O coração do primeiro imperador do Brasil, Dom Pedro I, atravessou o Atlântico em um avião militar para uma exposição temporária em sua casa adotiva. Muito depois de sua morte, o órgão do monarca do século 19 permaneceu na Igreja da Lapa, na cidade do Porto - mantido intacto em um recipiente de vidro.

O especial “200 Anos - Bicentenário da Independência”, produção do Grupo Meio Norte de Comunicação (GMNC), visitou a Igreja da Lapa no início do ano e contou a história do patrimônio português guardado a cinco chaves. A jornalista Cinthia Lages conversou com Francisco Ribeiro da Silva, historiador da Irmandade Nossa Senhora da Lapa. Ele explicou que foi Dom Pedro, pouco antes de morrer, quem pediu que seu coração fosse retirado do corpo e levado para a cidade de Porto.

Cinthia Lages entrevista Francisco Ribeiro Da Silva (Foto: reprodução)Cinthia Lages entrevista Francisco Ribeiro Da Silva (Foto: reprodução)

“Na véspera de sua morte, ele fez uma espécie de testamento oral que depois foi passado por escrito em que ele dizia: 'brasileiros, eu vos deixo ficar o melhor de mim mesmo, que é o meu filho [Dom Pedro II]. Quanto ao meu coração, ele ser entregue a cidade do Porto, teatro da minha verdadeira glória'. Dom Pedro era um Bourbon, que tinha como regra oferecer o oração a uma cidade ou instituição”, disse Francisco.

Protegido pelos Guardiões da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, são necessárias cinco chaves para acessar o coração preservado por 187 anos. De dez em dez anos (a última vez foi em 2015), a Prefeitura do Porto realiza a troca do líquido – uma solução mista de formol – usada para a conservação do coração.

O especial “200 Anos - Bicentenário da Independência”, produção do Grupo Meio Norte de Comunicação conta histŕia do coração de Dom Pedro I (Foto: reprodução)O especial “200 Anos - Bicentenário da Independência”, produção do Grupo Meio Norte de Comunicação conta histŕia do coração de Dom Pedro I (Foto: reprodução)“De início, periodicamente, os professores qualificados das faculdades de medicina e farmácia eram convidados para verificar o estado do coração de Dom Pedro. Aliás, foi um grupo de professores que descobriu que o coração não ficava bem só dentro dos recipientes de prata, mas que poderia ficar dentro de um recipiente de vidro onde os líquidos pudessem fazer o seu efeito de maneira mais hermética”, contou.

Segundo Francisco Ribeiro da Silva, presidentes brasileiros costumam visitar a Igreja da Lapa em símbolo à liberdade dos países írmão. O presidente Jair Bolsonaro ainda não cumpriu a tradição ao longo do seu mandato.

As negociações propostas pelo Itamaraty para a vinda do coração ao Brasil começaram em fevereiro deste ano, em função das comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil, comemorado em 7 de setembro. De início, os peritos do Instituto Médico Legal da Universidade do Porto hesitaram– do ponto de vista técnico – chegada do órgão, “que está frágil”. Depois, houve uma votação na Câmara Municipal do Porto, onde a viagem foi autorizada por unanimidade.

Esta não é a primeira vez que os restos mortais de Dom Pedro I são apresentados nas comemorações da Independência do Brasil. Em 1972, durante a ditadura militar, parte dos ossos do imperador foram expostos em várias cidades brasileiras, antes de serem depositados no Monumento da Independência, em São Paulo.

Dom Pedro I

Dom Pedro nasceu em 1789 na família real de Portugal, que na época também governava o Brasil. A família fugiu para a então colônia portuguesa para escapar do exército invasor de Napoleão. Quando o pai de Dom Pedro, o rei João VI, retornou a Portugal em 1821, ele deixou o jovem de 22 anos para governar o Brasil como regente.

Um ano depois, o jovem desafiou o parlamento português, que queria manter o Brasil como colônia, e rejeitou sua exigência de que ele voltasse ao seu país de origem. Em 7 de setembro de 1822 ele emitiu a declaração de independência do Brasil e logo depois foi coroado imperador.

Voltou a Portugal para lutar pelo direito de sua filha de ascender ao trono português e morreu aos 35 anos de tuberculose. Em seu leito de morte, o monarca pediu que seu coração fosse retirado do corpo e levado para a cidade do Porto, onde está guardado em um altar na igreja de Nossa Senhora da Lapa.

Seu corpo foi transferido para o Brasil em 1972 para marcar o 150º aniversário da independência e foi mantido em uma cripta em São Paulo.