Pela primeira vez, uma emissora de televisão realizou um projeto para abordar a histórica relação Brasil e Portugal sob a perspectiva do Piauí. Há aproximadamente 10 meses, foi lançada a ideia de desbravar um país europeu e cidades piauienses em referência ao Bicentenário da Independência Brasileira.

A equipe de jornalismo da TV Meio Norte abraçou o desafio de construir uma narrativa baseada em visitas a 9 cidades piauienses e a outras 9 portuguesas que têm o mesmo nome. Foram duplas de cidades homônimas separadas pelo oceano Atlântico: Amarante, Batalha, Marvão (primeiro nome da cidade de Castelo do Piauí), Campo Maior, Juromenha, Oeiras, Porto, Nazaré e Valença.

Equipe je jornalismo da TV Meio Norte (Foto: reprodução)Equipe je jornalismo da TV Meio Norte (Foto: reprodução)A premissa do especial "200 Anos - Bicentenário da Independência” foi mostrar e vivenciar a forte influência portuguesa sobre a cultura piauiense, especialmente a religiosidade. No dia 20 fevereiro, o cinegrafista Danilo Romero e a jornalista Cinthia Lages embarcaram rumo ao país português, onde passaram cerca de 30 dias em um trabalho de consulta sobre a história e a cultura lusitana.

Neste dia 7 de setembro, um marco para história do Brasil, a TV Meio Norte exalta a cultura do povo piauiense e seu protagonismo na Independência do Brasil. Cinthia Lages abre a nova exibição do projeto diretamente do Museu do Piauí, localizado em Teresina. No espaço que respira a história da comunidade piauiense, as reportagens que complementam conhecimentos sobre o estado serão apresentadas ao telespectador em três horários: a primeira exibição será às 08h30, a segunda às 15h30 e a terceira às 20h.

De acordo com o diretor de jornalismo da TV Meio Norte, Marcos Monturil, o especial "200 Anos - Bicentenário da Independência” quis criar uma ponte a partir da história contada da Independência do Brasil, mostrando os vínculos culturais e históricos entre os dois povos.

“O Grupo Meio Norte de Comunicação sempre deixou claro que iria romper as barreiras do Piauí. Nosso objetivo nos onze anos foi justamente concretizar a ideia de ir cada vez mais longe, de dar ao telespectador uma cobertura que vai além da televisão local”, falou.

A jornalista Cinthia Lages ressaltou que o contato com historiadores, artistas e especialistas de diversas áreas resultou em um conteúdo singular e inovador na televisão regional.

“Entre o planejamento, produção, gravação e exibição foram 10 meses de um projeto inovador e pioneiro, que viajou de norte a sul do país europeu. Produção feita por piauienses para integrar dois povos, suas culturas e tradições” disse a jornalista.

Responsável pelas imagens que capturaram a beleza das cidades homônimas, Danilo Romero expressou felicidade por ajudar a construir conhecimento para a televisão. “Foi uma experiência transformadora, um trabalho detalhista e importante para nossa história. Sinto muito orgulho por fazer parte e ajudar a mostrar a relação entre Piauí e Portugal”, contou.

Acesse aqui o conteúdo completo no YouTubeAcesse aqui o conteúdo completo no YouTube

Cidades visitadas

Marvão/Castelo do Piauí

Um nome partilhado entre a aldeia da região do Alentejo, em Portugal, e a cidade de Castelo do Piauí, que antes também se chamava Marvão. O termo, que vem do árabe, “Ibn Marwan al-Yil·liqui”, que significa, “Filho do Galego”, deriva do nome próprio do fundador do Reino Antigo de Badajoz. Entre a terrinha de lá e a de cá, muitas belezas e personalidades de povos irmãos com culturas que se complementam.

Pouco mais de 500 pessoas vivem em Marvão de Portugal. Por lá, o artesanato em madeira de castanheira é uma das principais atividades dos moradores.

Na Igreja de Santa Maria, que abriga o Museu Municipal em Marvão, estão expostos um acervo de peças que ajudam a entender a vida na aldeia. De uma bolinha de sabão usada como anticoncepcional até a arte sacra, muito é revelado nas imagens da reportagem. Por lá, as noivas casavam de preto.

Mais acima, no Castelo de Marvão, erguido no alto da serra, o professor Jorge Oliveira explica que as ocupações fazem parte da ancestralidade da região. A fortaleza, construída no Século IX, conta com canhões apontados para a região da Espanha, além de uma grande cisterna.

