Por desfile, empurrador de carros alegóricos fica acordado 24 horas

Erro em manobra pode representar perda de pontos para a escola

As alegorias são a parte mais visível das escolas de samba que desfilam na Marquês de Sapucaí. Mas o que nem todo mundo sabe é que, por trás desses gigantes que encantam milhões de pessoas em seus desfiles no Sambódromo, há um exército de dezenas de pessoas. São os empurradores de carros alegóricos.

Pessoas que trabalham por horas seguidas, para garantir que as alegorias se desloquem do barracão da escola de samba, onde são confeccionados, na zona portuária, até o Sambódromo, no centro da cidade. Na manhã deste sábado (25), por exemplo, um exército de 85 empurradores trabalhava arduamente para posicionar os carros alegóricos da Unidos do Porto da Pedra, escola de samba de São Gonçalo, que será a última a desfilar, na madrugada de amanhã (26), pelo grupo A, a divisão de acesso ao grupo especial.

Empurradores da Porto da Pedra tentam posicionar carros alegóricos antes de desfile da madrugada deste domingo (26) (Crédito: Reprodução)
Empurradores da Porto da Pedra tentam posicionar carros alegóricos antes de desfile da madrugada deste domingo (26) (Crédito: Reprodução)

Neste grupo, que reúne 14 escolas, as agremiações precisam apresentar até quatro carros alegóricos se quiserem vencer a disputa e desfilar pelo grupo de elite do carnaval carioca em 2018.

Com mais de 30 anos dedicados ao carnaval, Gilmar dos Santos, o Mazinho, é o coordenador-geral dos empurradores da Porto da Pedra. Era ele que, na manhã de hoje tentava posicionar os gigantes para o desfile que deve começar depois das 2h de amanhã.

Quem o via hoje, cheio de disposição, vestindo apenas uma bermuda vermelha, não conseguia imaginar que Mazinho estava trabalhando desde as 19h de ontem (24), quando reuniu os empurradores na quadra da escola, em São Gonçalo.

Mazinho e sua equipe partiram da quadra da escola, localizada a 25 quilômetros do barracão, na zona portuária do Rio, por volta das 20h. À 1h de hoje, eles começaram a empurrar os carros alegóricos até o Sambódromo. Às 8h30, eles ainda tentavam contornar o principal obstáculo com seu carro abre-alas: manobrar 180 graus em uma ponte sobre o Canal do Mangue.

Como qualquer gigante, não é fácil manobrar um carro de mais de 10 metros de comprimento. Na hora de fazer a primeira curva, os empurradores não conseguiram posicionar o carro de forma adequada. A solução? Empurrar para frente e para trás, até que se consiga um ângulo correto para o carro entrar na ponte.

E lá vai Mazinho. Mais de 12 horas depois de começar sua jornada, ele precisa deitar no chão para verificar a posição dos pneus, gritar com seus subordinados e ajudar a empurrar o gigante. É preciso ter cuidado para os fundos do carro não se chocarem contra um abrigo de ônibus. Por isso, dois empurradores sobem no teto do abrigo e gritam quando os fundos do carro se aproximam demais do obstáculo.

Apesar de serem praticamente invisíveis para quem assiste o desfile nas arquibancadas ou pela TV, os empurradores têm uma grande responsabilidade. Um erro em uma manobra como esta pode ser fatal. Quebrar um carro alegórico, faltando menos de 24 horas para o desfile da escola pode significar a perda de pontos cruciais e, com isso, o indesejado rebaixamento para o grupo B, a terceira divisão do carnaval, que sequer desfila no Sambódromo.

Mas, mesmo depois de colocar todos os carros na posição certa para o desfile. O trabalho de Mazinho e de parte de sua equipe não estará terminado. Ele precisa tomar conta dos carros até que o desfile comece.

Quando chega a hora do desfile, os carros se movem por conta própria, já que eles são motorizados. Mas Mazinho e seus quatro principais subordinados precisam cuidar para que tudo dê certo, inclusive para que os carros façam a última grande manobra: a curva entre a Avenida Presidente Vargas (onde ficam estacionados) e a Marquês de Sapucaí.

“É um trabalho cansativo, mas é gratificante. Você olha para cada senhora, que tem anos desfilando pela escola, você olha para cada criança, para a bateria, para um mestre-sala e porta-bandeira e para o restante da escola que se empenhou o ano inteiro. É muito gratificante participar disto. Eu estou confiante no título. Se cada um fizer sua parte, a escola vem bonita. É só chegar na apuração, dar aquele sorriso bonito e comemorar”, disse.

E se engana quem pensa que o trabalho de Mazinho se encerra quando o último carro alegórico cruza a linha de chegada, na Praça da Apoteose. Depois disso, os empurradores precisam levar os carros de volta ao barracão, já que largar as alegorias no meio da rua, depois do desfile, também pode acarretar perda de pontos.

Fonte: Com informações da Agência Brasil