Oficial das Forças Armadas denuncia ataques homofóbicos de colegas

Um quarto dos casos envolve agressões

Na sala do comando, o oficial se sentou no banco à frente do superior hierárquico. Pediu licença e começou a explicar, sem encarar o interlocutor nos olhos, que não poderia comparecer a uma prova importante no currículo militar. Ao fim da explanação, pediu para fazer a segunda chamada. O comandante perguntou o motivo da falta. Envergonhado, respondeu que estava fazendo um curso na área artística e, para se formar, teria que comparecer a um evento justamente na data do exame. Após alguns segundos em silêncio, o superior bufou e, enfim, mandou que o subalterno se retirasse: “Um militar fazendo curso de artes? Onde já se viu...”

Hoje, duas décadas depois, ele narra a cena com uma expressão tranquila. Mas lembra o quanto sofreu, ao longo de 30 anos de carreira, por ser homossexual: punições sem motivo, conceitos baixos que recebeu mesmo com conduta irrepreensível e perseguições veladas de comandantes.

Foi quando chegou ao topo da hierarquia militar, entretanto, que o oficial foi vítima da agressão mais grave que já sofreu na corporação: este ano, ele denunciou à polícia uma série de ataques homofóbicos feitos na internet por colegas de farda. O registro feito pelo oficial é um dos 201 crimes de ódio ocorridos no estado entre janeiro e junho de 2017. Quase metade dos casos têm como motivação a homofobia.

— Nas redes sociais, o preconceito é aflorado porque as pessoas se sentem mais à vontade para falar certas coisas. Mas não aceito. Fiquei muito chateado, me senti impotente. Até agora fico pensando no que fazer para corrigir isso — contou o militar, que pediu para não ser identificado.

Nas publicações, colegas de farda usaram expressões depreciativas para atacar a orientação sexual do militar, que mantém um relacionamento de duas décadas. Até o ano passado, o oficial — nascido em família evangélica e filho de pai também militar — não havia assumido a união para a corporação. Só incluiu como dependente o companheiro, que conheceu fora das Forças Armadas, quando chegou ao ápice da carreira:

— Nós tínhamos medo. Ele achava que eu poderia me prejudicar. Mas não tenho problema de dizer que sou gay. Se perguntam, eu confirmo. Digo que tenho companheiro, uma relação estável. Hoje, é algo aberto na minha vida. Me assumi para mim e para as pessoas de quem gosto. Sou feliz, a despeito de preconceito, e constituo uma família como outra qualquer.


Um quarto dos casos envolve agressões

Lucas Pinheiro, de 28 anos, e Pedro Miranda, de 39, vivenciavam, no início da madrugada de 17 de março, os últimos minutos de um primeiro encontro no qual tudo havia corrido bem. Da Lapa, caminharam juntos por algumas centenas de metros, até o Bairro de Fátima, de onde cada um seguiria para a própria casa. Enquanto os dois se despediam com um prosaico beijo, porém, a noite agradável entre duas pessoas que sentem atração mútua transformou-se em pesadelo. Os ataques começaram com um taxista, que se aproximou, baixou o vidro e disse que, se os rapazes não deixassem o local, sofreriam uma “surra com pedaço de pau”, como consta no registro de ocorrência. O grupo de agressores logo cresceu, juntando mais de dez pessoas, todas repetindo que ali era um “ambiente de família”. Pouco antes de a expulsão se concretizar, em meio a chutes e empurrões, Lucas recebeu um soco certeiro na boca.

— A sequência de mais gente nos cercando, sem ninguém a nosso favor, foi assustador — lembra o economista Pedro.

A violência sofrida pelo casal reforça uma estatística macabra de homofobia no estado do Rio. Entre os 95 casos levantados , 24 incluem o crime de lesão corporal — em outras palavras, uma a cada quatro vítimas sofreu até mesmo violência física exclusivamente por conta de sua sexualidade. Alessandra Oliveira Senna, de 20 anos, engrossou essa lista ao ser alvo de uma sessão de espancamento há um mês e meio, próximo à Central do Brasil.

A massoterapeuta, de 20 anos, voltava de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e iria embarcar rumo a Maricá. Com o cabelo curto e trajes considerados masculinos, mas que usa desde a adolescência, ela foi abordada por quatro rapazes. “Não quer ser homem? Então tem que aguentar porrada”, avisou o bando, que ainda levou o celular da jovem — na delegacia, inclusive, o ataque acabou registrado apenas como “roubo a pedestre”. Como se não bastasse, ao ser atendida no hospital, Alessandra ouviu um conselho inesperado de outra paciente: “Quando for assim, tenta botar uma peruca, vestir uma roupa mais feminina”.

‘Comecei a pensar: será que sou mesmo abominável?’

Depoimento da massoterapeuta Alessandra Senna, de 20 anos

"Foi do nada. Eu desci no terminal Américo Fontenelle, atrás da Central do Brasil, e fui em busca de informações para pegar um ônibus rumo a Maricá. De repente, eles vieram. Eram quatro caras. Começaram a me insultar e a me espancar. Eu só me protegi. Quando aquilo acabou, desesperada, pedi ajuda. Ninguém me ajudou. Fiquei com hematomas na cabeça e, ao chegar no hospital, escutei de uma senhora a sugestão de usar peruca na rua para não voltar a ser agredida. Quando contei sobre o fato para uma amiga minha, ouvi da tia dela: “Pelo jeito, você ter apanhado não adiantou, né?”. Comecei a me sentir com medo, acuada. Nunca mais passei na Central. Não foi a primeira agressão que sofri e sei que não será a última. Uma vez, fiz sinal para o ônibus e o motorista parou. Quando virei o rosto para dar um beijo de despedida na minha namorada, ele acelerou. Outra vez, uma mulher quis me proibir de entrar no banheiro feminino por causa da minha roupa e do cabelo curto. Quando acontecem essas coisas, você demora um pouco a entender. Comecei a pensar: será que realmente sou abominável? Passei a ter dúvidas se o problema eram os outros ou eu. Mas não me deixei levar. É isso que sou — relata a jovem."

Pai asfixiou o filho com fio de ferro de passar

A homofobia, no Rio, começa em casa. Parentes da vítima representam 20% dos agressores identificados nos registros de ocorrência, perdendo apenas para os vizinhos. Não por coincidência, o percentual de casos ocorridos na própria residência da vítima ou no lar de familiares e amigos chega, no total, a 40%.

Em abril, na Baixada Fluminense, o pai de um rapaz que dormia com o namorado iniciou um ataque ao se deparar com o casal. Além de socos, chutes e tapas, o agressor tentou enforcar o filho “com um fio do ferro de passar roupa”, tal qual o informado na 58ª DP (Posse).

Em fevereiro, outro caso envolvendo parentes ocorreu em Olaria, na Zona Norte do Rio. Na denúncia à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), a irmã do autor contou ter sido alvo, na presença da mãe, de um soco no rosto. Durante o ataque, o homem repetia ofensas homofóbicas para a jovem lésbica.

   

Fonte: Com informações do Jornal Extra
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