Embora a cidade tenha mudado de nome, de Marvão do Piauí para Castelo do Piauí, ainda existem referências à alcunha antiga. "Castelo do Piauí não tinha uma data de aniversário definida. Então fizemos um resgate dos documentos e encontramos escritos que falam da data de 13 de setembro. Fizemos história", revela Maria Ivanildes, pesquisadora da cidade.

A cidade, uma das mais antigas igrejas do Piauí: a Paróquia de Nossa Senhora do Desterro. Marvão mudou de nome há 74 anos, mas ainda existem menções à antiga Alcunha. A famosa Pedra do Castelo lembrou o Castelo de Marvão, daí o primeiro nome de batismo do município que abriga o Cânion do Poti.

A Pedra do Castelo trata-se de um monumento geológico no meio da caatinga. O local lembra uma fortaleza medieval com torres e salões. A estrutura data de 260 milhões. O local é composto por quatro grandes salões que originaram a Vila de Marvão no Piauí. A área, cercada por misticismo, já foi usada como cemitério e templo religioso. Por lá, foi encontrada uma imagem de Nossa Senhora do Desterro em arenito. A santa desaparecia e retornava ao local, até que um dia ela foi trancada em um baú e desapareceu.

O intercâmbio entre Marvão do Piauí e Marvão de Portugal já havia acontecido. As cidades já fizeram um intercâmbio, onde castelenses foram até Portugal e marvanenses foram ao Piauí. As cidades também compartilham a geografia, sendo banhadas por rios.

Campo Maior

A portuguesa Campo Maior, uma vila situada ao Sul do país com aproximadamente 8 mil habitantes, nasceu da vontade de três famílias camponesas que resolveram formar uma comunidade na fronteira com a Espanha.

No Piauí, Campo Maior é uma cidade conhecida pela culinária, festas populares e por um episódio importante da história do Brasil: a Batalha do Jenipapo. Situada a 90 quilômetros ao Norte de Teresina, foi um dos primeiros povoamentos reconhecidos pela Coroa Portuguesa na então província do Piauí.

“Essa é a primeira reportagem que vai ao ar depois da viagem e depois de todo o processo de edição - que também é muito difícil, para deixar tudo pronto. Começamos muito bem, por Campo Maior, uma cidade que conversa muito com o bicentenário, porque teve um papel importante por conta da Batalha do Jenipapo e porque a vila de Campo Maior tem muitas histórias, também, de resistência e resiliência do povo. Eu creio que são duas populações que, embora separadas geograficamente, têm muito em comum em termos de se reinventar após situações de dificuldade”, revela Cinthia Lages.

Ao contrário da "nossa" Campo Maior, a portuguesa não tem carne de sol, mas produz milhões de litros de vinhos que são apreciados em todo o mundo. A vila de Campo Maior fica no distrito de Portalegre e possui cerca de 7 mil habitantes. A produção de vinhos é o forte da região, que produz rótulos que são apreciados em todo o mundo, inclusive o Brasil.

Oeiras

Oeiras também dá nome a uma linda cidade portuguesa do outro lado do Oceano Atlântico. O termo "Oeiras" vem do latim e significa "minas de ouro".

E o maior ouro entre Oeiras do Piauí e Oeiras de Portugal é a educação, ferramenta transformadora que é analisada sob diversos prismas a partir do olhar atento da jornalista Cinthia Lages. A equipe de jornalismo percorreu 6.103 km, de uma "mina de ouro" para outra.

A reportagem mostra a Oeiras de Portugal, que integra a região da grande Lisboa e aliou educação e tecnologia para vencer desafios. Mas sem perder o foco de defesa do patrimônio e cultura.

Quem não diria que são cidades irmãs? Tanto que a Oeiras de Portugal recebeu a Oeiras do Piauí em um grande evento chamado Travessia das Letras, que reuniu mil crianças de 26 escolas de Portugal.

Juromenha

Juromenha, em Portugal, é uma freguesia portuguesa do concelho do Alandroal, com 33,05 km² de área e 146 habitantes (2001). Tem o nome alternativo de Nossa Senhora do Loreto. Antigo concelho de Portugal extinto em 1836, tendo como freguesias: Matriz de Juromenha, São Brás dos Matos e Vila Real (esta última, desde 1815, de jure mas não de facto).

