporâneos. Fui vítima nessas três áreas da criação artística. Tive dezenas de obras minhas censuradas. Meu acervo guarda todas para mostrar aos estudiosos atuais da matéria. Tive censura em meus textos musicais, as letras de música, também nos textos de meus parceiros musicais, nos textos de peças de teatro e também em trilhas para cinema que escrevi naqueles dias difíceis. Acontecia comigo o que acontecia com todos os de minha geração.

JMN: A censura está retornando de forma institucionalizada, através de recursos judiciais. O que o senhor pensa sobre isso?

JM: Sou um libertário, e por isso contra a qualquer tipo de censura. Considero a arte uma manifestação livre do pensamento e da inteligência humana. E ela deve chegar às gerações futuras, como foi concebida, produzida, enfim, como foi criada!

JMN: Para você, o que significa ser um compositor de sucesso?

JM: Eu não saberia ser outra coisa, porque só sei fazer isso. Sou incompetente para toda e qualquer coisa que não seja a arte. Me dedico o tempo todo à música, à poesia, à pintura, nas suas técnicas pintura a óleo sobre tela, pintura de acrílico sobre tela, de tinta guache sobre papel, e tinta ecoline e nanquim também sobre papel. Me dedico ao desenho com giz colorido, bastão de cera ou com grafite e até com caneta bic comum. E agora me dedico ao acervo, disponibilizando a estudantes, jornalistas, cineastas e outros pesquisadores. Não intercedo. Só disponibilizo os documentos! Mas, fico muito emocionado ao ouvir minha música no rádio, nas vozes de grandes intérpretes. Me emociona ouvi-la no cinema, e na TV. É como ter a certeza de que cumpri o meu papel de artista, e escolhi o caminho certo para o meu destino. A música me deu tudo que tenho, a vida que tenho. Também ela, a música, me levou aos mais lindos lugares, me fez conhecer e me aproximar das mais maravilhosas pessoas. Sou muito grato à minha música! E grato a você por essa oportunidade de me manifestar nessa entrevista.


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