Localizada na extremidade nordeste do concelho, a freguesia de Juromenha tem por vizinhos a freguesia de São Brás dos Matos a sul e oeste, os municípios de Vila Viçosa a noroeste, Elvas a norte e o Território de Olivença a sudeste. É a mais pequena (6ª) freguesia do concelho quer em área, quer em população, quer em densidade demográfica.

A história de fundação de Jerumenha, no Piauí, data do século XVII, quando em 1676 o governo de Pernambuco concede ao português Francisco Dias D ‘Ávila um extenso domínio de terra, incluindo o território do atual município, para que ali se estabelecesse uma fazenda de gado. Para lá o sesmeiro conduziu da Bahia notável contingente de índios domesticados destinados a servirem e defenderem as fazendas, que em pouco tempo foram contabilizadas 65.

Com isso, o povoado começou a crescer, alcançando relevância política no território. Através da Carta Régia de junho de 1761, o povoado, antes denominado Arraial de Garcia d’Ávila, foi elevado à categoria de vila, com o nome de Jerumenha, em homenagem à terra natal portuguesa de Francisco D’Ávila. Por fim, em 1890, já na República Velha, por decreto estadual, foi elevada à condição de cidade.

O nome da cidade de Jerumenha mudou a grafia ao longo dos anos, como apontam os historiadores. Antes a localidade também se chamava Juromenha, como em Portugal.

Amarante

Amarante, Portugal, é uma pequena cidade no distrito do Porto, no Norte do país. Em sua história, o beato Gonçalo de Amarante, conhecido popularmente como São Gonçalo, foi uma figura de grande importância. Afinal, após a sua chegada, na Idade Média, a cidade se tornou alvo de peregrinações. Isso porque o povo o elevou à categoria de santo.

Também foi quando Amarante teve construída a sua icônica ponte. Posteriormente vieram a Igreja e Convento, no local da ermida que ele ergueu.

Séculos depois, em 1809, o vilarejo passou por outro acontecimento marcante. Napoleão Bonaparte e tropas francesas invadiram Amarante, que foi palco de uma heroica e improvável resistência, conhecida como Defesa da Ponte de Amarante. Tanto que com a grande repercussão as casas incendiadas pelos franceses foram reconstruídas. Atualmente, Amarante é uma joia turística, onde se destacam a beleza, o charme e a gastronomia.

A cidade de Amarante, localizada na região centro-sul do Piauí, a aproximadamente 160 quilômetros de Teresina, tem muita poesia e história pra contar. Nascida às margens do rio Parnaíba, no século XVIII, é a terra natal de importantes políticos e literatos, entre eles o poeta simbolista Antonio Francisco da Costa e Silva. É lá também que está o primeiro quilombo reconhecido no estado, o Mimbó. Há ainda uma forte tradição portuguesa muito perceptível em seu casario secular e danças folclóricas.

Batalha

Batalha é uma pequena cidade pacífica, mas foi cenário da batalha mais importante de Portugal, a Batalha de Aljubarrota (1385). Essa batalha assegurou a independência portuguesa dos castelhanos e, em honra disso, Rei João I construiu o Mosteiro da Batalha, que hoje é o melhor mosteiro de Portugal.

Esse grande mosteiro representa a transição dos estilos de arquitetura Gótico ao Manuelino e, mesmo nunca tendo sido finalizado após 100 anos de construção, influenciou fortemente a arquitetura portuguesa para gerações futuras.

Porto

Segunda maior cidade de Portugal, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial e apreciada pela produção de vinhos e por suas majestosas construções históricas. Os primeiros registros da cidade do Porto estão datados em 417, quando era passagem obrigatória no país, já que o porto de Portugal se encontra lá, banhado pelo Rio Douro. Em cada rua, arquitetura, monumento, se pode ter a certeza de que o belo município tem muita história para contar.

A cidade do Porto foi cedida a D. Hugo, o qual fez o município se desenvolver durante os séculos e a levou a ser bastante disputada por reis e bispos dispostos a controlar a economia da cidade, o que deixou marcas em Portugal. Até sua administração passar para D. João I, que concordou com a passagem definitiva do senhorio pelo porto. Porém, só no reinado de D. Afonso IV é que foi construído um muro separando a cidade do Rio Duoro.